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O início do século

Isabel Castro

Não deixa de ser uma ironia: um autor de livros que vendem bem tem muita gente a ler o que escreve, mas nem sempre conquista o respeito dos mais importantes, dos que se consagraram antes, dos que atingiram a fama sem venderem milhares de exemplares, dos que ganharam prémios importantes apesar de serem aparentemente desconhecidos antes dos prémios lhes serem entregues, dos críticos (esses seres que constroem e destroem à rapidez da escrita). No paradoxal mundo da literatura, ser-se um autor muito lido significa apenas que se é muito lido, com todas as vantagens (e desvantagens) que daí advêm.

Ken Follett passou anos – e obras – sem ser lido. Escreveu 11 livros a que ninguém achou particular interesse até que um dia encontrou a fórmula de agradar a editores e cativar leitores. Tem mais de 130 milhões de cópias vendidas, o que faz dele um desses escritores muito lidos mas não necessariamente aclamados por quem faz da crítica ou da composição de júris a sua actividade profissional.

No mercado livreiro português, o sucesso de Follett não foi excepção à regra internacional, com “Os Pilares da Terra” e “Um Mundo sem Fim” a conquistarem leitores q.b.. “A Queda dos Gigantes”, primeiro livro de uma trilogia em que o autor se propõe a romancear o século XX, obrigou já a Editorial Presença ao sempre agradável exercício da reedição: Ken Follett vende bem e há muita gente a ler o que escreve.

Escrever sobre história é sempre um exercício arriscado, pelo que a “A Queda dos Gigantes” é um risco que se tenta disfarçar por via do naipe de personagens ficcionadas que fazem com que as reais (aquelas que contribuíram mesmo para a história) não tenham particular relevância, embora lá estejam também (o Rei Jorge V, Winston Churchill, Woodrow Wilson, Lenine e Trótski, entre outras). O primeiro livro da trilogia “O Século” tem início em Junho de 1911, termina em Janeiro de 1924, e acontece em torno de cinco famílias: os alemães e austríacos Von Ulrich, os galeses Williams, os ingleses Fitzherbert, os norte-americanos Dewar e os russos Pétchok. Por razões de diversa natureza, todas estas famílias acabam por se encontrar ou manter um qualquer tipo de relação. Há galeses que trabalham para ingleses, russos que viajam até aos Estados Unidos, um norte-americano que se cruza nos bailes da temporada londrina com a nobreza que, no início do livro, recebe aqueles que, umas páginas mais à frente, serão inimigos de morte.

Fortemente centrado no que foi o primeiro grande conflito mundial, o livro conta-nos alianças impossíveis, estratégias de combate, tentativas frustradas de paz. A guerra não foi consensual, houve quem tivesse querido evitar trincheiras, todos eles acabaram por querer sair delas. Mas Ken Follett aproveita as famílias que imaginou – e o particular cativa mais que o colectivo – para falar de outros fenómenos do primeiro quartel do século XX: o feminismo, a luta pelo direito ao voto, a revolução russa, os ideais que se foram espalhando pela Europa no combate contra a aristocracia que punha e dispunha de quem nascia pobre. Em “A Queda dos Gigantes” não falta a jovem nascida em berço de ouro que luta contra a desigualdade de géneros e se apaixona pelo que é proibido; a empregada que insensatamente se envolve com o patrão mas consegue dar a volta ao texto; o senhor das terras com aspirações políticas; o sindicalista de coração mole e palavras duras; o filho obediente que vai para a guerra deixando outras guerras para trás.

Com franco domínio da capacidade narrativa, Follett faz num livro de quase mil páginas várias viagens, atravessa o Atlântico umas quantas vezes, tenta escapar aos lugares comuns ao procurar descrever uma realidade distante através de uma ficção que se conta com personagens de diferentes nacionalidades, credos, crenças políticas e origens socioculturais. Mas o espaço que o autor atravessa e o esforço da neutralidade resultam em personagens pouco trabalhadas e algo previsíveis – não é difícil adivinhar, a dada altura, qual será o destino de Maud Fitzherbert ou a sina de Grigori Péchkov.

Escrito por um britânico, “A Queda dos Gigantes” passa curiosamente ao lado do que foi a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial. O país é mencionado uma única vez, aquando do processo de paz, sendo que a referência não passa de uma breve caricatura sobre a devoção lusitana.

Ainda assim, e porque o particular cativa mais que o colectivo, Ken Follett apresenta um bom retrato do que foi uma guerra decisiva para o século que passou, transformando um romance de muitas páginas numa obra que se lê com facilidade – por alguma razão é autor de livros que se vendem muito.

A Queda dos Gigantes

Ken Follett, 2010

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