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O país que se escreve na arte

São obras e percursos de 17 artistas chineses apresentados pela primeira vez em língua portuguesa. José Drummond escreveu “Arte Nova China – Da Rebeldia à Globalização”. Ai Weiwei não está no livro, mas fará parte do segundo volume.

Isabel Castro

Os risos dos homens que Yue Minjun pinta e esculpe são demasiado irónicos para serem reais; e de tão irónicos que são, passaram a ser verdadeiros. Os homens de Yue são, na verdade, Yue auto-retratado, transformado e transfigurado para ser ironia. Fazem parte de uma certa China, aquela que vê e cria, aquela que nos estará mais distante apesar de tão perto.

Yue Minjun nasceu em 1962 em Daqing e, explicam-nos, “tem um estilo inconfundível e apelativo, faz parte da vanguarda do pós-Tiananmen e é uma das figuras do movimento denominado como ‘cynical realism’”. É um dos 17 artistas plásticos cuja obra e vida compõem “Arte Nova China – Da Rebeldia à Globalização”, um livro de José Drummond lançado pela Livros do Meio na próxima semana.

“É o primeiro livro em português sobre arte contemporânea chinesa. Os artistas chineses possuem uma energia muito própria que os catapultou para a ribalta, alterando nas últimas décadas o mercado das artes”, aponta Carlos Morais José, editor da obra. “O livro é a visão de um artista sobre outros artistas, esclarecendo aquilo que à partida poderia ser menos claro de entender”, prossegue. “Quem ler o livro não só fica com uma ideia do que se passa na China, em termos de arte contemporânea, como encontrará pistas para perceber os caminhos globais da arte.”

“Arte Nova China” resulta da compilação – e actualização – de uma série de textos publicados com periodicidade semanal por José Drummond no Hoje Macau, em resposta a um repto lançado por Carlos Morais José, director do jornal. O processo de transformação dos escritos em livro, explica José Drummond, contou com a participação dos artistas que dele fazem parte.

Num universo como é a China – que em qualquer área é feita de números grandes –, o processo de selecção adivinha-se complicado. “Os nomes são apenas alguns daqueles que são considerados mais importantes nas últimas duas décadas”, esclarece Drummond. “As escolhas foram feitas pela via da coerência com a história de arte, tendo tentado não sobrepor estilos ou artistas que estivessem muito próximos uns dos outros.”

Drummond assume que faltam muitos outros nomes – mas já há a intenção de se fazer um segundo volume. Do que está feito, destacar figuras e obras “é sempre difícil”, porque “são variados e têm importâncias diversas”. Mas o autor coloca-se no seu “lado de artista, mais do que a do estudioso”, e lança dois nomes à atenção de quem pegar neste volume de 150 páginas: Zhang Huan, pela “junção Oriente/Ocidente”; e Xing Danwen, por tocar em matérias que lhe são “muito queridas”, como “a esperança e a decepção, a identidade e o desaparecimento da mesma”.

A ausência de Ai Weiwei

O alinhamento para o segundo livro já está pensado: Cai Guo-qiang, Huang Yongping e Ai Weiwei são nomes obrigatórios da continuação de “Arte Nova China”. A ausência de Ai neste primeiro volume, aquele que versa sobre o período “da rebeldia à globalização”, tem uma razão de ser que não é difícil de adivinhar.

“Era ele que abria o livro e estava tudo acordado para assim acontecer”, conta José Drummond. “No entanto, como é do conhecimento público, existiram situações muito complicadas para o artista, desde a sua prisão à libertação sob caução e a uma tentativa deliberada de o calar que inclui a proibição de falar com os media internacionais.”

A decisão de deixar Ai Weiwei fora do livro foi tomada no final de Agosto e esteve na origem do adiamento do lançamento da obra: o autor só conseguiu voltar a falar com o artista plástico depois deste ter saído da prisão, explica, e decidiram em conjunto que seria melhor aguardar por um momento mais oportuno. “É uma decisão pela via da lógica num momento em que não se sabe ainda qual vai ser o seu futuro.”

O livro a ser apresentado na próxima terça-feira retrata “um período inicial de rebeldia e paixão” que, lê-se na nota introdutória, foi sucedido por um de “consumo e expressão”. A arte chinesa deixou de ser tão promissora quanto pareceu ser a dada altura?

José Drummond diz que não é esse necessariamente o caso – o que aconteceu é que os protagonistas mudaram de papel: “O boom foi de tal maneira rápido que os ‘enfants terribles’ passaram, a maior parte, a ser bons rebeldes, no sentido em que se perdeu o lado visceral e tudo agora é gigante e existe com muita produção”. No entanto, a possibilidade de uma eventual desilusão não deixa de ser matéria para ponderação.

“Acabei de ler um artigo muito interessante de Gao Minglu na Yishu [revista de arte contemporânea chinesa] que coloca a questão ‘Crise na arte contemporânea na China?’, na qual se levantam propostas muito interessantes de reflexão, nomeadamente o efeito que o mercado exacerbado está a ter na qualidade e veracidade do que se faz. A minha frase vai mais por aí”, diz, a propósito do que escreveu na introdução do livro.

“Agora consome-se e está em todo o lado, mas isso não significa de todo que tenha maior qualidade do que quando era feita sem produção e os artistas passavam fome”, analisa. “Antes existia uma necessidade de se exprimirem e de contrariar o tradicionalismo que acontecia de modo apaixonado, cru e muito sincero. Hoje é já outra coisa. O mercado fez desaparecer muito do experimentalismo inicial que era uma das maiores virtudes da arte contemporânea chinesa e, eventualmente, também fez desaparecer a enorme sinceridade que tinha.” O autor recorda que há uma bolha no mercado da arte chinesa que “pode estar a criar situações muito enganadoras em relação ao valor de alguns artistas”, uma “situação que só o futuro poderá clarificar”.

A apresentação de “Arte Nova China – Da Rebeldia à Globalização” está agendada para as 18h30, na Casa Garden. A edição da Livros do Meio é uma parceria com a Casa de Portugal em Macau.

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