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Walter e o castor

Isabel Castro

 

É o filme de Jodie Foster que, até à data, menos sucesso teve – isto se, para a medida do êxito, atendermos apenas ao factor bilheteira. A realizadora-actriz já ensaiou uma explicação para o facto: o público norte-americano não vai em conversas de misturas entre drama e comédia. E “The Beaver” é isso mesmo – drama com comédia, ou talvez mais comédia com drama, se tivermos em conta a ordem dos acontecimentos.

A história que Foster conta, atrás e perante as câmaras, é simples: o herdeiro de uma fábrica de brinquedos em tempos bem-sucedida, pai de família, com um filho pequeno e outro quase no final da adolescência, enfrenta uma depressão profunda que nem médicos, terapias, medicamentos, jardinagem e livros de auto-ajuda conseguem afastar.

Walter Black, o pai de família, é Mel Gibson, com todas as qualidades de interpretação que lhe são reconhecidas. É casado com Meredith (Foster), personagem quase invisível que ganha dimensão nas opções que toma: a depressão está a dar cabo do casamento, da noção de família tão norte-americana (pai feliz com mãe feliz e crianças felizes), e a separação acontece.

Até aqui nada de novo, há que reconhecer. Mas “The Beaver” surpreende, desde logo pelo tom irónico (a tal comédia) das primeiras cenas, em que se faz um retrato de Walter. Mas não se deixe enganar: ainda não desfez o sorriso que esboçou e já o filme adquire contornos negros. Um negro que não é o do humor negro, mas sim de tragédia.

Regressemos à história que Foster nos conta: Walter sai de casa e, a dada altura, encontra uma marioneta de pelúcia, em forma de castor, dois dentinhos aguçados que tanto são capazes de inspirar ternura, como uma certa sensação de horror. O castor fala com a voz de Walter, que decide só comunicar com a voz do castor, apresentado aos seus interlocutores como “The Beaver”.

E da narrativa mais não dizemos. Das ideias que ficam, algumas notas, a começar pelo jogo emocional que Foster consegue fazer passar. A depressão não é tema fácil e a realizadora-actriz encontrou um jogo psicológico eficaz, ao provocar no espectador emoções semelhantes às que se vivem dentro da tela: ora a coisa corre bem e o problema parece estar resolvido, ora a solução desfaz-se e, num registo imprevisível, o espectador estremece no sofá.

Porque a depressão não é um tema fácil, “The Beaver” ganha pontos ao não recorrer a lugares-comuns (que se saiba, Walter encharca-se em álcool uma só vez) e pelo quão surpreende acaba por ser a introdução de uma marioneta que tem mais vida, pela voz de Walter, do que uma família inteira.

“The Beaver” é também, em certa medida, um exercício cinematográfico que coloca em causa padrões que são muito norte-americanos. Na relação Walter-Meredith o amor não é eterno e, mais importante, os filhos, a casa e o carro de dimensão familiar não justificam o sacrifício de viver com a apatia louca, primeiro, e com o castor, depois, que intermedeia o relacionamento do clã Black.

Foster questiona padrões mas não rompe com eles – e é aqui que “The Beaver” poderia ter ido mais longe, pisando o risco mais alguns centímetros. À surpresa da narrativa não corresponde um final arrebatador. O filme perde-se nos seus últimos capítulos. Assim como se perde na fotografia, à qual não faria mal algum um tom ligeiramente mais cru.

Ainda assim, “The Beaver” é filme a não perder: faz parte daquele conjunto de registos que provavelmente não voltaremos a ver no futuro próximo (não há detalhes que fiquem por conferir e está também longe de ser um filme extraordinário), mas que não se esquece com facilidade.

 

The Beaver

Jodie Foster, 2011 

 

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