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O México dela

Hélder Beja

 

O México dá vontade de chorar. A frase não é minha, é de Alexandra Lucas Coelho. O México dá vontade chorar e aqui já percebemos ao que vamos: um livro na senda do que foi “Caderno Afegão” mas com muito mais da mulher que a autora é antes de ser jornalista, um livro que vai mais directo ao coração.

“Viva México” começa com uma mulher a embarcar do velho para o novo mundo, da organização para aquilo que se espera caótico. E começa também com uma leitora que conhece Octavio Paz, Rulfo, Bolaño (que não nasceu lá mas lá se plantou) mas que não conhece o México e a urbe que roubou o nome ao país. Alexandra Lucas Coelho encontra uma cidade que também tem bairros artísticos, cafezinhos e livrarias apinhadas. Ela surpreende-se, a gente também.

Afinal não anda tudo aos tiros neste México. Mas a morte está ali, passa dentro de um táxi manhoso a acenar, chama-te do multibanco, como que a dizer que o dinheiro é parceiro da morte. A morte anda de mão dada com o narcotráfico, ou vice-versa, e juntos, namorados, formam uma parelha terrível. Mas antes de subir o país, para norte e para morte e para Ciudad Juárez, a escritora ainda nos mostra uma cidade (e uma universidade) que apetece visitar. A casa azul de Frida, os mercadinhos, aquela gente que é ‘muy cabrona’ mas muito verdadeira e senhora do seu nariz.

Depois, e antes da viagem para sul, vem a parte mais intensa do livro, esse compêndio de coisas más que é Ciudad Juárez, em que são assassinadas dezenas de pessoas todos os dias. Repito: assassinadas às dezenas, todos os dias, pessoas. Imaginamos Alexandra Lucas Coelho sozinha, a fazer-se a mais um voo ou a outro autocarro e pensamos que é preciso coragem. Por mais contactos que se tenha, por mais gente que nos espere. É preciso coragem.

É em parte essa capacidade de se dar à realidade e ao risco, e de querer estar onde a realidade é mais pulsante, que faz de Alexandra Lucas Coelho uma repórter singular. Os contactos que escolhe, e aqueles que vai fazendo quase por acaso (as viagens quando são boas têm muito de acaso), revelam uma argúcia que lhe permite, em poucos dias, engolir um país com séculos de história e servi-lo assim, num livro com caveirinhas na capa.

Claro que também se percebe muito trabalho e “Viva México” só ganha com isso. Não é uma obra de um viajante profissional que nos vai dizendo como é espectacular isto e aquilo, que nos vende banha da cobra ou outra camada qualquer desnecessária. O livro é também, no repasso histórico que faz, um documento interessante para perceber a colonização do México pelos espanhóis e o que sobra dela, o momento em que a magia perdeu para o ouro, como escreveu Le Clézio, como parafraseou Lucas Coelho e como eu repito aqui.

A isto tudo junta-se a bagagem cultural que a autora carrega e que lhe é tão vital para a escrita como balas para um guerrilheiro. Dela se serve sem nos esmagar e com ela nos dá vontade de ler mais aquele autor, espreitar mais aquele filme. Com ela nos dá mais ganas de viajar.

 

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