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Livro com música dentro

Isabel Castro

 

Caetano Veloso não se acha unânime. Chico Buarque também não – há quem goste muito dele e há quem não goste rigorosamente nada, afiança o próprio. Acontece que Caetano Veloso acha que Chico Buarque é unânime. E Chico não acha nada de Caetano Veloso em termos de opiniões em uníssono.

“Eu nunca tive unanimidade. Nunca fui unanimidade. Nunca. Em nenhum momento, em nenhum segundo da minha vida pública eu fui unanimidade. Pode-se dizer isto do Chico Buarque, por exemplo, mas de mim não”, assegurou Caetano, aos microfones da TSF.

Aos mesmos microfones, Chico contrapôs: “Não, isso é falso, porque não existe. Aliás, o Nelson Rodrigues dizia que toda a unanimidade é burra. O que também é uma burrice, porque não existe unanimidade. Essa frase é unânime. Não sou unanimidade. Sou apreciado por muitos brasileiros e detestado por outros.”

As declarações de Chico e Caetano, velhos companheiros de palco, foram feitas não em formato debate mas em tempos distintos, em entrevistas separadas a um dos mestres da rádio em Portugal: Carlos Vaz Marques é um grande entrevistador, um jornalista que nasceu para fazer perguntas, que sabe fazê-las e que as coloca com a mesma naturalidade ao político engravatado, ao atleta, a Chico Buarque e a Caetano Veloso.

Em MPB.pt, obra lançada pela Tinta da China em 2006, Vaz Marques passa para papel uma série de entrevistas feitas para o “Pessoal e Transmissível”, o programa de fim de tarde da TSF que acompanha o vagar do regresso a casa – sempre com um entrevistado diferente, sempre com a mesma arte ao serviço da entrevista.

Ao todo, são 16 nomes grandes da música popular brasileira, o que faz de MPB.pt um pequeno tesouro para quem gosta de bossa nova. E de samba. “As entrevistas aqui transcritas são apenas uma parte (pouco mais de metade) do número de programas que realizei com músicos do Brasil”, explica o autor na nota de introdução (pág. 13). Dezasseis nomes num livro que jamais será datado porque são nomes grandes e as verdades de ontem continuam a ser hoje mais ou menos as mesmas.

Além de Chico e de Caetano, Carlos Vaz Marques entrevistou Maria Bethânia, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal. Ivan Lins conta que tem um baú onde guarda tudo e de vez em quando sai um êxito, como a “Madalena” que Elis Regina cantou: “Chega para você o produtor da Elis Regina, diz que a Elis quer gravar uma música e ela é a maior ídola da sua vida, você vê ela como uma coisa inatingível. Você faz qualquer coisa no baú. Você até constrói um baú novo. Até inventa um baú.” (pág. 114).

Depois vem a filha de Elis Regina, a comparação com a mãe, o pai, Maria Rita que diz “eu não sou a filha de”, que quer ser só ela. Maria Rita que, à data de lançamento deste livro, já tinha conquistado a fama mas não aquela que tem hoje. Maria Rita que explica que não foi a herança musical familiar que a fez subir ao palco, mas sim Rilke, Rainer Maria, o autor de “Cartas a Um Jovem Poeta”. “O conselho de Rilke foi que ele pensasse, nas noites mais solitárias e mais escuras, se sentia que, se lhe tirassem o direito de escrever, ele morreria. Eu substituí o escrever por cantar.” (pág. 129). Maria Rita decidiu que não queria morrer.

Vaz Marques falou também com Carlinhos Brown, Marisa Monte, Tom Zé. E com Lenine, o músico que, para não ir com a mãe à missa, ficava em casa com o pai a ouvir Rimsky-Korsakov, Chopin, Bach, Nelson Gonçalves, Elisete Cardoso, Jackson do Pandeiro, Luís Gonzaga, modinhas portuguesas, canções bávaras e música turca. Lenine que é míope e não usa óculos em palco: “Para mim é um borrão gigantesco, é uma multidão. Pode ter oito pessoas ou oito mil, para mim é a mesma coisa.” (pág. 212).

A seguir vem Chico César, que guarda todo o Brasil na sua música (e África também), Vanessa da Mata. E Edu Lobo, para quem o destino guardava uma carreira de diplomata se Vinicius não lhe tivesse mostrado diplomaticamente outras opções. Lobo que escreveu “Upa Neguinho” para Elis Regina cantar, que escreveu muitas outras músicas para outros cantarem. “Beatriz” passou a ser de Milton Nascimento e acabou na voz de Maria João e no piano de Mário Laginha. Lobo não se sente sequer “um bocadinho roubado”. “Eu me sentiria se estivesse o tempo inteiro fazendo show.” (pág. 250).

Edgberto Gismonti também aqui está – diz dele Vaz Marques que, “no continente musical chamado Brasil, é um território de sons à parte.” (pág. 276). E está ainda Ney de Sousa Pereira, Matogrosso na vida artística, nome que lhe serve para distinguir a vida real daquela que tem em palco. O músico que passa despercebido na rua mas que acha que “as pessoas tímidas são perigosas” (pág. 299) e que encontrou a sua “válvula de escape” na música.

Em jeito de faixa extra, a acrescentar som a este livro de sons, um CD com os sound bites de todas estas entrevistas: as frases que mais marcaram, os sons que é impossível reproduzir por escrito, a “música maluca” de Tom Zé, violão em som de fundo, Bethânia a cantar o seu BI musical, Chico César e a sua Eva negra, mãe de África, mãe do mundo, mãe dos sons que são MBP.pt.

 

Mpb.pt

Carlos Vaz Marques, 2006

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