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Isto não é (só) para crianças

O AniMacao arranca domingo com filmes da Europa, da América Latina e da Ásia. A produção local ainda não tem qualidade suficiente para fazer parte do programa. Os amantes dos filmes animados têm um cartaz ecléctico à disposição.

Hélder Beja

“A animação oferece um meio de contar histórias e de entretenimento visual que pode trazer prazer e informação a pessoas de todas as idades em todo o mundo.” Ninguém melhor para dizê-lo que Walt Disney, precursor de muito daquilo que hoje consumimos no que toca a filmes animados, dos estúdios da Pixar às produções independentes mais ou menos tecnológicas que se vão fazendo um pouco por toda a parte. A partir de domingo, Macau recebe algumas delas.

O AniMacao, festival de cinema de animação que decorre no Centro Cultural até 9 de Outubro, repete-se a cada dois anos e desta feita apresenta sete filmes aos amantes do género – estavam previstos oito, mas o sul-coreano “Dia Verde” afinal não vai passar no território. “Quisemos diversificar o programa e mostrar que esta mostra não é apenas para crianças”, começa Rita Wong, uma das programadoras do festival.

Um dos grandes objectivos da organização para esta edição é exactamente tornar a animação mais transversal em termos de público. Daí a decisão de alterar o mês em que por norma os filmes animados chegam ao CCM – a mostra passou de Agosto para Outubro.

A abrir o programa, no domingo à noite (21h30) o AniMacao vinca de imediato esse estatuto de festival para gente graúda, que também pode agradar aos mais pequenos. “Contos Nocturnos”, filme do francês Michel Ocelot, estreou em Berlim e só recentemente chegou aos circuitos comerciais na Europa. É portanto uma obra fresca e muito louvada pela crítica. A versão 3D, aquela que mais elogios recebeu, não dever ser apresentada em Macau. Seja como for, “Contos Nocturnos” recorre a um traço animado clássico, que joga com silhuetas e sombras. O enredo é simples: dois actores e um velho projeccionista juntam-se num velho cinema para imaginarem pequenas histórias às quais gostavam de dar vida. Como nos filmes – e ainda mais nestes de animação – as narrativas acabam mesmo por se animar na tela e são esses pequenos contos que compõem a obra que concorreu ao Urso de Ouro.

Ocelot é uma autoridade na área. Com uma longa carreira, o realizador já foi presidente da Associação Internacional de Filmes de Animação. Entre as suas obras mais famosas estão “Kiriku e a Feiticeira” e “Azur e Asmar”.

A escolha deste e dos outros filmes é da responsabilidade de uma equipa de programadores de que Rita Wong faz parte, e que tem como consultores os programadores do Festival de Cinema Asiático de Hong Kong. “Eles ajudam-nos a perceber os melhores filmes que estão a passar nos festivais internacionais, aconselham-nos, mas a maior parte das escolhas é nossa”, garante.

Seguindo o conceito de mostra “para toda a família”, como se lê no programa do festival”, o AniMacao prossegue na segunda-feira (19h30) com o filme japonês “Milagre Mai Mai”, da autoria de Sunao Katabuchi, discípulo do conhecido realizador Miyazai Hayao. Mestre do anime, Hayao é autor de filmes bem conhecidos na Ásia e nos países ocidentais, como “A Viagem de Chihiro” (2001) e “O Castelo Andante” (2004).

Agora, Sunao Katabuchi apresenta uma história situada no Japão rural, ainda na ressaca da II Guerra Mundial, devastadora como se sabe que foi para os nipónicos. Com um traço que faz lembrar o velhinho clássico suíço “Heidi”, “Milagre Mai Mai” é um conto sobre a passagem da infância para a idade adulta. Uma criança vai ouvindo as histórias que o avô tem para lhe contar e idealizando um mundo de fantasia só possível na imaginação dos mais pequenos.

A personagem que falta a esta animação japonesa é a de uma menina que chega de Tóquio para viver no campo e que, juntamente com a pequena que se delicia com as histórias dos mais velhos, alinha numa série de aventuras que o público mais novo de Macau poderá acompanhar com dobragem em cantonês.

Com mensagem

Se o filme japonês tem como destinatário o público infantil, na terça-feira (19h30) logo volta a carga mais adulta à tela do Centro Cultural. “Pequenas Vozes” é uma produção colombiana que cruza documentário e animação. “Este filme tem uma mensagem muito forte, é sobre a guerra civil na Colômbia e as crianças que sofreram muito”, conta a programadora Rita Wong, que destaca esta obra entre as que serão apresentadas a partir de domingo.

“Pequenas Vozes” é realizado por Jairro Carrilo e baseia-se em entrevistas e desenhos de crianças entre os oito e os 13 anos “que cresceram no meio da violência e do caos”, lê-se na sinopse disponível no site oficial do filme (www.pequenasvoces.com).

Estas são crianças que foram forçadas a deslocar-se, a deixar as suas casas. Carrillo conta quatro histórias de pequenos que passeiam entre conflitos armados, bombas, mortes e recrutamento forçado para as guerrilhas. O cineasta entrevistou em Bogotá as pessoas que inspiraram o filme, dando uma carga realista e documental a uma obra que nunca poderá ser vista como uma simples animação.

No dia seguinte, também às 19h30, é a vez de uma produção francesa ser apresentada. “Mia e Migoo” é uma longa-metragem do realizador Jacques-Rémy Girerd, que apresenta uma parábola sobre a importância da família e os custos da separação. Pedro, um homem feito, vê-se forçado a deixar a casa para trabalhar num túnel onde acaba por ficar retido. A filha, Mia, tem então de atravessar toda uma floresta assombrada para poder encontrar o pai. É aí, nesse cenário de todas a probabilidades mágicas, que conhece Migoo, uma figura enigmática que acabará por dominar a narrativa.

“Três Vezes Sortudo” é a proposta do AniMacao para quinta-feira. O filme chega da República Checa e, na estética, remete para as animações de Tim Burton – e estamos a falar de títulos como “A Noiva Cadáver” (2005).

O conceito do filme difere dos restantes por isto: é feito de três tomos, cada um deles da autoria de realizadores diferentes e todos partindo de contos de Jan Werich. Kristina Dufková, Vlasta Pospísilová e David Sukup são os homens atrás da câmara e, usando mais de 70 marionetas durante 24 meses de produção, apresentam-nos “Como os Ogres Morrem nas Montanhas”, “O Chapéu e Pequeno Jay Feather” e “Razão e Sorte”. Das montanhas de Sumava ao reino de um homem que pede aos filhos que recuperem o seu chapéu, somos conduzidos até uma terceira história (a mais longa) que nos mostra como muda a vida de Louis, um criador de porcos.

Ritmos quentes

No sábado (21h30), é a vez de Hong Kong mostrar que também já sabe destes ofícios. “Colecção de Animação Postgal” chega ao território com fama de grande sucesso na região vizinha. Trata-se de uma série de animações criadas por uma dupla criativa. “Fool Lee”, conto amoroso; “The Tired City”, sobre o mundo dos negócios; “Mum is Born”, que retrata as relações familiares; “Hidden Elders”, sobre os idosos da RAEHK; e “Ding Dong” são as histórias que os espectadores locais poderão ver.

Mas o outro grande destaque do programa chega no último dia. Às 21h30 de domingo o CCM apresenta “Chico e Rita”, filme do consagrado cineasta Fernando Trueba, que alia as suas duas grandes paixões – o cinema e o jazz – nesta obra para adultos.

“Chico e Rita” retrata Havana, Cuba, e foi feita em parceria com o ilustrador Javier Mariscal e outros entusiastas. O filme foi rodado com recurso a actores reais, com os animadores a aproveitarem os seus movimentos e a conferirem uma dimensão mais humana ao trabalho. A história é de amor, entre um pianista (personagem inspirada em Bebo Valdés) e uma mulher que quer ser cantora. As estradas da vida vão unindo e separando este casal ao longo das várias décadas (de 1940, 50) que o filme abarca.

Trueba, que venceu o Óscar para melhor filme em língua estrangeira com “Belle Epoque” (2002), já dera conta desta paixão pelo jazz em “Cale 54” (2000). Agora, em mais esta homenagem ao género, enche “Chico e Rita” de referências cinematográficas que vão de Alfred Hitchcock a Marlon Brando, que ao que parece tem direito a uma fugaz personagem.

O AniMacao termina com ritmos quentes e reiterar a ideia de que não quer ser um festival (só) para espectadores de palmo e meio. “Queremos muito que as pessoas venham, que desfrutem e que queiram regressar”, diz Rita Wong. Sejam de que idade forem.

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