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Viagem ao Cairo

Isabel Castro

 

Na história das paredes esconde-se a história das pessoas, do mundo, de certos mundos. Assim acontece com o edifício que dá o nome a este livro de Alaa El Aswany, uma pequena obra-prima publicada pela Editorial Presença em 2008. No edifício Yacoubian esconde-se a história de um certo povo, do passado de um país distante. Estamos no Egipto e este mundo tem início em 1934.

Yacoubian era um milionário que decidiu mandar construir um edifício de apartamentos com o seu nome no melhor local da Suleiman Basha. Contrataram-se italianos para dar esplendor à obra, que resultou em “dez amplos andares em estilo clássico europeu, com as varandas decoradas com rostos gregos talhados em pedra, com todas as colunas, degraus e corredores em mármore natural” (pág. 18). Em suma, “um projecto muito belo” no qual se instalou “a nata da sociedade da altura”.

“Em 1952, deu-se a Revolução e tudo mudou”, contextualiza Aswany, num livro que não pretende ser um manual de História, mas que a ela não foge. E a mudança foi de tal ordem que o Yacoubian passou a ser ocupado por militares, para na década de 70 seguir as regras da ‘Intifah’, a política de portas abertas, que fez com que as pessoas abastadas deixassem a Suleiman Basha.

Nasce então um novo Yacoubian, prédio tão importante neste romance como todos os que lá vivem. As salas amplas multiplicaram-se noutras mais pequenas e nasceu uma comunidade no topo do edifício. “Alguns dos novos inquilinos alugavam duas arrecadações contínuas, transformando-as numa única pequena residência com todas as condições (latrina e lavabos), enquanto outros, os mais pobres, se quotizavam para fazer uma casa de banho comum a três ou quatro destas salas.” (pág. 20).

Descemos da cobertura do Yacoubian – onde “as crianças correm descalças e seminuas pelo terraço e as mulheres passam o dia a cozinhar, entretidas com sessões de coscuvilhice ao calor do sol e, frequentemente, com discussões” (pág. 21) – para a porta de entrada, onde se encontra Zaki Bei, um dos moradores mais antigos da Suleiman Basha, homem com estudos feitos em França, “figura extravagante e estimada, que enverga sempre, seja Verão ou Inverno, um fato de três peças de corte solto que disfarça o corpo magro e esquálido” (pág. 11).

Zaki Bei (talvez a personagem mais importante do livro, logo a seguir ao próprio edifício) podia ter sido um homem bem-sucedido na vida, mas não foi: perdeu-se de encanto pelo “prazer sensual”. “Na verdade, a sua vida, que até hoje durou sessenta e cinco anos, centra-se essencialmente – com todos os vaivéns, peripécias e incoerências, em simultâneo felizes e dolorosos – em torno de uma palavra: mulheres.” (pág. 13).

É no Yacoubian que Zaki Bei mantém o seu escritório – que mais não é que uma espécie de segunda casa onde mantém as suas “reuniões”, termo codificado para os encontros amorosos que lhe preenchem a vida. É no Yacoubian que, uns andares mais acima, se encontram outras personagens, de hábitos mais modestos e vidas ainda no início.

As estranhas relações que Alaa El Aswany nos apresenta provam que nas paredes não se esconde só a história: está também o presente, vidas de contrastes, com graus de dificuldade que evoluem à medida que se sobe, fisicamente e não só. Neste prédio do centro do Cairo, escondem-se os “Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian”, que são os pequenos mundos do Cairo que Alaa El Aswany decidiu retratar: os vestígios da aristocracia decadente, a homossexualidade não tolerada, o fundamentalismo que acaba com o amor, o amor onde se menos espera, a prostituição como alternativa à fome.

O livro é apresentado como sendo o romance árabe mais vendido de sempre, mas o pormenor pouco interessa. Foi também adaptado a filme, mas o detalhe não é relevante. “Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian” dão tantos filmes quantos os pares de olhos que o lerem e, garantimos, são ricos em cheiros, texturas e cores. Alaa El Aswany (que além de escritor é dentista e arrancou dentes durante alguns anos no consultório que teve no Yacoubian) transporta-nos para uma cidade que os turistas não conhecem, nem vem nas notícias: é o Cairo de edifícios com gente lá dentro, com passado e com futuro.

 

“Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian”

Alaa El Aswany, 2002

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