Uncategorized

O Japão que não está lá

Isabel Castro

 

Ainda não encontrei quem me conseguisse descrever as diferenças do Japão, que fosse capaz de explicar, em palavras que constem do dicionário, a razão da diferença. Não falo, claro está, da tecnologia, dos arranha-céus, das meninas excêntricas nas saias e nos cabelos como se ainda tivessem 15 anos quando já os duplicaram, no equilíbrio do sushi e na delicadeza brutal da história. Há no Japão qualquer coisa a rondar a metafísica que obriga ao silêncio, ao falar baixinho, aos passos pequenos e comedidos. Um confortável desconforto.

Talvez Wenceslau de Moraes tenha sido o melhor narrador estrangeiro de todos os que li, apesar de nessa altura as meninas ainda não usarem as saias às pregas que emprestam colorido mas não trazem mistério. O que não se explica está na obrigatoriedade de solidão que os ares nipónicos sugerem. E isso não está nos livros – está no fim das histórias das pessoas. E Moraes sabia disso.

Assim como é difícil fixar a diferença do Japão, é de igual modo complicado pensar por escrito na literatura que lá se produz, assente num imaginário que só a vivência suscita. Mais ou menos cativante, não há escritor do país que tenha até agora lido que não me surpreenda pela ideia rebuscada, ou inusitada, pela imagem inesperada, pela estranha articulação de palavras que, todas juntas, resultam em frases que só quem ali nasceu é capaz de construir.

Haruki Murakami, de longe o escritor nipónico da actualidade com maior projecção internacional, sabe que o Japão tem esta diferença que não se explica, mas que fascina o Ocidente e que se pode dar a cheirar –  o escritor optou por fazê-lo com laivos kafkianos em histórias que são, porém, simples de apreender. Porque as escreve numa linguagem muito terrena, quase física, amplamente descritiva. “Acocorado na mais profunda escuridão, só conseguia ver o nada. Eu próprio fazia parte do nada. Fechei os olhos e escutei os batimentos do meu coração, o rumor do sangue a circular no meu corpo, o barulho das contracções dos meus pulmões, funcionando como um fole, as convulsões que as entranhas húmidas e viscosas, reclamando alimento, provocam no meu estômago.” (pág. 274), lê-se em “Crónica do Pássaro de Corda”, o livro que alguns dizem ser a sua obra-prima.

O que é filosofia em Murakami vem pela estranheza, pela tal capacidade das ideias pouco óbvias, como a de imaginar um pássaro real ao qual um jovem casal à beira da ruptura decide dar corda, como se de madeira fosse. Ou o percurso e opções de Toru Okada, o marido desempregado e bastante inútil deixado ao abandono por uma talvez desiludida Kumiko, que desaparece sem explicações. Há uma personagem que se chama Noz-Moscada e isso é estranho, como não é normal pensar procurar um poço para se escapar às profundezas do inferno.

“Crónica do Pássaro de Corda” é um romance que enegrece à medida que se vai lendo, muito cinematográfico e igualmente adolescente, na medida em que só quando ainda há qualquer coisa para crescer é que preferimos a janela à porta como forma de entrarmos em casa e damos pulmões aos edifícios. “Bem ou mal, lá consegui escalar o muro e entrar no jardim. Vista dali, de tão negra e silenciosa a casa parecia reter a respiração.” (pág. 289).

De estrutura narrativa intrincada (começa por ser uma história plausível para deixar de o ser), é abundante em adjectivos, comparativos, superlativos – Murakami gosta de dar cor e tamanho e forma a pormenores, o que resulta numa obra de mais de 600 páginas, que só não exigem tanta capacidade de imaginação do leitor como do escritor porque a adjectivação já lá está.

Sendo o conceito de obra-prima coisa difícil de decidir, “Crónica do Pássaro de Corda” tem a virtude de nos mostrar todo o Murakami (o escritor é fiel à fórmula do fascínio que encontrou) e a capacidade de se deslocar da escala humana: “Em desespero de causa, o menino despiu o casaco, deitou-o ao chão, deu um violento empurrão ao seu outro eu para o outro lado e estendeu-se quase à força na borda daquela cama demasiado estreita. Tinha de marcar terreno.” (pág. 441). Haruki Murakami explora até à exaustão a tal diferença que não se explica e talvez não precisasse de ir tão longe, que a solidão sobre a qual escreve só é convincente quando chega ao fim a história das pessoas.

 

Crónica do Pássaro de Corda

Haruki Murakami, 1997

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s