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“Em viagem eu estou mais viva”

Alexandra Lucas Coelho escreve o mundo como poucos repórteres, porque escreve o seu mundo e o das pessoas que vai encontrando. Em “Viva México” viajou ao país da gente que brinca com a morte e comoveu-se. A seguir virá o primeiro romance. Sempre com os pés na realidade, sempre a combater a ficção.

Hélder Beja

Um moleskine, muitos moleskines, notas soltas, diários, conversas, entrevistas, divagações, moradas, nomes, os olhos abertos. Alexandra Lucas Coelho, jornalista do Público, viajante, escritora, pôs os portugueses a ler literatura de viagens escrita por uma portuguesa. A gente lê-a e lembra-se de Bruce Chatwin, pensa em Tiziano Terzani, tem vontade de meter a mochila às costas.

Foi assim, como uma mochilita e pouco mais, que esta mulher embarcou para o México no ano passado (e também assim que, anos antes, voara para o Afeganistão) para escrever reportagens, e de caminho, alinhavar a obra “Caderno Afegão” – também publicada pela Tinta da China. Sozinha, sempre sozinha para intensificar a viagem, para se sentir mais viva, como diz nesta entrevista.

Vamos com ela à Casa Azul de Frida Kahlo, às alamedas da Cidade México e à violência de Ciudad Juárez, recuamos no tempo para lembrar a história afegã, falamos de medo, de capitalismo, de livros e do romance que está escrever: uma história de amor que se cola ao conflito israelo-palestiniano. Alexandra Lucas Coelho tem urgência de fazer mas ao mesmo tempo transmite a calma de quem sabe que vai fazer. Está no Brasil como correspondente mas já publicou este ano o pequeno livro “Tahrir! Os Dias da Revolução”, sobre a queda do regime no Egipto. Acaba de chegar da Amazónia e já pensa no romance que gostava de escrever sobre o povo brasileiro. Aos 43 anos diz que lhe sobra pouco tempo. E que o tempo não é o mesmo quando se está em viagem.

– A Alexandra aterra no México e nós leitores ficamos com a sensação de que vai para descobrir um país e sabe realmente pouco acerca do país. Foi de facto uma descoberta para si, escrever este livro?

Alexandra Lucas Coelho – Foi, certamente. Claro que não parti em branco. Ou seja, digo no começo do livro que não sei nada do México e tenho uma mochila e depois mais à frente especifico que não sei nada do México ‘ahorita’, no sentido de agora, do presente. O pouco que sabia do México tinha que ver com as referências, algumas de música, como a Chavela Vargas, algumas de cinema, no caso do [Luís] Buñuel. Sobretudo tinha que ver com a literatura – não apenas os autores mexicanos, como o Juan Rulfo ou o Octavio Paz, mas também com o que poetas de que gosto muito fizeram com a poesia asteca, a relação que os surrealistas tiveram com o México… Existia para mim um território mítico, que só existia na minha cabeça e que era feito dos vários fragmentos. Claro que existia também a história da Frida Kahlo e do escritor Jean Marie Le Clézio, muito importante para mim. Isto para dizer que fui ao México trabalhando com o Público, foi uma proposta que fiz ao jornal, mas a proposta parte de um desejo antigo. Há um território mítico e é essa construção que nos faz avançar, que determina um movimento. Aquele México que tinha na cabeça e que me fez querer ir era feito desses pedaços todos, por isso é que há um fragmento no livro em que enuncio essas referências que tinha, ainda que possam ser obscuras para algumas pessoas. Mas fiz isso porque queria dar ao leitor a noção do meu ponto de partida. É o território real que depois há-de acrescentar-se ao território mítico, e é por isso que dificilmente uma viagem de alguém a um lugar será igual à de outra pessoa. O lugar vai sendo aquilo que nós somos e que trazemos connosco. O México que fui encontrando partiu necessariamente daquilo que sou, daquilo que naquele momento era relevante. Por exemplo, porque é que dou tanto espaço no livro à Frida Khalo?

– E porquê?

A.L.C. – A Frida Kahlo é um cliché do México e nunca teria dado esse espaço todo à Frida se não tivesse acontecido a coincidência de terem sido encontrados recentemente vários materiais relacionados com ela. Tudo o que lá está vem também do facto de existir um livro novo com fotografias que foram encontradas agora; de eu ter encontrado um livro que tinha todo o guarda-roupa dela que foi descoberto numa casa de banho. Havia uma série de histórias novas que permitiam tentar pegar neste cliché e lidar com ele, enfrentá-lo. Também porque a história daquela mulher é importante para mim muito por via do livro do Le Clézio, uma biografia chamada “Diego e Frida”, um livro lindíssimo. Houve também a circunstância de ter conhecido o neto do [Diego López] Rivera, casualmente, e isso também permitiu ter uma figura em carne e osso, que era um descendente daquela história, e nem sempre de uma forma muito feliz. Isto para explicar que quando partimos para um lugar existe uma relação que determina o movimento. Depois a viagem é essa coincidência e descoincidência, essa densidade que se acrescenta a um território mítico que temos na cabeça, e é isso que é fascinante.

– No livro conta que escreveu a Diego López Rivera neto ainda em Portugal e que ele não respondeu. Como é que faz essa preparação prévia à viagem?

A.L.C. – Claro que penso sempre que fiz um por cento daquilo que devia ter feito. No caso do México isso foi ainda mais verdade, porque José Saramago morreu nas vésperas de eu ir para o México, o que me obrigou a estar no jornal numa altura em que tinha previsto concentrar-me nessa preparação. Foi tudo bastante precipitado. No caso do Afeganistão preparei melhor e muito mais extensamente a viagem. Queria ir ao Afeganistão desde 2001, porque logo a seguir ao 11 de Setembro fui para o Paquistão, estive com refugiados afegãos na fronteira mas não consegui passar. Só fui em 2008 e ao longo de oito anos fui coleccionando livros, montei uma espécie de biblioteca do Afeganistão, li muitos relatos de viajantes. Há coisas muito interessantes. Depois há uma fase logo nas vésperas da partida que tem que ver com os emails que se mandam, os contactos que se pedem, mas mais em cima da hora. Em relação ao México não fiz de forma alguma um trabalho de preparação. Parti numa grande ignorância de tudo o que se tem escrito recentemente e mesmo de muita coisa que se escreveu antes. Tendo em conta a quantidade de materiais disponíveis sobre um território riquíssimo, que foi visitado por muita gente, preparei-me pouquíssimo. Depois, o que fiz e (é essencial para abrir portas que nos levem a outras) foi ter em cada lugar um ou dois contactos que possam levar a outros contactos. Em alguns casos é vital por questões de segurança, mesmo física, no caso de territórios violentos. Mas em geral é vital porque precisamos de ter acesso a pessoas, a lugares, precisamos de olhar para lugares através do olhar das pessoas. São as pessoas que nos conduzem e isso é fundamental. No caso do México, o lugar mais perigoso era Ciudad Juárez, onde nunca aterraria se não tivesse um contacto – e isso foi o que preparei mais. Tinha lido livros sobre Juárez e sabia que queria ir lá, à cidade mais violenta do mundo. O Charles Bowden é um jornalista americano com visão de poeta que escreveu vários livros sobre Juárez. Escrevi-lhe, disse-lhe que estava a planear ir ao México e que queria muito ir a Juárez e se ele me podia ajudar. Ele foi excepcional, respondeu imediatamente. Pôs-me em contacto com o Julian Cardona, fotojornalista e jornalista mexicano que viveu toda a vida em Juárez. O Julian foi o meu anfitrião e foi ele que me abriu a cidade, foi muito importante. É muito diferente estarmos a fazer uma rua sozinhos ou com uma pessoa que lê as marcas do território. Ciudad Juárez interessava-me porque é um lugar em que se concentra uma violência contemporânea que tem que ver com o tráfico de droga, com as mortes que resultam dos cartéis, mas também tem que ver com os êxodos humanos, essa corrente migratória que tenta passar para os EUA e que morre quotidianamente por isso. Toda essa violência não é só a violência dos cadáveres, é também a violência de um mundo que é brutalmente desigual. Juárez foi o lugar onde eu vi o que era o capitalismo. Se calhar em Agosto de 1991, quando cheguei a Moscovo, que na altura era ainda União Soviética, vi o que era o comunismo. Em 2010, vi claramente o capitalismo selvagem e irreversível em Juárez. É um lugar em que as pessoas estão constantemente em alerta, há uma espécie de tremor e sobressalto contínuo – nunca tinha visto nada assim. Não tem turistas e não tem visitantes sem um fim específico. Era vital ter alguém como o Julian, como era vital olhar para a cidade através do olhar dele, porque não saberia decifrar tudo aquilo que estava no meu caminho. A viagem é uma espécie de concentração das relações humanas num curto espaço de tempo e que às vezes são vitais. Faz toda a diferença confiarmos numa pessoa e não confiarmos noutra, entrarmos num carro e não entrarmos noutro, irmos embora num determinado momento ou ficarmos mais tempo. Nalguns casos extremos isso pode significar a vida, mas pode também significar que se abre ali uma porta que nos leva a outra e a outra. Essa multiplicação de possibilidades é talvez o grande desafio da viagem, é excitante, é uma intensificação de estar vivo. A viagem tem esse lado mais erótico, de potenciador da nossa sensação de estarmos vivos, que não é contínua nem é sequer comum. Há muitos momentos da nossa vida em que estamos meio adormecidos. Para mim a viagem tem muito esse carácter. Em viagem eu estou mais viva, é uma mistura de uma espécie de desespero, de uma corrida para lado nenhum, com um grande frémito de vida. Tudo é muito rápido e sabemos que tudo vai desaparecer.

– Nesta viagem ao México, uma das notas dominantes é a relação especial que os mexicanos têm com a morte. Logo no começo alguém diz que o mexicano brinca com a morte. E na parte dedicada a Ciudad Juárez a Alexandra faz a contagem de mortes nos dias em que ficou na cidade. Já esteve em zonas de grande conflito armado, mas foi desta vez que sentiu mais que as pessoas sabem que a qualquer momento podem desaparecer?

A.L.C. – Creio que não posso dizer que foi o lugar onde tive mais medo, porque já houve situações no Afeganistão ou em Gaza que foram mais complicadas para mim. O que foi diferente em Juárez foi esta sensação de olhar para os rostos e sentir qualquer coisa no ar. Não me lembro de em nenhum momento naquela cidade ter sentido descontracção. Todas as pessoas com quem estive estavam em tensão permanente – e isto não tinha sentido em lugar algum. E a sensação de que tudo aquilo está dentro da família… Há sempre a tentação de estabelecermos relações maniqueístas, onde é que estão os maus e onde é que estão os bons, porque é mais fácil estabelecer também os lugares seguros. No caso de Juárez isso não existe, porque aquilo está por toda a parte. Está dentro da polícia, do Governo, do Estado, das instituições, das famílias. A pergunta chave – em quem é que posso confiar? – é muito difícil de responder em Juárez. A cidade é feita de um caldo de gente que muitas vezes não tem raízes ali, não tem redes familiares, não tem pontos de abrigo, e onde o Estado está completamente ausente ou onde o Estado é o inimigo. A sensação de abandono é fortíssima. Em Gaza há uma extraordinária rede familiar, não há um homem a dormir na rua, ninguém é abandonado. Em Juárez as pessoas estão por si próprias e tudo isso é potenciador da violência. Não diria que foi o lugar onde senti mais medo, mas foi o lugar onde eu vi o medo na cara de toda a gente.

– No “Caderno Afegão” nota-se que além de lidar com a sua condição de repórter, também há um peso grande da sua condição de mulher. No “Viva México” não se nota tanto. Que importância tem o facto de ser mulher?

A.L.C. – No “Caderno Afegão” esse foi um factor muito importante. O facto de ser mulher permitiu-me que estivesse com as mulheres, na sua intimidade, porque era mulher e a minha condição de mulher suplantava a minha condição de estrangeira. E permitiu também que estivesse com os homens, porque a minha condição de estrangeira suplantava a minha condição de mulher. Consegui ter acesso a esses dois mundos, o que um repórter homem não consegue, porque não vai mesmo ter acesso ao mundo íntimo das mulheres. No caso do México acho que terá sido quase irrelevante. Agora, fiz qualquer uma destas viagens sozinhas e essa é uma grande diferença. Acabo de voltar de uma longa viagem pela Amazónia, que fiz com um fotógrafo, e tenho a certeza que teria sido completamente diferente se a tivesse feito sozinha. As pessoas estabelecem muito mais facilmente uma intimidade connosco se estivermos sozinhos, porque estamos 100 por cento disponíveis para o que está à nossa volta. Toda a relação humana que se vai estabelecer naquelas semanas é uma relação com os outros, não com o nosso companheiro de viagem. Talvez a viagem seja mais íntima assim, e também o olhar dos outros sobre nós é diferente, porque estamos mais vulneráveis no que isso tem de bom e de mau. Estamos mais vulneráveis ao perigo, mas também a que as pessoas queiram estar connosco. Essa vulnerabilidade do viajante solitário tende sempre a intensificar a viagem, a torná-la mais interior por estarmos mais disponíveis para as pessoas daquele lugar.

– Fez as viagens que culminaram nestes livros com propósitos de trabalho, para o Público. Os livros que escreveu vão-se desenhando ao longo desses dias em reportagem? O que é que aproveita do que vai sendo o seu trabalho?

A.L.C. – Foram processos muito diferentes. No caso do Afeganistão o que aconteceu foi que fiz mesmo um diário à parte das reportagens. Escrevo sempre em cadernos moleskine. Para o Afeganistão levava os meus cadernos de reportagem normais, onde tomo as notas todas, e levava um caderno moleskine só para fazer um diário. Normalmente à noite escrevia nesse diário e houve dois processos paralelos. Quando voltei demorei mais de seis meses para começar a escrever o livro do Afeganistão. O que fiz foi passar esse diário para o computador e ampliar cada dia, incluindo cronologicamente partes de reportagem quando isso fazia sentido. O “Caderno Afegão” foi cosido assim, tendo como base um diário inédito que fiz. O “Viva México” foi muito diferente, porque não fiz nenhum diário de viagem. Os meus cadernos de reportagem tinham tudo, fosse uma conversa, uma entrevista, uma reflexão mais pessoal. O que aconteceu foi que voltei, escrevi imediatamente as reportagens e fiz imediatamente o livro, num mês. É um livro que acho mais pessoal, menos racionalizado. Estava ainda muito dentro daquela viagem e quis escrevê-lo sem mastigar muito daquilo. Escrevi primeiro as reportagens que saíram no jornal e depois tirei férias – passei as férias grandes a escrever o livro. Grande parte do “Viva México” foi escrito de raiz, embora as reportagens estejam lá dentro, nos dias em que aconteceram. Sinto-o como um livro menos jornalístico, em que o narrador está mais presente. Mas não pretendo fazer mais nenhum diário de viagem assim.

– Ia perguntar-lhe exactamente isso, até porque falou da viagem à Amazónia. Não pensa fazer alguma coisa do género sobre essa ou outras viagens?

A.L.C. – Tenho 43 anos e não me interessa estar a fazer a mesma coisa, tenho pouco tempo. O “Caderno Afegão” e o “Viva México” são dois livros diferentes, apesar de perceber que eles têm semelhanças. Foram processos diferentes e não senti que fosse repetitivo, pelo contrário. Mas está bom assim, não quero estar a repetir aquele processo. Claro que agora podia agarrar nos meus cadernos da Amazónia e fazer de novo um diário, mas não estou interessada, quero ir noutras direcções. Não devemos nunca dizer nunca, mas isso não está no meu espírito, de todo.

– Na escrita, além do que é o seu trabalho enquanto repórter, tem outros projectos?

A.L.C. – Estou a escrever um romance que, se tudo correr bem, ficará acabado no final deste ano. É um romance que comecei a escrever no ano passado e em que planeava trabalhar nesse Verão em que acabei por fazer o “Viva México”. Entretanto voltei ao romance já aqui no Brasil, tirei férias antes de ir para a Amazónia e o que fiz foi estar a trabalhar no romance, que tem que ver com os anos que passei a cobrir o Médio Oriente. É uma história de amor que se passa em vários lugares mas que tem que ver sobretudo com o conflito israelo-palestiniano. Se tudo correr bem, isso é o que vou publicar a seguir. É provável que ainda este ano saia também um livro de crónicas que mantive no Público. Mas interessa-me muito mais ir numa direcção cada vez mais longínqua em relação ao jornalismo. O que tenho vontade de fazer em relação ao Brasil é um romance também, não é um livro de viagens.

– Quer aventurar-se na ficção.

A.L.C. – Não gosto da palavra ficção, porque para mim o difícil é conseguirmos atingir o real. Muitas vezes a ficção é aquilo que tapa o real. O real é a coisa mais extraordinária e poética que existe, mas claro que tem de haver uma transfiguração, porque uma coisa é o real, outra coisa é a realidade. O que acho que acontece hoje é que estamos mergulhados na ficção. A realidade transformou-se em ficção. Aquilo que sabemos sobre o Afeganistão, sobre Gaza, sobre as favelas do Brasil, tudo aquilo que eu não sei sobre a China, tudo isso que sabemos sobre lugares onde não estivemos é ficção. Os noticiários da televisão são ficção, são enredos, são um conjunto de clichés que constroem umas narrativas sobre o que os lugares e as coisas. O trabalho de transfiguração deveria ser ir além disso e tocar no real que está escondido além disso. O jornalismo deve ser essa tentativa constante de trazer o real desse pântano de ficção em que as coisas são transformadas constantemente. A criação – e a literatura não é o jornalismo – é essa transfiguração de uma determinada realidade, que depois, de alguma forma, intensifica o real e consegue dar a ver, e consegue mudar-nos. É isso que procuro quando leio poesia, quando leio prosa. Eu quero ser outra pessoa, quero ter um combate com aquilo, quero ser alterada, quero tocar, cheirar, ver, quero que aquilo seja uma matéria física. O texto não é só para ler, o texto é uma matéria física. Quero atravessá-lo, quero que ele me atravesse e quero que seja real nesse sentido físico. Se eu puder evitar a ficção e ir lutando com ela, prefiro.

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