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“A nova Macau tem potencial literário”

Julian Lees escreveu “The Fan Tan Players”, livro que tem Macau como cenário e que já está traduzido em várias línguas. Vem na próxima sexta-feira ao território para apresentar a obra que está carregada de expressões portuguesas.

 

Hélder Beja

 

É um livro que começa com uma grande tempestade, um tufão. Macau está a afundar-se como se fosse hoje, como se fosse na semana passada, com o Nesat. Julian Lees escreveu “The Fan Tan Players” e inspirou-se nesta terra, que considera “uma ponte maravilhosa entre duas culturas”. O autor, que editou a obra pela Sandstonepress, estará na RAEM na próxima sexta-feira, 14, para um encontro com os leitores na Livraria Portuguesa, às 18h30.

O romance, que esteve na corrida ao Man Asian Literary Prize, percorre os anos 20, 30 e 40 do século passado, abre em Macau no ano de 1928 mas vai até às paisagens verdes da Escócia e ao frio russo nos invernos que se seguem. A história de amor entre Nadia, uma russa à procura de rumo na vida, e Iain, um oficial escocês com intenções pouco claras, nasce no enclave então sob administração portuguesa, numa terra em que Julian Lees concebe personagens lusas como Izabel, recorrendo a vários termos na língua de Camilo Pessanha.

O autor natural de Hong Kong e hoje a viver na Malásia vai no segundo romance publicado. Antes deu à estampa “A Winter Beauty” (Random House), uma história de amor, exílio e sobrevivência, que também percorre a Rússia e as regiões de Harbin e Xangai entre 1915 e 1930. A trama, neste caso, é baseada na história da sua própria família.

Em entrevista, Lees fala de como é tentador misturar o trabalho de historiador com o de contador de histórias ficcionadas e defende o potencial literário da Macau dos nossos dias. Antes de rumar à Universidade de Cambridge e de trabalhar nos mercados financeiros durante quase uma década, Lees foi descobrindo um território que, durante a infância, ficava à distância de uma viagem de barco pelo Delta do Rio das Pérolas. Agora ficcionou-o. E gostava de ver a suas palavras vertidas para português e chinês.

– Porque é que decidiu usar Macau como pano de fundo para este livro? Nasceu e cresceu em Hong Kong. Qual é a sua relação com o território?

Julian Lees – A minha relação com Macau é de há muitos anos. Quando era criança o meu avô trazia-me de Hong Kong até aqui regularmente. Costumávamos sentar-nos ao balcão do velho Hotel Bela Vista e pedir galinha africana. Ele geria um negócio de ervas medicinais e a pequena fábrica era na Travessa do Enleio [por trás do Jardim de Camões]. O negócio esteve primeiro estabelecido em Xangai, nos anos 1890, e mudou-se para Macau na sequência da tomada da China pelos comunistas. A minha mãe passou a adolescência em Macau. E da parte da minha mulher há também uma forte ligação a Macau – a minha sogra nasceu aí. Quis que “The Fan Tan Players” fosse passado em Macau porque esse lugar foi, e ainda é em menor escala, uma ponte maravilhosa entre duas culturas – a portuguesa e a cantonense. O facto de a história se passar nos anos 1930 também me deu a hipótese de reflectir sobre a elegância gentil e decadente que a cidade teve em tempos. Foi igualmente importante para o desenrolar da história que Macau não tenha sido ocupada pelos japoneses durante a [II] Guerra [Mundial]. Foi um contraste necessário àquilo que estava a acontecer em Hong Kong naquela altura.

– O livro cobre boa parte da primeira metade do século XX. Fez uma pesquisa histórica forte para escrevê-lo?

J.L. – Todos os meus livros envolvem uma pesquisa histórica intensa. Gosto de dar aos meus leitores um forte sentido de espaço e tempo, mas avisando que não quero ficar acorrentado aos factos e à história. Às vezes tenho de lembrar a mim mesmo que, em primeiro lugar e acima de tudo, sou um escritor de ficção e não um historiador, e por isso por vezes permito-me distorcer um pouco a verdade, se isso servir a trama. Normalmente passo pelo menos seis meses a estudar o período e o contexto político antes de começar a escrever.

– Para escrever sobre Macau esteve algum tempo aqui, a vasculhar arquivos? Entrevistou pessoas?

J.L. – Encontrei muito mapas antigos de Macau e deparei-me com um coleccionador de fotografias raras e de material cartográfico sobre o território. Também passei algum tempo no Arquivo Histórico de Macau, o que foi de grande ajuda. No entanto, a melhor inspiração para o livro foi a avó da minha mulher, que viveu em Macau durante a II Guerra Mundial.

– O livro arranca com uma tempestade enorme em Macau, com descrições que podiam ser dos dias de hoje. Alguma vez experimentou estar em Macau durante um tufão, para perceber como é?

J.L. – Nunca fui apanhado no meio de uma tempestade em Macau, mas experienciei muitos tufões enormes em Hong Kong, e por isso foi fácil escrever sobre esse tema. Lembro-me do tufão Hope, que atingiu Hong Kong em 1979. Fustigou as ilhas com ventos que chegaram aos 130 quilómetros. Morreram 12 pessoas e mais de 250 ficaram feridas.

– Ao longo do livro podemos encontrar várias personagens portuguesas. Algumas, como Izabel, são muito vívidas. Ela ou outras personagens lusas são inspiradas em pessoas reais, ou veio tudo da sua imaginação?

J.L. – Tenho uns quantos amigos chegados que são portugueses e julgo que eles podem, subconscientemente, ter ajudado como fonte de inspiração para a Izabel. Acho que ela é uma personagem particularmente importante no começo do livro, uma vez que contrabalança com [a personagem de] Nadia. Ela parece ter tudo aquilo que Nadia não tem – é casada, tem filhos, tem uma forte noção de si própria e das suas raízes. Nadia, por outro lado, não é casada, está deslocada, viveu uma infância de abandono e sente-se alienada em Macau.

– Usa muitas expressões em português e em russo ao longo da obra. Domina até certo ponto estas línguas ou alguém o ajudou na tarefa?

J.L. – Tive de pedir ajuda aos meus amigos. O meu português é limitado a “uma cerveja por favor”.

– “The Fan Tan Players” é também uma história de amor entre Iain e Nadia. Estas personagens não são portuguesas nem chinesas, mas Macau parece o lugar certo para a história. Acha que a nova Macau tem tanto potencial literário como a antiga, sobre a qual escreveu?

J.L. – Julgo que a nova Macau, enquanto cenário, tem um vasto potencial literário. Como maior centro mundial de jogo e de casinos que é, o estatuto político e económico de Macau cresceu nos últimos anos. E uma cidade tão dependente dos lucros do jogo tem sempre as suas questões sociológicas únicas. No entanto, tem havido pouca escrita sobre o impacto que isto teve sobre os sistemas familiares e o bem-estar da população local.

– Esta saga familiar estende-se também à Escócia e à Rússia. Foi um grande desafio escrever sobre lugares tão distintos?

J.L. – Sim, foi um enorme desafio, especialmente [escrever] as cenas escocesas. Mas felizmente conheço muito bem a aldeia de Helmsdale, nas Terras Altas da Escócia. Costumava ir à pesca do salmão no Rio Helmsdale e não acho que muita coisa tenha mudado por lá nos últimos 50 anos.

– Não há muitos romances contemporâneos sobre Macau ou cuja acção decorra aqui. Até por isso, gostava de ver o seu livro traduzido para português e chinês?

J.L. – Adoraria que “The Fan Tan Players” fosse traduzido para português e chinês. Actualmente está já disponível em alemão, polaco, estónio e checo, sendo que há boas hipóteses de que esteja acessível em mais línguas num futuro próximo.

– E porque é que decidiu chamar “The Fan Tan Players” ao livro?

J.L. – O fan tan é um tipo de jogo muito popular na China e ainda é jogado nos maiores casinos de Macau. Acho que o título dá uma referência oriental ao livro e o tema do jogo emparelha com a aventura arriscada da personagem Iain na Rússia soviética, bem como, mais tarde, a tentativa de Nadia em reencontrar-se com Iain num campo de prisioneiros de guerra.

– Já está a trabalhar noutro romance?

J.L. – Estou a trabalhar numa história passada na Malásia, que cobre o percurso de uma família chinesa desde o começo da ocupação japonesa até ao final da Emergência Malaia [conflito de pré-descolonização britânica], em 1960. Mais uma vez, envolve pesquisa meticulosa mas no final valerá a pena.

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