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“Escrever continua a ser um hobby”

E isto apesar de já ter vendido mais de um milhão de exemplares. Quando lhe disseram que poderia ser escritor, José Rodrigues dos Santos riu-se. Oito romances depois, confessa-se viciado na escrita de ficção.

Isabel Castro

Não faltam exemplos de escritores que começaram pela realidade para um dia, mais tarde, se poderem dedicar à ficção. Com José Rodrigues dos Santos não foi assim: os romances surgiram por acaso, porque um amigo lhe pediu um conto que acabou por ser um livro. Caso raro no panorama literário português, onde a venda de exemplares é modesta, o autor continua a considerar a escrita de ficção um hobby e um prazer – não uma obrigação.

Ao volume de vendas em Portugal e ao sucesso no mercado internacional, com a obra traduzida em várias línguas, correspondeu uma crítica nem sempre simpática para com o género que adoptou, que alguns entendem ser demasiado comercial para que possa ser enquadrada na literatura dita de qualidade. São reparos que o escritor desvaloriza. Assim como não atribui particular relevância ao facto de, ao contrário do que lhe acontece enquanto jornalista, não ter ainda entrado na galeria de premiados das principais distinções literárias: são coisas que em Portugal, diz, acontecem entre amigos.

Ex-residente de Macau, onde teve o seu primeiro contacto com o jornalismo, Rodrigues dos Santos conta ter boas memórias da cidade, sendo que não descarta a possibilidade de um dia escrever sobre o território. Para já, os cenários são outros: o nono volume chega no próximo mês e o tema está, por ora, no segredo dos deuses.

– De modo diferente de outros autores, não decidiu ser jornalista para um dia poder ser escritor. Como é que surgiu a necessidade (ou a vontade) de escrever histórias que não aquelas que o jornalismo oferece?

José Rodrigues dos Santos – Um amigo escritor que leu a minha tese de doutoramento achou que eu era um escritor em potência, perspectiva que me fez rir. Ele pediu-me que eu escrevesse um conto para a sua revista literária e, como lhe devia uns favores, não tive modo de dizer que não. Comecei a escrever o conto e, a certa altura, apercebi-me que já ia nas 200 páginas. Foi o meu primeiro romance, “A Ilha das Trevas”. A partir daí, fiquei viciado na escrita de ficção.

– Como é que nascem os seus livros? Como é que se desenrola o processo de escrita? Tem uma fórmula ou método que, com as alterações que vão sendo necessárias, vai aplicando de cada vez que decide escrever uma obra?

J.R.S. – Primeiro tenho a ideia de um tema, depois pesquiso-a. O romance nasce da pesquisa.

– Tem oito romances publicados num espaço de tempo que se poderá considerar curto – até por não ser um escritor a tempo inteiro – sendo que todos eles, não obstante a variedade de temáticas abordadas, exigiram bastante investigação. O facto de ser jornalista ajuda no processo de pesquisa?

J.R.S. – Ser jornalista ajuda na escrita, ser professor universitário ajuda na investigação. A pesquisa académica é infinitamente mais profunda e rigorosa que a pesquisa jornalística.

– Li que encara os livros como um hobby. Mas mais de um milhão de exemplares depois do primeiro romance há agora uma espécie de obrigação para com os leitores que fidelizou, e que ficam à espera do próximo volume?

J.R.S. – Sim, talvez. Mas escrever continua a ser um hobby. Um escritor que se sente torturado a escrever só transmite tortura aos leitores. Um escritor que sente prazer na escrita transmite prazer na leitura.

– O sucesso de vendas dos livros que escreveu foi sendo acompanhado por uma certa crítica que coloca a sua obra numa categoria secundária em termos literários. O facto de ter mantido um estilo ao nível da narrativa e uma coerência de escrita poderá levar-nos a pensar que se trataram de reparos com os quais não estava de acordo. A análise está correcta?

J.R.S. – Não tem havido muita crítica negativa. É reduzida e, curiosamente, limita-se a Portugal. A crítica na Alemanha, Holanda ou Itália é muito entusiástica. De qualquer modo, não escrevo os livros que alguns críticos em Portugal gostariam que eu escrevesse, mas os livros que eu quero e gosto de escrever.

– Afirmou há já algum tempo que houve um afastamento dos leitores portugueses em relação à literatura portuguesa motivado pela ausência de histórias nos livros. Continua a ser uma realidade ou aquilo a que se chama a nova vaga de autores tem colmatado essa falha?

J.R.S. – Confesso que não sei porque leio pouco os autores portugueses.

– E, a propósito de contar histórias, como é que acha que uma história deve ser contada? Quais são os ingredientes para uma boa história?

J.R.S. – Não tem ingredientes porque não se trata de um prato de culinária. Um bom romance tem de estar bem escrito e conter uma história interessante. Bons romances são aqueles em que estamos a virar apressadamente a página para perceber o que acontece a seguir; grandes romances são aqueles que nos dão tanto prazer que começamos a ler muito devagar para que nunca acabem.

– Reconhece influências de autores que leu na sua obra?

J.R.S. – Somos influenciados, mesmo sem nos apercebermos, por todos os autores que lemos.

– Os números das vendas fazem dos seus livros um caso extraordinário na cena literária portuguesa. O facto de ser uma figura pública terá, pelo menos no início, ajudado à curiosidade dos leitores?

J.R.S. – Sim, mas apenas no início. Depois os livros ganharam vida própria. De resto tenho excelentes vendas no estrangeiro, onde ninguém me conhece como jornalista.

– Tem obra traduzida para 17 línguas. Quando escreve pensa nos problemas de tradução? E como é que lida com as traduções?

J.R.S. – Não penso nas traduções porque é um problema que me escapa. Por exemplo, em “O Anjo Branco” ponho um personagem a dizer: ‘Esta chuínga é maningue naice’. Como se traduz uma frase destas em alemão sem perder o moçambicanismo colonial? É um problema irresolúvel.

– O seu livro mais recente, “O Anjo Branco”, foi publicado no ano passado. Em entrevistas dadas na altura fez referência ao próximo volume, a sair durante este ano. Já há datas concretas? O que nos pode dizer sobre o romance que aí vem?

J.R.S. – Não posso dizer nada, a não ser que será lançado em Outubro.

– A personagem principal de “O Anjo Branco” tem como ponto de partida o seu pai, de que alguns leitores de Macau se lembrarão bem, uma vez que viveu cá. Tem abordado na sua obra espaços físicos e emocionais da sua família. Há planos para um livro com Macau como pano de fundo?

J.R.S. – Não tenho planos, o que não quer dizer que não venha a escrever sobre Macau. A ver vamos.

– Viveu em Macau e foi aqui que teve um primeiro contacto com o jornalismo. Guarda boas memórias da cidade?

J.R.S. – Sim, muito boas. Fui muito feliz em Macau.

– Falando agora do seu trabalho enquanto jornalista. Como é que surgiu a ideia do programa “Conversas de Escritores”, que pode ser aqui visto na RTP Internacional?

J.R.S. – Foi um projecto que apresentei à RTP. Resultou muito bem, acho.

– Tem entrevistado figuras de destaque da literatura internacional. A conversa com José Saramago resultou também num livro. Existe a possibilidade de se passar a texto outras entrevistas? E há alguma que o tenha marcado de uma forma especial?   

J.R.S. – Um primeiro conjunto de entrevistas já foi vertido para livro, intitulado “Conversas de Escritores”. Estou a pensar em lançar no próximo ano “Novas Conversas de Escritores”.

– O seu trabalho enquanto jornalista valeu-lhe já vários prémios a nível internacional. Também já foi distinguido pelos seus livros, mas não tanto. Os prémios são determinantes para o percurso de um escritor ou o número de leitores que se vai conquistando basta?

J.R.S. – Os prémios em Portugal não têm credibilidade. São dados por amigos a amigos. Quando as pessoas compram os livros premiados e os lêem, ficam tão decepcionadas que não voltam a comprar livros premiados em Portugal. Daí que os prémios portugueses tenham efeitos negligenciáveis nas vendas.

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