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Meditação sobre uma data real

Dez artistas reflectem sobre 11 de Setembro. “911 + 10” apresenta uma dezena de percepções sobre o terror, a reconfiguração do real e a esperança. Para ver na Livraria Portuguesa a partir de domingo.

 

Maria Caetano

 

“Uma data é ela mesmo nada de especial, o importante é o que vemos nela.” Para a maioria, o dia 11 de Setembro ficou data de morte, de medo e de revolta – uma imagem gráfica que regressa todos os anos (911 ou 11/9), trazendo consigo a memória visual forte do fumo, de uma pequena mancha em forma de avião, do embate contra duas torres, lado a lado, em Manhattan, vivida pela maioria também junto aos ecrãs de televisão.

“Nenhum acontecimento mundial nos terá atingido e chocado mais do que aquela terça-feira em que o mundo parou para acompanhar em directo através da TV todo o drama e caos, e o sentimento de revolta, o medo e a insegurança passaram a ser calamitosos e nunca mais nos largaram”, diz José Drummond, comissário da exposição “911 + 10”, que fica patente a partir de domingo na galeria da Livraria Portuguesa.

A mostra exibe, dez anos depois, obras de dez autores: Chan Ka Keong, Hugo Pinto, João Vasco Paiva, José Drummond, Mina Ao, Pakeong Sequeira, Peng Yun, Rui Rasquinho, Tan Xue e Yukko Chan.

“Interessa lembrar pela memória e profundo respeito dos que foram atingidos pelos vis ataques de que vivemos num mundo onde aquilo que julgávamos impossível se tornou realidade”, diz Drummond. O repto seguiu também para que os artistas reflectissem “sobre o legado deixado pelos ataques especialmente na cultura do olhar e do pensamento”.

Os trabalhos na exposição surgem como uma “meditação” sobre a declaração terrorista e os episódios que se desenrolaram até ao presente momento, sobre a reconfiguração no estatuto do real, sentido ou televisionado, conforme alerta a nota introdutória da exposição, citando também o filósofo esloveno Slavoj Zizek.

 

Todos os 911

 

Chan Ka Keong mostra um conjunto de vídeos (“Pieces”), atestado de uma presença frágil na qual um objecto fragmentado, uma garrafa, é questionado sobre o seu antes e o seu depois. Hugo Pinto exibe duas fotografias (“September”) – figuram uma sala de espera de um possível aeroporto, e destroços ou resíduos – para reflectir sobre o estatuto do real, sobre a codificação das imagens.

João Vasco Paiva colabora com Tan Xue numa instalação de som e imagem que encena uma guerra de papagaios de papel e simultaneamente transporta o público para uma praia do Vietname, numa peça de sound art em que discursos de natureza política se cruzam com sons casuais, adquirindo musicalidade.

Mina Ao dá a ver “Twins”, painéis de pintura que exibem duas torres, sugerindo um avião e uma composição de comboio – símbolo de duas calamidades: os ataques de 11 de Setembro e o acidente ferroviário de Wenzhou, ocorrido a 23 de Julho último. Fortes Pakeong Sequeira realiza, como habitualmente na sua obra, uma performance de desenho ao vivo.

Há ainda um vídeo de Peng Yun (“Then”) e uma ilustração digital de Rui Rasquinho, sem título, que remete para os tumultos de Urumqi, ocorridos a 5 de Julho de 2009, dos quais resultaram 184 vítimas mortais de acordo com dados oficiais. “Leave me with ___.” é a proposta de Yukko Chan, em pintura digital, para preencher com “tears/blood/911/who/love/peace/hope/pray/future/wound”.

E José Drummond exibe o seu “11 de Setembro de 1966”, uma memória em papel, luz e sais de prata de uma criança que apaga a sua primeira vela de aniversário. Como ela, no mesmo dia, noutros anos, outros – “poetas, filósofos, astronautas, criminosos, actores, economistas”, conta-nos o autor da instalação que lista 30 pessoas nascidas a 11 de Setembro, tal como Drummond. “O meu trabalho é antes de mais uma homenagem a todas as vítimas e a todos os que sofreram com os ataques”, conta.

“O importante é que devemos continuar a acreditar que somos humanos, que somos capazes de melhor, que respeitamos o outro e que aprendemos com o passado. No meu caso ao utilizar uma fotografia de mim próprio com o meu bolo de anos quando tinha um ano pretendo antes de mais deixar uma mensagem de esperança”, diz também.

José Drummond lembra que “todos os que nasceram a 11 de Setembro e que permanecem vivos não podem deixar de ligar esta data a si próprios numa perspectiva completamente diferente da maior parte das pessoas, não podem eles nem podem as suas mães, os seus pais, as suas famílias”.

“Afinal o que é importante é que não esqueçamos que o mal existe, mas que tenhamos sempre presente que só nos consideramos humanos quando tocamos o bem e afinal não existe nada de mais essencial na vida do que essa constatação, é essa capacidade para nos considerarmos humanos que nos dá valor e que nos permite construir algo”, defende.

A exposição “911 + 10” é inaugurada no próximo domingo, às 17h, e fica patente na galeria da Livraria Portuguesa até ao dia 21.

 

AFA assinala a hora dos ataques

 

“An Affair to Remember”. É com este título que James Chu reúne obras de há dez anos, iniciadas após os ataques de 11 de Setembro de 2001 ocorridos nos Estados Unidos, e uma instalação em memória das vítimas do atentado terrorista. A mostra acontece numa noite, e tem carácter irrepetível, decorrendo domingo entre as 20h46 e as 23h e tendo início à hora do embate contra as torres do World Trade Center em Nova Iorque. “In Memory of…”, pintura iniciada em 2001 e concebida ao longo de uma década, representa as torres de Manhattan; “Mercy” é também uma pintura sobre um mapa da rede de metro de Nova Iorque, produzida durante o mesmo período. Depois há uma instalação especial, feita a partir de incenso, com a forma das Torres Gémeas e cercada de fotografias tiradas pelo autor em 2001, apenas alguns dias antes de 11 de Setembro, no topo dos edifícios que foram alvo do ataque. A quarta parte da instalação consiste em “ouvir o vento” – 2977 sinos, tantos quantas as vítimas do atentado, soarão toda a noite.

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