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Apeadeiro definitivo

Hélder Beja

Só Jim Jarmusch é que se lembraria disto: agarrar em dois japoneses com estilo, apaixonados pelos anos 1950 e pela música de Elvis Presley e Carl Perkins, e enfiá-los em Memphis, Tennessee, à procura de uma América que já não existe.

“Mistery Train” começa, isso mesmo, com um comboio a encher a tela e com este casal inesperado sentado à janela num filme de Jarmusch. Pelo título e pelas primeiras imagens, podemos pensar que vamos partir numa espécie de ‘rail movie’ (um ‘road movie’ sobre carris), qualquer coisa como “The Lady Vanishes”, de Alfred Hitchcock, nesse velhinho ano de 1938. Mas essa sensação e a leve esperança de suspense e grandes intrigas logo desaparecem.

O par, Jun (Masatoshi Nagase) e Mitsuko (Youki Kudoh), apeia-se em Memphis e ela, sempre muito faladora, veste um blusão com a inscrição ‘mistery girl’ nas costas. Ele, sempre muito introspectivo, é como se engolisse as palavras e verbalizasse para dentro.

Estamos no primeiro segmento do filme, ‘Far from Yokohama’, e temos dois japoneses que vão visitar os míticos Sun Studio, onde gravaram nomes como Johnny Cash, Roy Orbison, Elvis e Perkins. De caminho vão fazendo comentários sobre a América, sobre os prédios na América, os tiros na América, a vida na América.

A noite cai e com ela chega o espaço central da fita. “Mistery Train” devia afinal chamar-se “Mistery Hotel”. O hotel em que vemos entrar o casal asiático é todo um compêndio do cinema de Jarmusch, de “Dead Man” a filmes mais recentes como “The Limits of Control” e as suas personagens. As personagens que Jarmusch cria nestes filmes são postas em revelo, destacam-se dos cenários que atravessam, não lhes pertencem e criam uma sensação de irrealidade que, ao mesmo tempo, não consegue descolar-nos do filme.

É assim com os funcionários deste hotel onde também desembocarão os outros segmentos do filme: uma italiana rica que tem o marido morto, num caixão, e espera pelo voo para Roma na companhia de uma desgraçada fala-barato que deixou o namorado e é assombrada por um fantasma de Elvis; o namorado da desgraçada e o cunhado (Steve Buscemi) que acabam uma noite que parecia normal num arraial de confusão e sangue.

Todos os corpos vão passando pela recepção daquela espelunca de quartos duvidosos onde um negro de fato muito vermelho é o cicerone de um lugar que, bem sabemos, não existe. Todos, japoneses e outros, passam a mesma noite neste ‘mistery hotel’ de Jarmusch. E as repetições de cenas, as telefonias que tocam o mesmo, o tiro que se ouve três vezes, tudo está feito para ligar as histórias na medida certa.

Jim Jarmusch não tem uma estação de destino para este “Mistery Train”. Não como em “Broken Flowers”, em que há esse propósito de Bill Murray bater à porta das antigas namoradas para descobrir um filho. Aqui estamos em modo contemplação, com ironia fina sobre a América e com diálogos que às vezes parecem sobre coisa nenhuma. A música e as imagens de Elvis, presente como um santo adorado, compõem o embrulho.

Se houvesse uma lista de espaços importantes na cinematografia norte-americana, os hotéis estariam certamente perto do topo. Jarmusch faz também aqui uma homenagem a esses lugares de existência passageira, em trânsito. “Jun, why do you only take pictures of the rooms we stay in and never what we see outside while we travel?”, pergunta a japonesinha ainda atarantada com aquele tudo que é a América. “Those other things are in my memory. The hotel rooms and the airports are the things I’ll forget”, responde o homem do cabelo lustroso da brilhantina. Nós já não nos esqueceremos deste hotel, Jim.

 

Mistery Train

Jim Jarmusch, 1989

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