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Duas literaturas portuguesas nomeadas ao Prémio PT

Gonçalo M. Tavares e João Tordo são os dois nomes portugueses na lista de finalistas do prémio que distingue autores de língua portuguesa. São dois autores da nova geração, que se apresentam com livros tão diferentes como “Viagem à Índia” e “O Bom Inverno”.

Hélder Beja

“A linguagem está sempre ao serviço da história que está a ser contada.” Foi assim, directo ao assunto, que há um ano João Tordo explicou em entrevista ao Parágrafo como encarava essa relação entre o que é contado e o modo como se conta. Em João Tordo, autor de “O Bom Inverno” agora na lista de finalistas do Prémio PT, a narrativa ganha sempre.

“O Bom Inverno” é um livro sobre um escritor de mal com a vida e a obra, um homem de bengala que se vê envolvido numa rocambolesca trama que envolve um homicídio e muitas personagens. Mas se o protagonista é um tipo que sofre, o autor não. “Acho que há muitas coisas nesta vida real que nos atormentam: doenças, mortes… Escrever, para mim, convém que seja uma forma de me divertir também, tento não ser um gajo atormentado enquanto o faço, e sim tirar o maior prazer daquilo que estou a fazer. Não correspondo nada a essa imagem do gajo que tem de sofrer para escrever, até porque acho que quando as pessoas sofrem não estão em condições de escrever o que quer que seja”, considera Tordo, vencedor do Prémio José Saramago.

Com Gonçalo M. Tavares as coisas são diferentes. “Viagem à Índia” não é nem quer ser apenas uma história bem contada. O livro já venceu o prémio da Associação Portuguesa de Escritores e agora está nomeado para o PT.

M. Tavares também falou ao Parágrafo sobre a epopeia imaginária e o anti-herói Bloom, que compõem um livro baseado na estrutura de “Os Lusíadas”. “Quando se muda a forma de escrever muda por completo até o próprio conteúdo, não há comparação possível. Nesse aspecto é evidente que nunca escreveria este livro se não partisse de um conjunto de procedimentos muito distintos. Uma das ideias era recuperar a categoria de epopeia, mas claro que não uma epopeia clássica, não uma epopeia nos moldes antigos. Havia um ponto de partida: será que é possível escrever uma epopeia hoje?”

Foi mesmo possível escrever esta “Viagem à Índia” sem nunca ter estado na Índia, sem nunca sequer ter posto pé no Oriente. Mas não sem uma dose de privação a outros afazeres para conseguir avançar na tarefa de fazer “livros robustos”. “Tenho períodos em que estou completamente fechado e tento estar no meu canto. Tenho conseguido manter o tempo e o espaço para o essencial, que é a escrita. O fundamental é manter esse tempo, não abdicar dele. Acho que os grandes períodos de fechamento são fundamentais.”

São estes dois homens, autores de títulos como “As Três Vidas” e “Hotel Memória”, no caso de João Tordo; e de “Jerusalém” – com o qual venceu este mesmo prémio em 2007 – e da série “O Bairro”, no caso de Gonçalo M. Tavares, que representam a literatura de Portugal na corrida ao galardão arrecadado no ano passado por Chico Buarque, com “Leite Derramado”.

De outras paragens

Para a última fase do concurso foram escolhidos dez finalistas, sendo os restantes oito autores brasileiros – o representante dos países africanos na lista é, também, M. Tavares, que nasceu em Angola. As obras brasileiras que permanecem em competição são “Em Trânsito”, de Alberto Martins, “O Homem Inacabado”, de Donizete Galvão, “Nada a Dizer”, de Elvira Vigna, “Cidade Livre”, de João Almiro, “Ribamar”, de José Castello, “Minha Guerra Alheia”, de Marina Colasanti, “Modelos Vivos”, de Ricardo Aleixo, e “Passageiro do Fim do Dia”, de Rubens Figueiredo.

A etapa final do prémio literário, na qual serão eleitos três vencedores, acontecerá em Novembro, em São Paulo, Brasil. O prémio para o primeiro lugar é de 100 mil reais (mais de 467 mil patacas), de 35 mil reais (mais de 163 mil patacas) para o segundo e de 15 mil para o terceiro (mais de 70 mil patacas).

O júri que avalia as obras é formado por vários membros convidados e quatro curadores: Maria Esther Maciel e Lourival Holanda, especialistas em literatura brasileira; Regina Zilberman, especialista em literatura portuguesa e africana; e Selma Caetano, curadora-coordenadora.

Na edição anterior, o segundo lugar ficou com “Outra Vida”, de Rodrigo Lacerda, e o terceiro com “Lar”, de Armando Freitas Filho.

Desde que começou a ser entregue, em 2003, o PT existiu sempre com o propósito de distinguir e divulgar a literatura brasileira. Autores como Bernardo Carvalho e Paulo Henriques Britto foram premiados nos primeiros anos. A partir de 2007, passaram a ser admitidas a concurso obras de todos os países de língua portuguesa. Mas desde então apenas Gonçalo M. Tavares quebrou a regra brasileira no primeiro lugar. António Lobo Antunes, com “Eu hei-de amar uma pedra”, recebeu o segundo prémio em 2008.

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