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Uma doce noite

Voltam a Macau à boleia do Festival de Jazz de Hong Kong para uma noite que será, sobretudo, de “Chocolate”. Maria João e Mário Laginha são um caso raro de entendimento que dura há 28 anos e 12 discos.

Isabel Castro

Já não iam para estúdio juntos há uns tempos quando se voltaram a encontrar para “Chocolate”. Gravado em 2008, o disco de standards, mais próximo do jazz do que os trabalhos que o antecederam, serviu para marcar uma efeméride: 25 anos de carreira em conjunto, um quarto de século de um diálogo tão próximo que os nomes de um e outro passaram a ser um só. Maria João e Mário Laginha dificilmente se separam, como é difícil apartar a voz dela do piano dele.

A verdade é que, antes de “Chocolate”, houve um momento em que decidiram ir por caminhos diferentes, apesar da opção, consciente e de comum acordo, não ser exactamente uma separação. Mas a carreira que foram desenvolvendo com outras formações, um para cada lado mas sempre com concertos em conjunto pelo meio, fez de “Chocolate” um álbum do regresso. E o regresso também ao início de tudo, agora de uma forma renovada.

“O que aconteceu foi a ideia de voltarmos a tocar alguns standards, que foi uma coisa que não fizemos durante 20 e tal anos. Acabámos por não fazer só standards, e agora com uma leitura diferente, de uma forma menos convencional”, explicou Mário Laginha ao PONTO FINAL em entrevista recente sobre a deslocação à Ásia. “Soube-nos bem fazer isso”, acrescenta. “[Em  ‘Chocolate’] continuou a existir aquilo que dá sentido a este duo, que é sentirmos que é fácil trabalhar, que há uma espécie de energia quando começamos a trabalhar juntos.”

Nos concertos de Hong Kong (marcado para hoje à noite) e de Macau, na próxima segunda-feira, há mais “Chocolate” do que qualquer outro trabalho da dúzia gravada desde que começaram a tocar juntos, mas revisitam-se temas de outros discos. “Fazemos uma espécie de resenha dos álbuns mais significativos para nós, entre o ‘Cor’, o ‘Chorinho Feliz’ e o ‘Tralha’. Fazemos temas de vários discos, mas mais do último”, antecipa o pianista, que sobe a palco só com Maria João, em formato duo.

Ainda sobre o que o público das duas regiões administrativas especiais poderá ver e ouvir, Mário Laginha explica que, apesar de haver uma ligeira adaptação de repertório quando comparando com o alinhamento dos concertos em Portugal, a essência mantém-se. “Há um ou outro tema que, se calhar, mudamos, mas pensamos principalmente que se vamos a um sítio onde já não vamos há muito tempo, o ideal é juntar ao último trabalho não dois ou três temas de outro, como fazemos cá, mas mais. As pessoas ficam com uma ideia mais profunda do nosso trabalho”, diz.

Maria João e Mário Laginha já não vêm a Macau desde 2004, altura em que actuaram na Fortaleza do Monte a convite do Instituto Cultural. Maria João guarda boas memórias da terra. “Sempre gostei muito de ir a Macau, apesar da horrorosa viagem para chegar aí. Também me lembro sempre disso”, diz, com uma gargalhada. “Mas vale completamente a pena.”

No concerto de há sete anos, eram dois os públicos: aquele que sabia ao que ia e o outro que não escondeu a surpresa ao ouvir um tipo de música que funde o jazz com as mais variadas sonoridades, pelas mãos do consensualmente virtuoso Laginha e pela voz de amplitude e de versatilidade pouco comuns de Maria João.

O duo, que no universo da catalogação musical acaba por ir parar ao jazz, tem um percurso internacional raro entre os músicos portugueses do género. Maria João ensaia uma explicação: “Nós mostramos um outro Portugal. O fado mostra o Portugal mais melancólico que nós somos. Nós mostramos o Portugal multicultural, aquele Portugal que alberga tudo: os moçambicanos (como eu, que sou metade), africanos, asiáticos, brasileiros. Portugal acabou por estar em todo o lado”. Em palco nota-se esta mistura e o hábito português de estar em toda a parte. “Andamos um bocadinho por todos os lados, temos jazz também, e mostramos este Portugal. As pessoas gostam de ouvir – ficam surpreendidas porque estão muito habituadas a ligar Portugal ao fado, mas de repente reparam que Portugal tem mais estas cores todas.”

As cores que Maria João e Mário Laginha trazem ao território chegam-nos pela iniciativa da Casa de Portugal. O concerto tem início marcado para as 20h, no auditório da Universidade de Macau.

 

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