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Poeta consentido

Com a cabeça entre as orelhas temos cuidado com as imitações e saudades da Lisboa que amanhece. A princípio é simples, anda-se sozinho, mas a liberdade está a passar por aqui. Espalhem a notícia, ele não está velho, não lhe dói o joelho nem a parte do antebraço ou a parte interna de uma perna, nem a parte amiga da barriga. Nem há fadiga.
Quarenta anos depois de “Os Sobreviventes”, Sérgio Godinho está de volta, com o mistério da delícia de cantar o quotidiano como mais ninguém o faz, pelo menos em português. “Mútuo Consentimento” é o regresso aos originais cinco anos após “Ligação Directa” e a confirmação – se dela necessitássemos – que o escritor de canções não perdeu o tempo, não se quedou em pré-histórias. Mas se o tivesse feito, se Os Assessores e Nuno Rafael (que produziu o disco e foi o responsável pela direcção musical) não tivessem contribuído para a nova roupagem, não viria mal ao mundo – há quem valha porque sim e Sérgio Godinho justifica todas as sílabas que canta.
Começamos pelo início, a faixa primeira, a inicial: “Mútuo Consentimento” abre com uma espécie de declaração de intenções ou, se preferirmos, um manifesto do que é este universo musical. Em “Mão na Música” Godinho explica-nos que a música (palavra para a qual não existem sinónimos) “é tamanha/ cabe em qualquer medida”, e sabemos que não nos mente, que “a música não tem explicações/ a dar a si mesma”. Nesta faixa primeira canta-se, mas fala-se também: o cantor também é teatro.
“Bomba-relógio” vem a seguir e é talvez de todos os temas aquele que mais fica na memória, no seu “e toca e foge e toca e foge” do refrão, uma música de um amor despertado que palpita e põe um rastilho no peito. Nasceu fado (sem ser gago) e foi oferecido a Cristina Branco, mas Sérgio Godinho não a quis perder, pisou o acelerador e deu-lhe um novo som. O ritmo e o tipo de arranjos mantêm-se em “O Acesso Bloqueado”, para abrandarem em “A Invenção da Roda”, feita de piano, marimbas e percussões.
A canção que se segue – “Em Dias Consecutivos” – resulta de uma das várias parcerias que o disco tem e corre sérios riscos de ser uma das mais belas do álbum. Bernardo Sassetti e Sérgio Godinho nunca tinham feito um tema juntos e o resultado é aquela melancolia muito própria do pianista (responsável por música e arranjos) a que se juntam as constatações que só o poeta do quotidiano pode fazer com esta sabedoria: “Seis horas da tarde/ e a cidade muda de botão/ a outra velocidade/ uns querem ir e outros por enquanto não”.
O tema que dá o nome ao disco conta com música de Francisca Cortesão e é uma microcanção, 54 segundos de um “amor de momento/ mútuo consentimento”, uma guitarra quase solitária para ouvir mais uma vez, e outra ainda.
A energia é retomada em “Eu Vou a Jogo”, pleno dos sons de Os Assessores, responsáveis também pelas vestes de “Linhagem Feminina”. Sérgio Godinho inventou uma Carolina (três mulheres numa só), uma Etelvina (a que ia “acabar num bueiro/ sem futuro nem dinheiro”), uma Fátima (a da lástima) e uma Rita (que viveu com homens safados), mas nesta linhagem não se imagina nada, vai-se ao passado e ao futuro e às mulheres que têm um bocado dele. Aos homens também.
“A Vida Sobresselente” é mais uma parceria, desta feita com arranjo do projecto de David Santos que dá pelo nome de Noiserv. Em pouco mais de quatro minutos, canta-se sobre a vida de uma “mulher famosa/ na imprensa rosa/ revistada permanentemente”, um retrato social no feminino, a história de alguém que “despe a roupa quase dela”.
Quase a acabar o disco, “Vai lá!” entra na memória com um “Vem vem!/ Venham todos de nós todos/ Vem tu também” e os arranjos mais ou menos electrizantes da assessoria musical que sobe a palco e entra em estúdio com Sérgio Godinho.
“Intermitentemente” despede-se de nós para que possamos voltar ao início, ouvir o disco todo outra vez, percebermos que se dá “uma coisa muito simples/ que é da simples liberdade, que é/ que é tudo, quase”. O resto, a música faz.

Isabel Castro

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