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Os dois

Inês Santinhos Gonçalves

 

Já amanhecia e a conversa continuava. Daquelas conversas que só se têm no lusco-fusco, com um par de cervejas na mão e os olhos a arder de cansaço.

Ali, perante aquela vista de filme que é o lago Nam Van, a água, a ponte, a torre, as luzes reflectidas em espelho, uma pequena ilha verde no meio – não estivesse lá e diria que se tratava de Photoshop – foi quando percebi que não estava sozinha.

Ir “para os lagos”, como oiço dizer, não é coisa diurna. De dia é bonito, certamente, mas de noite é muito mais que isso. É o respirar fundo que indica o fim da semana, é o local onde se fazem planos optimistas para os dois dias que se seguem (planos raramente cumpridos em pleno) e é onde eu me sento no muro, paro o cérebro, falo, oiço falar, e sinto que afinal Macau também pode ser o meu lugar.

Mas voltemos à história. Os pés balançavam-me pendurados sobre o lago. Ao meu lado, a mala mais cara do mundo – falsificada. Ele, personagem de séries infanto-juvenis, ela, uma neurótica das mais adoráveis. Pelo menos é o que eles dizem. Eu só me rio. Rio e olho para aquela vista irreal. Rio e apercebo-me que estou aqui, na outra ponta do mundo, mas com gente que surpreendentemente me parece familiar. Torço o pescoço e orgulho-me de verificar que já sei onde estou. Não que isso interesse naquele momento, o que importa ali é a imagem de poster e as pessoas que falam.

Falamos de amigos, de raízes, de despedidas, de encontros, do que é estar em casa. Gosto sempre de quem tem dúvidas, de quem não sabe, como eu, exactamente o que está a fazer. Os pensadores, desterrados e confusos, dão-me uma certa fé na humanidade. Principalmente se forem pensadores, desterrados e confusos que gostam de beber cervejas às cinco da manhã de frente para um lago no meio de uma cidade, na ponta de um país onde as pessoas têm limitada visibilidade lateral – ou pelo menos é essa a teoria.

Quando os pássaros abriram de rompante naqueles chilreios, percebi que era dia. Os velhotes começaram a chegar para os seus exercícios matinais e os carros voltaram à circulação. A cidade voltava a ser real, das pessoas que dormem de noite e vivem de dia, das pessoas que jantam em casa e depois vêem um filme.

E foi aí que eu olhei para aqueles dois, agora já sem o escurinho confortável, já sem desculpas de conversas de meia-noite (esta expressão está tão desactualizada), e senti pela primeira vez neste continente aquilo que já tinha sentido noutros pontos do mundo: não estamos sozinhos enquanto tivermos alguém a quem podemos dizer aquelas coisas de frente a um espelho de água. Não importa se nos conhecemos há uma semana, um mês ou um ano. As amizades não se fazem de calendários. Fazem-se de madrugadas em Nam Van.

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