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E todo esse jazz

O que já passou e o que ainda pode estar para vir. Quando em Zhuhai arranca mais um fim-de-semana dedicado ao género, por cá há vontade de revitalizar o movimento jazzístico. José Isaac Duarte diz que recuperar o festival de Macau deve ser uma ambição. Mars Lei pede um espaço para os amantes da música. É a hora.

 

Hélder Beja

 

Como é que morre um movimento? Seja político, social, musical. Há uma música (sujeita a Variações) que diz que a culpa é da vontade. Mas será antes de um acumular de vontades (que é como quem diz de factores). Em Macau, o movimento jazzístico não morreu mas tem, pelo menos, andado adormecido.

Foi tudo acelerado com a transferência. A de Administração, que levou muitos portugueses amantes do género de volta a Portugal, e a de instalações, que deixou o hoje inactivo Clube de Jazz de Macau sem morada em 2002, depois de ter de abandonar a casa de vidro, junto à estátua da deusa Kun Iam. “Houve uma grande mudança na composição da população e além disso o jazz nunca foi uma actividade de massas”, lembra José Isaac Duarte, membro do Clube de Jazz.

Hoje arranca em Beishan, na vizinha cidade de Zhuhai, a segunda edição do Festival Internacional de Jazz (ver texto nestas páginas). O momento parece indicado para fazer o balanço por cá, para recordar o que aconteceu, para olhar adiante e perceber o que se pode fazer. No começo do novo século “houve uma contracção económica [no território], muita gente foi embora”. Faltavam fundos e houve um momento em que achámos que faltavam condições para continuar”, continua Isaac Duarte. A solução foi a suspensão da actividade de um clube fundado em 1985.

 

 

Como improvisar?

 

Isaac Duarte aponta o principal problema que o Clube de Jazz enfrentou: a incapacidade, principalmente financeira, de manter uma programação regular. O clube não está morto, ninguém quis ter nas mãos o peso dessa machadada final. Mas o professor universitário, que acredita na retoma do movimento jazzístico local, não põe como essencial o regresso ao activo da velha associação. Pode acontecer, mas será difícil.

Menos difícil parece a José Isaac Duarte o momento que Macau atravessa para que o jazz possa novamente ganhar espaço. “Há mais músicos na terra, há um rejuvenescimento da população, condições de remuneração mais elevadas. Há todas as condições para, em abstracto, o jazz reaparecer.”

E começa a fazê-lo aos poucos – com os eventos organizados pela Associação de Promoção do Jazz, pelos outros concertos como o que ontem levou o trio suíço Rusconi ao Albergue SCM para uma noite de piano, contrabaixo e percussão.

No meio daquilo que pode considerar-se um pequeno ressurgimento do culto do jazz, há um factor preponderante: o facto de cada vez mais jovens chineses se interessarem por este som. “Há anos havia esta ideia preconcebida de que os chineses não gostavam de jazz, o que não é verdade”, aponta o economista.

Os jovens que compõem a Associação para a Promoção de Jazz, presidida por Mars Lei, são uma parte desta dinâmica que pode estar a ganhar força. “Há pessoas, agora é encontrar os recursos financeiros” para que possa haver no território uma programação periódica e de qualidade, acrescenta Isaac Duarte. Para isso, o movimento não pode depender exclusivamente de fundos governamentais. Tem de saber aliar-se a privados.

 

Retomar o festival

 

“Relançar o festival internacional de jazz deve ser uma ambição, um objectivo fulcral. Tal como promover a educação e o gosto pelo jazz.” E Mars Lei não podia estar mais de acordo com as palavras de José Isaac Duarte. “É muito importante recuperar o festival de jazz. Temos esta tradição, Macau é um lugar onde se cruzam as culturas do Ocidente e Oriente, e é também uma cidade de turismo – isso ajuda muito.”

A Associação de Promoção do Jazz é recente mas começou este ano a mostrar serviço. A banda residente, composta por membros permanentes do colectivo, deu alguns concertos no território. E da Malásia veio há meses um trio convidado, os WVC. “Estamos a tentar trazer mais músicos profissionais ao território. Nós, como músicos locais, também queremos ir tocando por cá. Estamos a preparar-nos para coisas maiores, talvez no próximo ano possamos tentar subir um pouco a fasquia. Poderemos fazer mais concertos, mais ‘masterclasses’, fazer espectáculos maiores com músicos locais e estrangeiros todos juntos”, acalenta.

Em agenda está pelo menos um espectáculo, garantido pela ‘big band’ residente e agendado para 30 de Dezembro, no coração da Velha Taipa. Será junto ao templo chinês que há lá. Pode ser divertido, acho que nunca ninguém deu um concerto de jazz em Macau diante de um templo chinês”, ri-se.

A associação conta actualmente com duas dezenas de membros. “Somos principalmente músicos. Há alguns que estão a ir para o estrangeiro para estudar. Por outro lado, estamos a ter cada vez mais amantes de jazz, o que é bom.” É bom e é sinal que Isaac Duarte está certo quando diz que a ideia de que os chinses não gostam de jazz é descabida. “Se compararmos com os tempos portugueses, claro que temos menos pessoas interessadas em jazz, porque o grosso da população portuguesa já não está cá. O que acho é que nos últimos anos conseguimos atrair a atenção de muitos teenagers locais. Há muita gente que simplesmente não conhece este estilo de música e que, quando lho mostramos, aprecia. De um modo geral, o jazz é muito atractivo. Muito poucos de nós estão em registos muito experimentais, tocamos músicas mais populares e não há razão para que não se goste.”

Muitas vezes, é tudo uma questão de conhecimento. E em Macau há conhecimentos que não se apreendem em escolas. Como a Filosofia, como a Medicina, como o jazz. Mars Lei é professor no Conservatório e fala do seu “background de música clássica”. “Dou aulas de voz e de coro e estou ciente de que não há educação de jazz em Macau. Estamos a tentar encontrar alguma instituição com que cooperar, por exemplo centros de jovens, para ver se é possível que mais adolescentes se interessem.”

 

Uma questão de espaço

 

No que toca à base financeira que possa fazer mover a máquina jazzística, Mars Lei quer abarcar todas as hipóteses. “Julgo que precisamos de apoios do Governo e dos privados. E além disso falta-nos espaço, para ensaiar e para actuar. Há uma grande falta de espaços para actuar em Macau, especialmente locais apropriados. O Centro Cultural não é muito conveniente, não é atractivo para os turistas, que não estão disponíveis para se deslocarem até lá”, considera.

Os concertos da banda da associação têm sido feitos um pouco por todo o território, das ruas de Coloane ao bar Macau Soul e ao Cafe Deco. O que falta? Uma verdadeira colmeia de acordes como chegou a ser a sede do Clube de Jazz no número 9 da Rua das Alabardas, ali para os lados do Largo do Lilau. “Acho que ter um espaço para reunir os amantes do jazz é a mais importante de todas as coisas. O jazz é uma música que precisa de existir ao vivo, com executantes e espectadores juntos no mesmo lugar, num espaço que seja um ponto de encontro.”

A Associação de Promoção do Jazz já pensou em pedir uma sede capaz de ter esse papel aglutinador. “Já pensámos nisso, mas somos ainda uma associação nova, que apenas no ano passado começou a ter as suas actividades. O Governo quer registos passados, quer um currículo. É por isso que estamos a trabalhar com força para fazer coisas diferentes”, garante Mars.

 

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