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Com caminho

Sónia Nunes

 

E é isto. Andamos na vida e tudo nos acontece como acontecia há uns anos. A diferença é o estilo, o resultado expresso dos ajustes do nosso espírito às regras da sociedade e aos três verbos fatais: amar, sofrer, produzir. O estilo é genuíno (vem de uma outra maneira de ter a mesma ideia) e faz-nos encontrar apenas com aquilo que se encontra connosco. É um traço de consciência e os que têm uma relação falsa com o mundo não têm consciência (têm, quando muito, os remorsos que atacam na solidão). É no que penso quando tento perceber por que motivo não subo eu hoje uma rua a eito e vivo bem com isso.

Há diferentes idades para um mesmo caminho e Macau até nos aforismos é conveniente. Ainda hesitei entre o que fui e o que sou quando me apercebi que não ia correr rua a cima (ao contrário do que teria acontecido se noutra época mais exaltada pelo absoluto tivesse chegado aqui) mas convenci-me que o que mudou foi o meu entusiasmo por ir dar a uma relativamente íngreme Calçada das Verdades. Para mim, agora devidamente desmontada no plural como que a denunciar a distância entre o que vemos, a boca diz e o coração sente, e a marcar as desavenças na transmissão de tudo isto ao outro, dono de outro espírito e compreensão. O outro nunca somos nós.

A verdade é o que cada um traz consigo mas a convivência social obriga a que se criem graus de partilha e de ordem, como agora vejo aqui: há uma rua, uma travessa, um beco, diferentes níveis para um mesmo caminho. E é por isso que hoje não subo esta calçada a eito e vivo bem com isso. Nas Verdades que ficam à rua das Mariazinhas encontramos uma ilha de vontade popular que impôs a sua verdade à verdade que lhe foi imposta. A política é uma tensão entre dois espíritos (os que governam e os que são governados) que pode não precisar de voto para se equilibrar. Foi o que aqui sucedeu.

Dir-me-ão que é coisa pequena, democracia de bairro. Não ligo. Detenho-me neste espaço de sossego e aprumo conquistado ao trânsito, na verdade destes moradores que queriam ver vida a passar à janela e varreram as motas com um abaixo-assinado. Porque queriam ter vasos com flores e respeito pela porta de casa. Pouco? Foi o suficiente para quem governa reconhecer a verdade de quem é governado e assumir o bem-estar como princípio político.

Daqui retiro apenas dois sons: o da criançada da escola animada pelo regresso a casa e o das velhas pedras de mahjong, abrigadas num segundo ou terceiro andar. As casas – as rosas, as verdes, as vermelhas – descascadas pelo tempo dão para um vazio, sem outro movimento além da minha presença. Existo apenas do lado de fora. Tudo o que vejo está em suspenso, os portões tortos de ferrugem, as gaiolas sem pássaro, as cadeiras sentadas pelo pó e pela memória de conversas ao portal, as janelas abertas para a vida doméstica alheia. Talvez para me lembrar que a verdade é o que temos cá dentro, uma escala de interiores para o mesmo caminho.

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