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O riso é a arma dos inteligentes

Liliana Pacheco

Woody Allen quis fazer um filme com famosos, sobre famosos e para famosos. O resultado é uma sátira cómica com requintes estilísticos e algumas tiradas daquelas que acabam a fazer a história do cinema.

Allen parodia com todos os estereótipos do show business: Nicole (Melanie Griffth) é uma actriz de Hollywood, loira e sem grande dívida à inteligência; Charlize Theron é uma super-modelo com um apetite sexual desmesurado; Lee Simon (Keneth Branagh), o jornalista que aspira a ser escritor ou argumentista (e que para isso persegue todas as vedetas com que se cruza no caminho, pois acredita que a fórmula para que o seu argumento seja comprado pelos grandes estúdios é que uma vedeta aceite protagonizá-lo); Robin Simon (Judy Davis) é uma professora de meia-idade, com um trauma de divórcio e traição, que vai procura um cirurgião plástico e vem com um produtor de televisão pelo braço.

Leonardo DiCaprio desempenha um jovem actor embriagado pelo sucesso e cheio de vícios, num papel que facilmente se poderia confundir com a sua própria vida, com as centenas de fãs aos gritos à porta do hotel onde está hospedado – não devemos obliterar que nesta altura DiCaprio estava na ressaca de “Titanic” (1997), o filme que fez dele a super-estrela da constelação hollywoodiana e, por momentos, parece que este papel serve para se exorcizar do ar de menino de coro e de todo o mediatismo que o cercou na altura.

Através da sua personagem, filma-se a droga, as orgias, a violência por trás de um mundo de aparências e flashes constantes. Mas até as nódoas na toalha são fotografadas com um grande sentido de humor, sublinhando o ‘nonsense’ de tudo aquilo (o riso é a arma dos inteligentes, não é assim que reza?).

Allen não aparece fisicamente, mas como recorrentemente acontece nos seus filmes, conseguimos vislumbrar os maneirismos nas personagens, a tendência do realizador para a psicanálise e o fascínio por Manhattan. Nem a si mesmo poupa: retrata um realizador, Papadakis, gozado pelas outras personagens devido ao seu pretensiosismo, às suas manias de filmar a preto e branco. Ora, “Celebrity” está soberbamente filmado a preto e branco, cada plano, tal como o poster do filme, poderia ser uma capa de jornal.

Nenhuma personagem é bem resolvida sexualmente: temos a frígida, a prostituta, o inconstante, a devoradora de homens, uma panóplia para todos os gostos, portanto. A técnica do argumento é a de várias histórias que nalgum momento se cruzam, todas a personagens acabam por ter alguma coincidência com as outras. Ressalvo o facto de o filme ser do final da década de 1990 e por esta altura esta moda das mini-estórias não estar tão disseminada como acontece no cinema actual.

Mesmo antes do jorro criativo que acometeu Allen nos últimos anos, e já depois da consagração, este “Celebrity” é uma brincadeira, um filme que nos deixa com a sensação de que o realizador se divertiu muito a fazê-lo.

 

Celebridades/ Celebrity

Woody Allen, 1998

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