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Design de interiores

Sónia Nunes

 

Há um portão que fica a meio caminho entre o real e o fantástico, que nos diz como usamos a vida e nos mostra como pensamos que a vida deve ser usada. Cada um tem o seu e o dela estava aberto, ainda que só das seis às vinte e uma, por obra do Governador e graça da sua senhora. Era no espaço público que entrava no porto interior, não o dos barcos e lotas que acalentam a ideia de que há outras mercadorias para expor à venda além do jogo, mas o porto das chegadas e partidas que vamos guardando cá dentro e nos lembram que somos passagem. Nada mais, ainda que isso seja suficiente.

As afinidades introspectivas com o portão à Adolfo Loureiro não precisaram de intervalos no tempo e espaço. Era ainda da turma dos recém-chegados, de mapa na mão, queixosa das fraquezas do corpo à humidade que pouco tinha de relativa, aplicada nas orientações dos Serviços de Turismo e desejosa de conhecer o “mais tipicamente chinês de todos os jardins de Macau”, quando decretou que aquele seria o espaço dela para a contemplação. A indicação deu-se logo à entrada quando, ao ver a estátua da mulher sagrada, imitou o escritor que andava a ler para repetir que talvez fosse aquele o verdadeiro deus e encontrar uma elevação do espírito num muro amarelo.

Sabia já que nos jardins tudo fica mais bonito – a velhice, a solidão, as crianças com as empregadas, o eu+tu para sempre gravado a canivete – e que a melancolia se enfeita com flores para ser despejada em lagos de nenúfares. O que nunca lhe tinha ocorrido (certamente por distracção do convívio natural com os ares da serra) era que os jardins também são construídos para satisfazer os caprichos da iniciativa privada mais esbanjadora que, zelosa dos seus luxos e certa da inveja alheia, ergue muros para separar a sua riqueza da pobreza dos outros. Não estava em condições de afirmar quais foram as motivações do tal mercador chinês muito rico que deixou um jardim em herança ao filho. Era história que já não interessava – a fortuna acabou e os muros altos do Lou Lim Ieoc tornaram-se uma fita isoladora das inquietações da cidade, dos apitos das scooters, dos apressados m’goi m’goi m’goi de elevador. O dentro e fora, o portão, o porto interior.

Gostava também de explicar que a afinidade não era forçada pelos lugares menos comuns do que julgava, do agitar elegante dos leques dos homens, das mulheres que andam às avessas para afastar os maus espíritos, dos passeios dos pássaros na gaiola, das canas de bambu, dos erhus que não sabia dizer se estavam ou não a dar as notas certas. Era pelos caminhos sinuosos, estreitados por montanhas de pedra (às vezes com um aventureiro trepador a reinar no topo), que lhe adiaram a beleza esmagadora daquele lago no início do Verão – não me soube dizer se foi antes, depois ou durante a ponte das nove curvas que abriu a boca ao mar rosa das flores de lótus. Era sobretudo por pensar que, quando se isolava de tristeza ou saudade naquele jardim, haveria alguém que espreitava a vida dela pela janela do quarto e um dia iria juntar-se a ela.

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