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O Brasil contemporâneo na tela

Futebol e samba motivam dois dedos de prosa acerca do Brasil na China, mas o diálogo complica-se quando a conversa pretende ir mais além dos principais embaixadores brasileiros. Fugindo aos estereótipos, o festival de cinema DocBrazil arranca em Pequim este fim-de-semana com uma mostra de sete documentários que pretendem mostrar as várias faces do Brasil contemporâneo à audiência chinesa. Macau recebeu a primeira edição do DocBrazil mas por razoes logísticas está fora da gira da segunda edição, que segue para Tianjin, Shanghai e Shenzhen nos próximos fins-de-semana de Setembro.

“Eu adoro o futebol, o samba e o som da língua Portuguesa”, disse Daniel Hu, 23 anos, interrompendo a leitura da brochura do DocBrazil. Hu iniciou as suas lições de Português há duas semanas na esperança de conseguir um emprego do outro lado do mundo. “Tal como a China, o Brasil também é um país enorme, emergente e com uma presença de dimensão no continente americano. Eu quero descobrir as semelhanças entre o Brasil e a China que superam os laços económicos que aparecem nas notícias”, acrescentou Hu.

Tecnologia, cultura, arquitectura e os problemas sociais no Brasil contemporâneo são os temas de destaque no programa do festival, que é o único evento cinematográfico exclusivamente dedicado a mostrar documentários brasileiros na China.

“A intenção do DocBrazil é mostrar todas as faces do Brasil porque a principal característica do país é a diversidade”, explicou Fernanda Ramone, directora do evento. “Os documentários seleccionados evidenciam as semelhanças e as disparidades entre o Brasil e a China, mas mais importante que isso, sugerem novas pontes de entendimento entre os dois povos”, acrescentou a curadora.

“De dentro da sua paisagem” é um dos pesos pesados do programa. De bicicleta por São Paulo e em visita ao mercado da cidade, o documentário é o relato directo de três estudantes franceses de intercâmbio que contam as suas aventuras e impressões da cidade e do país durante o ano em que estudaram em São Paulo e se adaptaram ao estilo de vida brasileiro.

“O grande segredo do Brasil para dominar o futebol mundial não é segredo algum. Os jogadores brasileiros têm ginga – uma bossa especial para driblar, passar e marcar gols, como se o adversário nem existisse”, diz o narrador de “Ginga”, a alma do futebol brasileiro. O filme é um relato vívido e energético que mostra a forte influência do samba e da capoeira no desenvolvimento do futebol brasileiro como uma forma de arte singular.

Um trio de web-documentários curtos é outra das novidades do programa. “O céu nos observa,” “Satélite Bolinha” e “Som do tempo” mostram a forma como as novas tecnologias influenciaram a vida individual e colectiva, real e virtual dos brasileiros redefinindo o conceito de cidadania no país.

“O DocBrazil foi inspirado pela curiosidade do povo chinês sobre o Brasil”, disse a curadora, que vive e trabalha em Pequim há sete anos. Ramone lamentou a falta de apoio por parte da embaixada do Brasil e das empresas brasileiras na China que perderam uma oportunidade de ajudar a promover a cultura do país.

“O DocBrazil veio com o intuito de tirar um pouco da impressão de que o Brasil é só um país de carnaval, caipirinha e futebol, e acho que conseguiu mostrando diferentes realidades que o publico chinês desconhece, como por exemplo a vida quotidiana e a arte brasileiras”, disse Natasha Fellini, professora universitária de Português em Macau, referindo-se à primeira edição do festival que passou pela RAEM em Fevereiro, onde cerca de 100 pessoas assistiram aos documentários. “O evento deu também uma grande contribuição para a divulgação do português. Os alunos chineses reagiram com muito entusiasmo ao diálogo cultural que se gerou e ficaram ainda mais curiosos para conhecerem o Brasil”, rematou Fellini, que também integra a direcção da Casa do Brasil em Macau, o principal promotor do evento no território.

O DocBrazil estreou-se no território continental em Dezembro de 2010 mas só chegou a Macau em Fevereiro de 2011, o que acabou por inviabilizar a passagem da segunda edição pela cidade por questões de agenda, disse Ramone. Na tentativa de aumentar o número de eventos que promovem a cultura lusófona, Fellini garantiu que a Casa do Brasil em Macau “ainda não desistiu e está fazendo de tudo para trazer a segunda edição”. “Tenho certeza que será um sucesso como a outra.”

Pela segunda vez consecutiva, o DocBrazil convidou um grupo de designers chineses e estrangeiros do Instituto de Design Raffles de Pequim para criarem uma edição limitada de cartazes alusivos a cada um dos documentários. “Os cartazes do ano passado foram uma recreação fabulosa da forma como os chineses vêm o Brasil, o seu povo e a sua cultura através do nosso cinema”, explicou Ramone.

A exibição dos filmes é seguida por uma sessão de perguntas e respostas com um painel de comentadores chineses e estrangeiros que foram convidados por terem uma relação pessoal ou profissional com os documentários. O DocBrazil encerra nos dois dias com buffet brasileiro e espectáculos de música a cargo do grupo chinês de percussão Sambasia e do Zac & Trio Band, que toca jazz com uma mistura de bossa nova, para recrear a atmosfera Brasileira no The Yard, um restaurante-bar no Wudaoying hutong, um bairro típico pululado de lojas de moda, cafés e bares.

Vera Penêda, em Pequim

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