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O palácio

Isabel Castro

 

De outros tempos já pouco resta. Esta praia não é grande, não tem mar, não tem praia. A memória dos mais velhos diz-nos que nem sempre foi assim e os livros confirmam. Acreditamos. Havia ali um fortim com ondas a rebentar, o jardim ao fundo da avenida confundia-se com outros jardins, a avenida era só uma – ainda não estava partida pelos prédios que se esticam no ar. Um, dois, três, muitos.

Dizem-nos que era um sítio romântico, mas não chega a haver possibilidade de romance no cimento que agora se estende. Quanto muito, uma noite mal adormecida. Nem sequer há romance viável num banco de jardim entalado entre dois prédios, perto da paragem de autocarro, com vista para três parquímetros enferrujados e veículos de duas rodas parados onde aconteceu pararem.

Os livros falam-nos de elegantes mansões com vista para o mar, para a praia que era grande, contam-nos histórias de barões e baronesas, estrangeiros de ar importante da Companhia Inglesa das Índias Orientais e, num exercício absurdo, imaginamos o que seria deles aqui, agora, sem o Hotel Macau nem o Riviera.

As árvores com mais de 100 anos também já cá não estão. Só mesmo ao fundo da avenida, numa rua que já não nos parece a mesma porque então, ali, é que já não há mesmo água, quanto mais mar, praia. Grande.

Paramos ao pé do palácio ao qual são poucos os que lhe chamam assim. Mas é palácio e os bois devem chamar-se pelos nomes, mesmo quando são nobres. O palácio é palácio porque não é casa nem prédio. Era palácio de viscondes e viscondessas e temos a certeza que, mesmo com a violência do mar à porta e discussões domésticas que as janelas brancas esconderam, ali se dançaria entre duas chuchumequices. Os palácios servem à boa vida, ao tempo tranquilo, aos homens de cigarros nos dedos e às mulheres de saiotes compridos e decotes atrevidos. E, se não os deitarem abaixo, os palácios servem à música da moda.

Espreitamos pelas grades e o polícia de serviço não gosta, mas nada diz. No jardim com lótus há quem cuide dos canteiros e da relva – haverá hoje baile? Procuro, em vão, tentar saber mais deste palácio ao qual poucos chamam palácio, porque não convém – é coisa de aristocracia, o povo é amigo, e nem a desculpa dos bois chamados pelos nomes convence.

Não há uma placa, um sinal, a data de nascimento. Do visconde já ninguém se lembra e apostamos que só dois ou três lhe sabem o nome. Tento espreitar pela janela, imaginar preparativos gastronómicos para mais tarde, mas só o jardim se enfeita. Este palácio já não é um palácio porque não tem BIR. E a praia ficou pequena.

 

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