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Os poetas

Isabel Castro

 

Disseram-me um dia que era poeta – e eu sorri. Os poetas eram barbudos, sim, mas liam Ruy Belo na brasileira, entre as cinco e as seis da tarde, sob o olhar descrente do grupo de velhos que ali envelheceu, que esteve sempre ali, nas mesas ao fundo, à direita de quem entra pela porta principal.

Este poeta não tinha ar de poeta, que eu tivesse dado conta – mas é certo que me dizia ‘bom dia menina’, mesmo que nunca tivéssemos sido apresentados. Os outros, os da brasileira, embrenhados no Belo, não diziam ‘boa tarde’, não diziam sequer nada. Eram poetas e isso bastava-lhes para esticarem as barrigas onde penduravam os livros do Belo.

Conheci o poeta das barbas longas e escuras, embrenhadas nelas próprias, numa paragem de autocarros que nunca me serviu, porque àquela hora não havia autocarros. A profissão faz-nos viver a ritmos estranhos e, à época, estranha era a hora a que o meu dia começava, por ainda ser noite. Andava em sentido contrário ao resto do mundo que vive sem sol, com os olhos ainda pouco abertos, 45 minutos com o passo estugado a caminho de um emprego em que os atrasos não são admitidos porque os segundos significam eternidades de silêncio.

Só assim se justifica que não tivesse dado pelo poeta. Não que não reparasse nele, roupa velha, barba longa e desgrenhada, escura, olhos atentos no escuro, olhos escuros sempre abertos – nunca o vi dormir. ‘Bom dia menina’, ‘bom dia e eu nem sequer sei o teu nome, tu não sabes o meu’.

Há um dia em que me dá um papel, dobrado em quatro, letra tremida, palavras que não faziam sentido algum mas que eram sobre a vida. E então dizem-me que é poeta, eu sorrio, as palavras passam a fazer todos os sentidos possíveis da poesia. Dobrei o papel em quatro e aqui ficou, para aqui estar. Refiz a vida e deixei de passar pela paragem de autocarros que nunca me serviu.

Depois há outro dia em que fico a saber que morreu. Só nesse dia lhe percebi o passado, que a morte saiu nos jornais nacionais. Só nesse dia lhe fico a saber o nome, a família, a África dele, o país que o levou a querer estar ali, na paragem, sem preocupações com declarações fiscais, o empréstimo da casa e o namorado da filha, o aumento do iva e do irs e de todos os outros impostos que começam com i.

Refiz a vida e refiz o mundo, mas a profissão faz-nos viver a ritmos estranhos e voltei a acordar de noite. Menos minutos de passos, a cidade é mais pequena, mas igualmente apressados, que sem sol nunca o tempo é suficiente e os caminhos são sempre longos.

Chegou então a passagem diária por um jardim, com bancos como os jardins costumam ter. Um jardim que na altura já sabia ser o de São Francisco, enquadrado de rosa, de verde, com bancos como os jardins costumam ter. E mais um velho sem idade, de olhos atentos, barba longa e negra e desgrenhada. Sempre acordado, sempre alerta, e eu com saudades do ‘bom dia menina’ que ele, de olhar desconfiado, nunca me ofereceu.

Ainda espreitei várias vezes, com a vergonha de quem espreita a vida dos outros, para os rolos de papel que guardava naquele banco de jardim que lhe servia de casa. Nunca cheguei a saber a verdade, mas decidi um dia que não podia ser poeta. Porque jamais escreveria “ninguém como nós conhece o sol”. E porque nunca me disse ‘bom dia menina’.

 

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