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Um estrangeiro em Nanjing

Isabel Castro

 

Nem tudo o que se conta foi exactamente assim. E não se conta tudo – por exemplo, não se diz que John Rabe morreu de ataque cardíaco, em 1950, numa situação de pobreza extrema. Também não se faz referência ao facto de ter sobrevivido, nos últimos anos de vida, com que o que a venda da sua colecção de arte chinesa lhe rendeu. Nem tampouco se explica que teve de se defender, cansado e pobre, de sucessivas acusações – era pouco nazi para uns, foi demasiado para outros.

John Rabe existiu e dá nome ao premiado filme de Florian Gallenberger, que teve a sua antestreia no Festival de Cinema de Berlim em Fevereiro de 2009. Nascido em 1882, Rabe foi um alto funcionário da alemã Siemens que viveu quase três décadas na China e que se afeiçoou ao país.

Em 1937, este estrangeiro em terra de poucos forasteiros recebe ordens para voltar para casa. É durante a festa de despedida do casal Rabe, John e Dora, que as tropas japonesas entram em Nanjing. A história do massacre é sobejamente conhecida – a deste alemão será menos.

Com o caos que se instala na cidade, o responsável pela Siemens da antiga capital do império decide não regressar a Berlim. Juntamente com outros estrangeiros, entre eles norte-americanos, tenta evitar o pior, fazendo-se valer do facto de ser alemão, militante do partido de Hitler. Faz o que pode para atrasar as manobras nipónicas, permitindo a muitos chineses o tempo suficiente para fugirem.

Rabe cria uma zona de segurança na cidade invadida. Abre os portões da fábrica, protege centenas de chineses nas suas instalações, utiliza uma enorme bandeira com a suástica para proteger debaixo dela os alvos da aviação japonesa. John Rabe, como nos é apresentado por Gallenberger, não é um homem dividido numa guerra, não se dá com Deus e o Diabo: é verdade que protege os inimigos dos aliados do seu país natal, logo seus presumíveis inimigos, mas fá-lo porque vive na China, país ao qual se afeiçoou, mas sobretudo porque, em tempos de guerra, em jogo estão vidas. E vidas são vidas independentemente da nacionalidade.

O alemão que terá, segundo os livros de História, contribuído para que 200 mil chineses escapassem à morte, salvou no filme 250 mil pessoas. Os número são, ao fim e ao cabo, um pormenor.

Na vida real, foi redigindo um diário sobre o que viu e viveu. “Dois soldados japoneses treparam o muro do jardim e estavam quase a entrar em nossa casa. Quando apareci desculparam-se dizendo que tinham visto dois soldados chineses subir o muro. Quando lhes mostrei o crachá do partido, foram embora pelo caminho que vieram”, escreveu a 17 de Dezembro de 1937. E acrescenta: “Numa das casas na rua estreita atrás do muro do meu jardim, uma mulher foi violada e depois ferida no pescoço com uma baioneta. Consegui uma ambulância para a levarmos ao Hospital Kulou… Dizem que na noite passada mais de mil mulheres e raparigas foram violadas, entre elas 100 do Colégio Feminino Ginling. Só se houve falar de violações. Se os maridos ou irmãos intervêm, são abatidos a tiro. O que se ouve e vê em toda a parte é a brutalidade e a bestialidade dos soldados japoneses”.

Foi com base nos diários de Rabe, publicados em livro, que Florian Gallenberger partiu para a construção do filme, protagonizado por Ulrich Tukur. Mas foi também por causa dos seus escritos que o funcionário da Siemens construiu um novo inferno. Em 1938, com a vasta documentação que levou no regresso à Alemanha – terá voltado por indicação expressa de Hitler – tenta denunciar as atrocidades cometidas pelo exército nipónico.

Talvez a pensar que estaria a falar com Deus, John Rabe bate à porta do Diabo, na figura da Gestapo. E aí começa o massacre do alemão, depois do de Nanjing, um massacre privado que só acabou com a morte.

A cidade chinesa sofre ainda hoje com os fantasmas de 1937. Mas em Nanjing preserva-se também a memória de Rabe, o alemão que abriu as portas aos inimigos que nunca teve.

 

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