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“Senti que nasci demasiado tarde”

Fotografou alguns dos momentos mais importantes do último quartel do século XX, mas gostava de ter estado vivo 100 anos antes, na altura em que se definiu a China moderna. Liu Heung Shing conta com um Pulitzer na carreira e uma obra que muda a forma como vemos 1911.

Isabel Castro

Na próxima semana, dez cidades do Continente inauguram em simultâneo uma exposição que poderá, se os desejos do seu mentor se realizarem, alterar o modo como a população chinesa – ou pelo menos alguma população chinesa – lida com a história. Na China não se pode falar de uma memória colectiva assente em imagens e foi para colmatar essa falha que Liu Heung Shing, talvez o mais importante fotógrafo do país, procurou fazer no seu trabalho de edição para a publicação de “China in Revolution: The Road to 1911”, o livro que acompanha a mostra que tem estado patente ao público nas últimas semanas em Hong Kong e que agora ruma à China Continental.

A obra foi já apresentada em língua chinesa e conhece edição em inglês no final deste mês. Ao todo, são 416 páginas de fotografias que constituem uma narrativa sobre um dos períodos mais decisivos para aquilo que é hoje a China: os acontecimentos que antecederam 1911 e que levaram ao fim da dinastia Qing continuam a ter profundas marcas no nacionalismo chinês, ou não tivesse antes disso passado o império por um século que ficou marcado como sendo o da humilhação.

Liu Heung Shing – que em 1992 ganhou o Pulitzer pelo trabalho que fez aquando do fim da União Soviética – correu o mundo e mergulhou em arquivos, falou com historiadores e especialistas, procurou nas colecções dos antigos colonizadores a memória que falta à China. Encontrou uma perspectiva ocidentalizada daquilo que era o país no final do século XIX e início do século que se seguiu: o império à beira do colapso era um destino exótico e muitos estrangeiros que o fotografaram preferiram os estúdios para encenar mandarins de longas tranças às ruas e paisagens que a imensa China sempre ofereceu. Mas Liu foi à procura da vida quotidiana e encontrou-a: é na história das pessoas que se encontra a história de uma nação. Trabalho concluído, o antigo correspondente da Associated Press em Nova Deli, Moscovo, Sri Lanka e Afeganistão só lamenta não ter nascido antes para também ter podido fotografar os momentos que levaram ao nascimento de uma nova China.

– “China in Revolution: The Road to 1911” é-nos apresentada como sendo a primeira obra que reúne um grande número de imagens sobre o período que antecedeu a revolução que pôs termo à dinastia Qing. Quão complexo foi o trabalho de pesquisa?

Liu Heung Shing – Foi necessário fazer muita pesquisa, ver quais as instituições que tinham determinados materiais, etc. Depois dessa pesquisa preliminar, tive de ir ver os originais, avaliar a sua qualidade, até que ponto poderia usar as imagens, uma vez que as fotografias foram tiradas há mais de 100 anos. Vi tantas colecções quanto foi possível – estive em Taiwan, em várias cidades da China Continental, fui duas vezes à Austrália, estive nos Estados Unidos. Ao Reino Unido fui três vezes, a França duas. Depois ainda estive na Alemanha e no Japão.

– Em que é que essa pesquisa difere da feita para outros álbuns do género, em que se procuram imagens antigas que não estão obrigatoriamente disponíveis num só local? 

L.H.S. – Vou dar-lhe um exemplo: a abordagem que se fez no passado consistia em escolher-se um fotógrafo, olhar para o seu portfolio, e ver o que tinha feito em determinada época ou ano. Para este projecto, o que fiz foi ver o máximo de trabalhos sobre a China para que fosse uma pesquisa abrangente e completa sobre os tumultuosos anos que aceleraram o processo do colapso da dinastia Qing. Apesar de serem diferentes fotógrafos – e há fotografias de diplomatas, missionários, viajantes, aventureiros – trata-se de uma nova abordagem, porque todas estas fotografias juntas constituem a memória colectiva do povo chinês. E é muito importante que a China de hoje, com uma economia de tamanha escala, acarinhe a sua própria história. Precisa de o fazer de uma forma em que se respeite a seriedade que a própria história implica. Tem havido falta de respeito por questões como os direitos de autor, não se presta a atenção devida à qualidade das fotografias. Quando olhamos para muitas obras publicadas no Continente sobre a história do país, encontramos com frequência imagens que foram retiradas não se sabe de onde, que são copiadas várias vezes e de novo copiadas até se chegar ao ponto em que só há branco e preto – não há tons, não há meios-tons. Considero que essa abordagem peca por falta de seriedade. Porque é que as pessoas não hão-de encarar os arquivos fotográficos com tanta seriedade como lidam com pinturas e antiguidades? Portanto, esse momento histórico tão importante – porque é ele que leva à China moderna, o Movimento do 4 de Maio, o colapso da dinastia Qing, o fim da era dos senhores da guerra – é bastante recente, e não havia uma abordagem abrangente visível, tínhamos apenas de nos basear nas palavras. Mas as imagens provam o que foi esse período – e as imagens existem. O objectivo foi organizá-las de modo a que seja fácil para as pessoas olharem para elas e perceberem que a história está a ser tratada com seriedade. Foi feito muito trabalho de pesquisa. Havia colecções individuais já publicadas, mas nunca tinha sido feito um trabalho tão abrangente para um só livro. Posso dar-lhe outro exemplo: só em Inglaterra, existem arquivos na Universidade de Oxford, na Royal Asiatic Society, na British Library, etc.. Mas foi a primeira vez que um par de olhos – os olhos de um fotógrafo – foi a vários pontos do mundo para fazer um trabalho deste género. Falei com muitos académicos para depois olhar para as fotografias e poder dizer: ‘Ok, agora já sei o que significam’. Certos detalhes ganharam novos significados.

– Diz que o público chinês não está familiarizado com a linguagem da fotografia. Por outro lado, sabemos que estas efemérides na China costumam ser assinaladas com exposições que obedecem a um outro tipo de abordagem. 

L.H.S. – Os chineses têm uma longa história, mas não encaram a fotografia como linguagem visual. Quando a fotografia descreve detalhes, consegue fazê-lo muito bem, de um modo que não pode ser substituído por palavras. Alguns psicólogos dizem que o nosso lado esquerdo do cérebro pensa em imagens e o lado direito pensa em texto. Por exemplo, se lhe falar de Mao [Zedong], Marilyn Monroe ou Kennedy, sabe exactamente como são. Se falarmos da guerra civil aos norte-americanos, eles sabem como foi, porque existe uma memória colectiva feita de imagens que foram passando. A China aprecia muito antiguidades, algo que é importante porque faz parte da história da civilização. Mas se as pessoas não têm um boa compreensão visual da sua história, é uma pena, porque o material existe.

– Tem uma longa e conceituada carreira enquanto fotojornalista. Não é a primeira vez que se dedica a pesquisa para livros que retratam a história da China. Fazer este trabalho de edição é muito diferente de estar atrás de uma objectiva?

L.H.S. – Enquanto fotojornalista fiz vários trabalhos na China, mas também o fim da União Soviética e estive na guerra do Afeganistão quando as tropas soviéticas ainda lá estavam. Sinto que, na condição de fotojornalista, tive muita sorte por ter estado presente em vários acontecimentos que marcaram os últimos 25 anos do século XX. Mas durante o período em que estive a trabalhar para este livro, que retrata algo que aconteceu muito antes de mim, senti por vezes que nasci demasiado tarde, porque aconteceram muitas coisas nessa altura. Editei este livro a pensar no quotidiano, na vida social, porque é a vida quotidiana que nos permite perceber o que foi 1911. Não foi um incidente isolado, de modo algum. É preciso termos em conta as Guerras do Ópio [1840-1842 e 1856-1860], a Revolta dos Boxer [1900], os vários conflitos na China e na região. Para podermos olhar para esse período, agora que temos calma para ler aquelas imagens, achei que devia olhar para elas e fazer uma representação visual que permita às pessoas captar a informação que elas transmitem. Espero que seja um complemento à história escrita.

– É autor de alguns retratos que se tornaram icónicos de determinados momentos da China. Fotografou Tiananmen, o casal debaixo da ponte com o tanque a passar, mas também as mulheres chinesas no cabeleireiro com rolos na cabeça, o advento dos óculos de sol e da Coca-Cola. E fotografou líderes chineses. Prefere o retrato a outro tipo de abordagem fotográfica?

L.H.S. – Não encontro qualquer diferença. As pessoas dão diferentes nomes e categorias à fotografia, mas para mim fotografia é fotografia. Tudo reside na empatia que se cria com o objecto, quer se trate de um retrato de uma pessoa que está à nossa frente ou de um palco de guerra. Quando se olha para a fotografia como um instrumento, está-se a fixar a humanidade, está-se a documentar a humanidade. Acho que tive muita sorte por pertencer a uma geração – que está talvez a desaparecer – que trabalhava para organizações que enviavam alguém como eu para a Índia durante quatro anos, para a União Soviética durante cinco e para a China durante outros quatro. Diziam-nos para levarmos a família, os filhos, ficávamos lá, observávamos, vivíamos, respirávamos – não passávamos a vida a entrar e a sair. Por exemplo, mesmo quando foi Tiananmen, ou então na história da União Soviética, Nova Iorque não me telefonou a dizer o que eu tinha de fazer. Fiz o que tinha de fazer, as pessoas gostaram e disseram-me para continuar a fazer. Era uma grande liberdade – não sei se hoje as pessoas continuam a poder usufruir dela. O conceito de correspondente no estrangeiro está a tornar-se numa espécie rara. A Life Magazine enviava Cartier-Bresson para um trabalho e não lhe dizia quanto tempo iria lá ficar. Essa era acabou. Quanto a mim, continuo a fazer a mesma coisa: por que hei-de olhar de um modo diferente para uma pessoa que vive numa zona pobre da Índia ou da China daquele com que fotografo um primeiro-ministro ou um grande artista chinês contemporâneo? Aplico as mesmas técnicas. É algo que muitas pessoas não percebem. Se não se está envolvido com o que se está a fazer, só se está a pensar em obter resultados diferentes dos vários trabalhos que já foram feitos. Mas quando se tem uma visão pessoal em relação ao objecto, quando se olha nos olhos para ele e ele nos olha, cria-se uma dinâmica muito interessante.

– A era dos fotojornalistas enviados para determinado ponto do mundo e com liberdade para desenvolverem o seu trabalho terminou. É também a consequência do desenvolvimento da tecnologia? Hoje em dia todos podemos ser fotojornalistas, na medida em que rapidamente captamos um acontecimento e o fazemos chegar ao resto do mundo.

L.H.S. – Sim e não. Por causa da fotografia digital é que pude fazer este projecto de 1911. Se não fosse o digital, não teria conseguido – há dez anos não teria sido possível lidar digitalmente com estas colecções. Por outro lado, tornou-se tudo mais simples: a exposição é mais simples, as máquinas são mais estáveis, tremem menos. Pode dizer-se que hoje a fotografia é mais simples. Mas continua a ser um instrumento difícil.

– Mas não acha que acontece com a fotografia o que está a acontecer ao nível do texto? A partir do momento em que há redes virtuais e formas de comunicação instantâneas, criaram-se novos desafios aos jornalistas. E os fotojornalistas?

L.H.S. – Sim, hoje há cidadãos-jornalistas, o que é óptimo. Alguém que vê um avião a despenhar-se e a incendiar-se numa montanha, e fotografa o momento. Óptimo. Mas isto não representa todos os aspectos do jornalismo.

– Continua a trabalhar em suporte analógico?

L.H.S. – Continuo a gostar muito do filme, daquela sensação de espera. Vive-se ou morre-se depois de vermos o que lá está. A sensação de estar a olhar para a mesa de luz e pensar ‘fiz asneira aqui’. Disparar frame atrás de frame exige uma grande disciplina, como se a nossa vida dependesse disso. Na guerra do Vietname, os fotógrafos olhavam para o contador a ver quantas fotografias ainda podiam tirar, porque não queriam ser apanhados a mudar de rolo no momento em que algo acontecia. Desenvolve-se um método, obriga-nos a pensar no que estamos a fazer. Acho que é um tipo de disciplina muito importante, porque nos obriga a pensar mais. Hoje em dia, dispara-se, dispara-se, e apaga-se, apaga-se. É um tipo de concentração diferente.

– Estudou Jornalismo e Política. Sente que essas bases o influenciaram de forma decisiva no modo como abordou a fotografia? E isto porque ser fotógrafo e fotojornalista não é exactamente a mesma coisa.

L.H.S. – Julgo que sim. Os meus amigos são todos escritores, sempre percebi a relação íntima entre a palavra e a imagem. Sei o que posso fazer com a fotografia que não é possível fazer em texto, mas sei que tenho de ter o mesmo entendimento e conhecimento dos assuntos que têm as pessoas que estão a escrever. Lembro-me de um dia estar a falar com um fotógrafo bastante conhecido que, a dada altura, me disse que talvez fosse viver para Moscovo. E eu respondi-lhe que quando ele chegasse a história poderia já ter acabado. E por que o disse? Porque percebia o que se estava a passar na União Soviética. Não se pode ter uma postura do género ‘eu vou quando puder’. Quando se percebe a situação, quando se percebe a história, imprime-se uma noção de urgência ao que se está a fazer – se não o fazemos, perdemos a oportunidade, o momento. Às vezes perguntam-me como é que consegui estar nos momentos em que as coisas aconteceram. Não tenho necessariamente uma boa resposta para dar, mas julgo que tem tudo que ver com o estar-se bem preparado. E para mim estar bem preparado significa estar intelectualmente bem preparado. Um fotógrafo que não esteja intimamente interessado no assunto em que está a trabalhar é, para mim, um fotógrafo impensável.

– Se tivesse de escolher uma fotografia representativa do seu trabalho, conseguia fazê-lo?

L.H.S. – Tenho bastantes imagens que são hoje muito icónicas e detesto ter de escolher uma ou outra, porque representam para mim diferentes situações. Se olhar para as fotografias de “China After Mao”, as do início dos anos 1980, que correspondem à reforma económica, penso que tive muita sorte em ter tido a possibilidade de captar esse período.

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