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Da selva e da morte

Isabel Castro

 

Horacio Quiroga (1878-1937) casou duas vezes e das duas vezes cometeu o mesmo erro: arrastou os amores da sua vida para a selva. Elas, as amadas, não gostaram da selva. A primeira entrou em desespero com os bichos, a solidão e os estranhos hábitos do marido e suicidou-se, deixando no desespero o companheiro e os descendentes de ambos. A segunda, mais nova e menos dada a fatalismos, enfiou a filha debaixo do braço e zarpou para a cidade.

O escritor ficou sozinho e com a morte à vista, que acabaria por antecipar. Na verdade, na vida de Quiroga a morte nunca esteve fora do seu campo de visão – foi um homem marcado por tragédias constantes. A sensação de permanente desgraça seria determinante para a obra que construiu e que tanta influência viria a ter naquilo que é hoje a literatura sul-americana. Entre a dor e um universo de estranhos seres e interesses, que vão da domesticação de animais selvagens à música de Wagner, este argentino que provavelmente nasceu no Uruguai criou um imaginário fantástico, com personagens tão bem trabalhadas que parecem reais.

“Contos da Selva” foi publicado em Buenos Aires em 1918, ano em que Horacio Quiroga acumulava já uma considerável quantidade de tragédias pessoais: o pai morreu com um disparo acidental de uma arma, pouco tempo depois de o seu sexto filho (o autor) ter nascido; uns anos depois, seria Quiroga a disparar por acidente a arma que matou o seu melhor amigo; pela mesma altura, dois dos seus irmãos morreram de febre tifóide. E, depois, o suicídio da primeira mulher, que o fez pegar nos dois filhos e ir viver para uma cave em Buenos Aires.

O conjunto de pequenos textos que têm os bichos da selva de Quiroga como protagonistas terão sido imaginados nessa cave, período em que repartia o tempo a escrever, a encontrar uma forma de sobreviver e a educar os filhos. Foi para Egle e Darius que Quiroga escreveu estes contos. Mas os escritos da selva não são o que se poderia esperar de fábulas para crianças: a moral da história está lá sempre, a rematar, mas a literatura de Horacio Quiroga é de um negro permanente que abafa os tons verdes da selva.

Na selva de onde Quiroga nunca quis sair, há sempre dor: “O homem comia sem se dar conta de quem o alimentava porque delirava de febre e não reconhecia ninguém.” (pág. 11), escreve a propósito da inusitada relação de um caçador com uma tartaruga. E muita morte: “Voltaram para casa e um novo pequeno quati substituiu o primeiro, enquanto a mãe e o outro irmão transportavam, preso aos dentes, o cadáver do mais novo.” (pág. 31).

Neste livro em que todos os animais falam – os papagaios são, na realidade, os que de menos léxico dispõem – há também histórias de vingança e de tentativas de inverter a lei do mais forte. Como a da coruja que vende peles de víbora de coral a uns flamingos tontos que foram assim trajados para uma festa organizada precisamente por víboras. “Isto passou-se há já muito tempo. E ainda hoje os flamingos passam quase todo o dia com as suas patas coloridas dentro de água, tentando acalmar o ardor que nelas sentem.” (pág. 37).

Talvez Quiroga tenha escrito estes contos – formato em que se tornou mestre e que mais explorou ao longo da sua vida literária – para Egle e Darius que, por insistência do pai, provaram a selva pura e crua, aprenderam a caçar e a não terem medo dos bichos, perderam o medo das alturas e da solidão da selva de Misiones.

Ironicamente, “Contos da Selva” arranca com uma fábula que é, em certa medida, o oposto do que iria acontecer ao escritor anos mais tarde. Em “A Tartaruga Gigante”, é-nos apresentado um homem que, doente, foi para a selva para se curar. Quiroga ficou doente na selva, mas a cidade não o curou dos males da alma que atormentaram uma vida conturbada. O homem que admirava Edgar Allan Poe, acima de tudo e de todos, bebeu um copo de veneno e livrou-se das dores. Tinha deixado de ser capaz de encontrar a fantasia que inventou para mascarar os males do seu mundo.

 

Contos da Selva

Horacio Quiroga, 2004

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