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O confessionário

Sónia Nunes

Nas vidas de todos nós há um quarto escuro e pouco frequentado, um cofre que só mostramos por azar, investigação ou devoção. É um lugar de recalcamento, que nos envergonha quando o visitamos em consciência e onde alojamos a culpa. Quando encontrei o meu não estava sozinha. A falha moral tem sempre testemunhas, mas ela era mais do que isso, era uma cúmplice que detinha a coroa da melhor amiga e as minhas confissões. Éramos tão pequenas quanto a mentira que íamos contar e que combinámos abeiradas a um poço à socapa. Perguntou-me, como o Rodrigues que ando agora a ler, se a água lavava tudo; respondi-lhe que, para lavar tudo, tinha de ser água benta. Corremos para a igreja.

Estou hoje a contar esta história e não outra porque ouvi um rumor, que fez já certo choro e espera pela chuva para ser passageiro. Também porque tenho assistido a conversas sobre o boato como passatempo (o chamado zunzum) e o boato como real, aquilo que existe em bruto e precede a harmonia social (o conhecido diz que). A natureza do boato é assessória: nos dois casos há uma perversão da verdade, um facto que é levado a domínio público, com a mão a tapar a boca, o olhar de esguelha e uma declaração obsessiva de que se é só o mensageiro. A minha fé está em crise (não se decide ser ateu) mas sofro de nostalgia católica. E hoje corro para a igreja quando me sinto órfã de pai e de mãe e de ética.

Vou explicar: julgo que foi numa missa (admito que possa ter sido numa telenovela) a primeira vez que associei um acto de fala a um acto de coragem. Sei que foi quando o padre que celebrava o casamento perguntou se havia alguém que se opunha àquela união e deu duas opções, ambas dolorosas: ou o alguém falava ou o alguém se calava para sempre; ou o mundo como o conhecíamos desaparecia e havia um responsável identificado ou o segredo ganhava a forma de pacto inviolável e ficava condenado à eternidade. O boato não era uma hipótese. As proclamas de casamento são importantes numa terra pequena (podia haver também proclamas de negócios, amizades ou divórcios) e hoje dedico especial afecto às que vejo afixadas na Igreja da Sé.

Tenho fascínio pela Catedral como pelas pessoas que por fora são uma coisa e por dentro outra, no melhor sentido da expressão. É preciso subir para lá chegar e ultrapassar uma fachada austera para descobrir um interior doce e de compaixão, matizado nos vitrais com a mãe de todos nós e que amolecem a dor na cruz. Na Sé não é preciso ser crente para sentir por que se diz que Ele se fez homem. Não rezo mas detenho-me naquela imagem do Sagrado Coração de Jesus, a primeira que conheço em que Ele não aponta para o Céu, o Pai julgador, mas estende a mão à terra, num gesto de amor incondicional e esperança. Podemos abrir o nosso quarto escuro e pouco frequentado, confessar o crime e não temer o castigo por sabermos que existe perdão.

Aqui há silêncio suficiente para perdermos a capacidade de fugirmos de nós próprios, apesar do órgão, apesar dos turistas. Ao nosso lado estão padroeiros, santos e virgens também eles à guarida dos anjos, que protegem mais do que guiam; a paixão de Cristo, que também duvidou e, como nós, se sentiu abandonado. É costume dizer-se que a diferença está nos pormenores e eu gosto sobretudo de aqui os genuflexórios serem almofadados, um conforto mínimo garantido para a confissão dos nossos pecados, um divã sem psicanalista. Não me ajoelhei, mas gostei da possibilidade de o poder fazer numa terra onde errar não é humano. Não sei se Ele me acompanhou, mas sei que saí mais em paz, certa que não é só a água benta que lava tudo.

 

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