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A lua de Auster

Isabel Castro

Logo na primeira página ficamos a saber tudo o que realmente importa, pelo que não corremos o risco de desiludir o leitor nem de desvendar o final da história, que começa no Verão em que o Homem pisou a lua. O narrador deste romance – escrito em 1969 mas só este ano editado em português (cortesia da Asa) – vive um Verão alucinante, quase fatal. “Queria viver perigosamente, pegar em mim e levar-me tão longe quanto possível e, depois, quando lá chegasse, logo veria o que me acontecia.” (pág. 9).

M.S. Fogg, o nosso narrador, não foi à Lua mas foi longe, embora tivesse acabado no coração de Nova Iorque, sítio a jeito para ser salvo por Kitty Wu, um dos muitos elementos orientais com que Paul Auster enfeita um livro curiosamente voltado para este lado do mundo. “Se o tio Victor tivesse vivido o tempo suficiente para conhecer Kitty Wu, estou certo de que teria ficado encantado com o facto de Marco, à sua pequena maneira, ter finalmente chegado à China.” (pág. 17). Wu, está-se mesmo a ver, é a paixão de M.S. Fogg, mas neste romance são outras as subtilezas a Oriente, do restaurante chinês Moon Palace que vê da janela de onde definha, à sorte que lhe dita um bolinho e que, mais tarde, volta a encontrar.

A personagem que Auster escolhe para narrador é um jovem desencontrado num mundo difícil. M.S. Fogg desconhece a identidade do pai, a mãe morreu cedo e foi criado por um tio, o tal Victor que teria ficado encantado com a menina Wu da história. “Não há muito a contar sobre a minha família. A lista de personagens é curta, e a maior parte não permaneceu em cena muito tempo.” (pág. 11), explica-nos em jeito de introdução.

Fogg é um homem só, como são sós quase todos os homens que narram os livros de Auster. Sem nada procurar, Fogg não descansa enquanto não encontra o que, afinal, sempre buscou – e assim são quase todas as personagens centrais da obra de Auster que, neste romance de início de carreira, deixa perceber o que vai ser a sua vida enquanto autor.

Jovem quase sempre perdido, M.S. Fogg aceita um trabalho “com o velho da cadeira de rodas” que, ao quarto capítulo, nos é apresentado como sendo Thomas Effing, uma estranha e perturbadora figura que “adorava ludibriar o mundo com as suas súbitas experiências e inspirações e, de todos os seus números, aquele de que mais gostava era o de fazer de morto” (pág. 125).

A verdade é que há um dia em que Effing morre mesmo, destino mais que provável dos homens velhos que vivem em cadeiras de rodas e que contratam jovens desnorteados para lhes lerem romances e jornais, e lhes escreverem a biografia. Mas é o estado moribundo de Effing que permite a M.S. Fogg perceber que há vida, mesmo que esta não seja como a que nos contam nos romances. E é a partir da morte de Effing que Fogg percebe que não há coincidências, que nem sempre as pessoas estão no sítio certo na hora certa, e que ele esteve sempre na hora errada no sítio errado – ele e as restantes personagens de “Palácio da Lua”, excepção feita à menina Wu. Ou talvez não – ninguém consegue estar na hora exacta no melhor sítio do mundo, pelo que o mundo se vai fazendo de desacertos.

Em “Palácio da Lua”, Paul Auster mostra-nos por que é Paul Auster: na primeira pessoa, com discurso directo e despido de artifícios, apresenta-nos M.S. Fogg, que começamos a tratar por tu depois de lidas meia dúzia de páginas. E mais à frente, Thomas Effing apresentado, trememos de medo quando o velho na cadeira de rodas fala, respira, abre os olhos.

As pessoas dos livros de Auster sentam-se ao nosso lado enquanto lemos, acompanham-nos nos sonhos, existem: o autor joga com o que de mais humano há, com personagens bem trabalhadas, numa narrativa fluida que convida sempre a virar a página. Para quem gosta de romances bem escritos, Auster é nome obrigatório. “Palácio da Lua” não é uma obra-prima, mas está no início de tudo. E os inícios valem sempre a pena.

 

“Palácio da Lua”

Paul Auster, 1969

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