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“O João vivia na e para a música”

E foi (também) isso que fez dele um músico diferente. Dois anos depois do desaparecimento de João Aguardela, Ricardo Alexandre publica um livro que é mais do que um registo de memórias. É também um retrato de uma geração.

Isabel Castro

Quando a vida trocou as voltas a João Aguardela, Ricardo Alexandre não se despediu só de João Aguardela. Para longe ia o João Miguel, o puto que cresceu com música na cabeça e que com a música que fez cresceu. Num registo pessoal assumido desde a primeira página, o jornalista e director-adjunto de Informação da RTP-Rádio publicou recentemente um livro para evitar o esquecimento, para que do cantor e compositor não fiquem só os discos que gravou e um fragmento ou outro escrito no mundo virtual. “João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro” é também o exercício de construir memória, que um país sem ela tem “o futuro absolutamente comprometido”.

– Ofereceu um livro a João Aguardela em que a dedicatória dizia: “Um dia hei-de ser eu a escrever a tua biografia”. Esse livro acabaria por ser mais tarde encontrado por Sandra Baptista, a companheira de Aguardela, durante aquilo que descreve como sendo “o doloroso acto de arrumar os haveres de quem se ama”. Este livro é também, de alguma forma, o cumprimento desse acto doloroso, na medida em que se tentam arrumar sentimentos, memórias, passados conjuntos?

Ricardo Alexandre – De alguma forma sim, não diria arrumar porque é um verbo que nos remete mais para o fechar de um ciclo, algo que fica encerrado e não acho que seja esse o caso. Foi mais organizar. Aquilo que recordamos do João fica agora mais organizado. Admito que o livro possa ter sido uma forma pessoal de fazer o luto, a catarse. Mas há memórias que são tão boas que jamais as quero arrumar a não ser num sítio da memória em que rapidamente as possa resgatar.

Num registo muito pessoal, apresenta-nos João Aguardela na infância, na adolescência. E fala-nos dos primeiros projectos musicais, o crescimento enquanto músico. Acompanhou o início da carreira e os anos de grande visibilidade pública. O que tinha João Aguardela de efectivamente diferente de todos os músicos que apareceram nesta geração?

R.A. – É um bocado pretensioso dizer que foi efectivamente diferente de todos os músicos dessa geração, mas posso dizer que não vi ninguém como ele a ser sempre igual a si próprio, sem maneirismos, sem tiques de estrela, com uma insuperável vontade de se misturar com o público. O João nunca recusava um autógrafo, um sorriso, um aperto de mão, um beijo ou um abraço a quem o viesse procurar após o concerto, mas do que ele gostava mesmo era de tirar a roupa que tinha usado no palco e ir misturar-se com as pessoas, a beber cerveja e rir e conversar como se fosse mais um, do público, daquele grupo de pessoas que estava ali naquela noite. Isso foi uma constante ao longo de todo o tempo com os Sitiados e mesmo nos projectos posteriores.

Descreve-nos no livro um homem que tinha um universo criativo muito particular, uma forma de estar na vida muito própria – e um modo de viver na esfera artística também muito peculiar. O João Aguardela músico era essencialmente o João Miguel amigo? A música de Aguardela era a extensão natural do que ele era fora do palco – e isto apesar de, perante o público, assumir a sua energia de forma mais expansiva do que em privado?

R.A. – Era exactamente a mesma pessoa. Genuíno, sempre. O João adorava música, consumia música sempre, vivia na e para a música, por isso não deixava também ele de ser parte do público, de ser um de nós. A música está sempre presente nele, no palco e fora do palco, portanto a única diferença acaba por ser a energia que ele coloca em palco e que arrasta todo o país naqueles anos na década de noventa. Fora do palco, era também a música, mas bastava dizer, “bora lá, é uma boa ideia, vamos fazer” e ficavas convencido. Como a Sandra costuma dizer, o João tinha uma incrível capacidade de tirar de ti, tirar no sentido de te levar a mostrar aquilo que tens de melhor. Não te deixava ficar parado com uma boa ideia nas mãos, era um incentivo permanente. Com essa capacidade, só encontrei outra pessoa e foi no jornalismo: o Francisco Sena Santos.

– Sandra Baptista disse-lhe que João Aguardela “criou três estilos de vida novos: com os Sitiados, com Megafone, com A Naifa”. Sabendo desde já que será difícil em poucas palavras escrever sobre todos eles, que estilos novos são estes?

R.A. – O estilo da festa permanente dos Sitiados, como já disse, sem tiques, sem maneirismos, em que és tu próprio e estás a viver aquela festa com uma energia incrível, quando acaba um concerto já estás a pensar quando podes ver o próximo para partilhar daqueles momentos com aquele grupo de amigos absolutamente extraordinário. O estilo Megafone, de profundo respeito pela tradição musical portuguesa, pelo trabalho de recolha feito por Giacommeti e José Alberto Sardinha dando-lhe novas roupagens sonoras. Eu consigo, e qualquer um que o queira consegue, pôr gente a dançar Megafone numa pista de dança de uma discoteca daquelas em que as pessoas vão lá para saltar ao ritmo de músicas cuja identidade desconhecem. E podiam fazê-lo com música portuguesa, feita por portugueses e rejuvenescida pelo João… Se Megafone foi para ele um estilo de vida não sei, mas sei que viveu aquilo de uma forma extremamente dedicada, como tudo aquilo em que se empenhava. E o mesmo com A Naifa, que fez com o Luís Varatojo. Não lhe sei dar nome, mas A Naifa é um estilo, não é apenas uma banda com uma música.

Há quem entenda que o património deixado por Aguardela se encontra nos discos: cinco com os Sitiados, quatro com Megafone, um com o projecto Linha da Frente, três com A Naifa. Mas no seu livro também nos conta que outros julgam que a verdadeira herança está na “marca de portugalidade” que tinha. Na sua perspectiva, o que é que efectivamente ficou?

R.A. – Fica o exemplo de alguém que trabalhou muito a fazer sempre aquilo que quis, sem cedências de qualquer espécie. Ou com aquelas estritamente necessárias para poder fazer tudo o que considerava essencial. Viveu menos de 40 anos mas, se exceptuarmos os últimos tempos da doença, ou mesmo até aí, viveu como quis, fez o que quis. E fez discos fantásticos, com músicas que hoje sabe muito bem ouvir, deu centenas de concertos memoráveis e, para aqueles que com ele privaram ao longo de mais de 20 anos, um pensamento muito estruturado e consistente sobre a necessidade de não perderemos as referências. A importância da identidade. Sobre a necessidade de termos música e cultura pensada em português. É notável a entrevista que o João deu à socióloga Paula Guerra e que ela me autorizou a publicar no livro, no fim do livro. Desculpem-me colocar as coisas nestes termos, mas quem depois de ler o livro, tiver dúvidas sobre o que é preciso para a música e para a cultura em Portugal, basta ler essa entrevista: está lá tudo.

Este livro é uma tentativa de luta contra o esquecimento? De deixar registada uma vida que não é contada nos discos e nas notas soltas que se encontram na Internet?

R.A. – Claro, absolutamente. Como tenho dito, porque o João merece e porque o país, que não sei se merece, precisa. Eu e as pessoas que fazem parte da Associação Tradição Megafone vamos continuar a não deixar que o João seja esquecido e a tentar honrar a memória e o trabalho dele, nomeadamente com a organização, no próximo ano, da segunda edição dos Prémios Megafone, que no ano passado premiaram os Galandum Galundaina e o Experimentar N’a M’Incomoda no Centro Cultural de Belém.

Nós, portugueses, tratamos bem os nossos músicos e a memória dos que já cá não estão?

R.A. – Normalmente não. Tratamos quando fazemos homenagens, mas depois temos tendência a esquecê-los ou a apagá-los das nossas rádios e televisões. E, se um dia, conseguirem matar o serviço público de rádio e televisão, aquilo que já é pouco vai passar a ser nada. Esperemos que haja sentido de Estado e, sobretudo, que haja inteligência. Um país sem memória não é um país sem passado, é um país com o futuro absolutamente comprometido. E há muito que passa pelo nosso trabalho, enquanto jornalistas, é da nossa responsabilidade enquanto formadores de opinião, divulgadores. Sugiro um exercício que tem tanta pertinência em Macau como em Sintra ou Unhais da Serrra ou Santo Tirso ou Boliqueime: experimentem perguntar a alunos do secundário quem foi Zeca Afonso? Que música fez? Essa música serviu para quê na noite de 24 de Abril de 1974? Experimentem. O estado de saúde de um país não se mede apenas pela dívida soberana.

É jornalista. Em “João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro”, recorre a tudo o que o jornalismo ensina (a pesquisa, as entrevistas, os enquadramentos e contextualizações) mas fá-lo numa perspectiva muito pessoal. Atendendo a que escreve sobre um amigo – que já cá não está – quão difícil foi chegar ao fim do livro?

R.A. – Muito, tremendo. Como acontece quando perdemos alguém que adoramos. O livro, para além do meu trabalho, só foi possível graças à disponibilidade de familiares e amigos para se exporem como se expuseram, como nos expusemos, para falar do que sentíamos e do que sentimos e pensamos sobre o João. Mas não é comparável a dificuldade da perda, da dor, com a dificuldade da luta de quem está a ser aos poucos assassinado por uma doença estúpida. E essa é a luta, a do João e a de toda a gente nessas circunstâncias, que vale a pena relevar. E que nos deve ajudar a relativizar os nossos problemazinhos diários e a tentar viver bem. Ele viveu. Com prazer, com intensidade e com a superior inteligência que colocava em tudo aquilo que fazia.

Voltando ao início. Na introdução, diz-nos que estamos perante um livro que não é só sobre João Aguardela, mas também “um retrato de um tempo, de uma geração”. Que geração é esta? É assim tão diferente daquela que apareceu 20 anos mais tarde?

R.A. – É uma geração completamente diferente. Não havia Internet nem downloads. O disco da banda nova surgida em Londres demorava uns meses a chegar cá. Um concerto internacional era um acontecimento – agora nem tens tempo nem dinheiro para ver um décimo do que por cá acontece. Era um país e um mundo totalmente diferentes. Para uma banda conseguir gravar um disco, era muito mais difícil. Mas olha, havia coisas melhores… fazem tanta falta as rádios-pirata, havia outro tipo de oferta, as coisas eram menos padronizadas. E agora estaríamos aqui a falar horas sobre os benefícios e malefícios da globalização.

 

Os dias com ele

Aconteceu tudo noutro tempo. Era o tempo em que se ligava o rádio na esperança de a rádio passar aquela música, aquela que se queria mesmo ouvir. Era o tempo em que um novo disco demorava a chegar a Portugal – e quando chegava, era um acontecimento, era um outro tempo.

Era o tempo em que ainda se escreviam cartas aos amigos, não deixando morrer o que a distância separava. Era ainda o tempo das bandas, da proliferação delas, do punk nos cabelos e na roupa, do rock. Era também o tempo em que a música acontecia na sala de estar dos pais (até os vizinhos começarem a bater o pé) e em que a inspiração do momento só não se perdia para sempre porque ficava registada num gravador de cassetes de qualidade duvidosa.

É deste tempo – que nem sequer fica muito longe, mas que já lá vai – e também de um outro tempo, muito mais recente, de outros meios e técnicas, que Ricardo Alexandre nos fala em “João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro”. Como se todos estes tempos tivessem sido ontem. À volta deles (os tempos dos Sitiados, de Megafone, de A Naifa) e dentro deles está João Aguardela. Esteve João Aguardela. Ainda está.

Podia ser um livro com dedicatória exclusiva aos muitos fãs que o músico deixou, mas não é. Aqueles que admiravam Aguardela vão levá-lo para casa e eventualmente acarinhá-lo mais do que os outros, encontram aqui o pormenor que às tantas ainda lhes falta: “Há uma história curiosa, que o público desconhece, relacionada com a produção, o fabrico do segundo álbum dos Sitiados” (página 69). Mas aqueles que terão a imagem de Aguardela colada à “Vida de Marinheiro” passam a ter a possibilidade de criar outras representações, de descobrir as várias personagens que o músico foi (sem deixar de ser muito ele), nos sucessivos exercícios que fez ao experimentar novos sons, outros contextos, outras influências.

Jornalista de profissão, com uma ligação de muitos anos à música portuguesa, Ricardo Alexandre fez um invulgar exercício neste livro editado pela QuidNovi, ao assumir desde logo a amizade que o unia a Aguardela. “Não imaginam o quanto custou escrever este livro. Não conseguem imaginar a quantidade de vezes em que temos que parar de escrever porque não conseguimos evitar uma correria de lágrimas cara abaixo” (página 13), declara logo na introdução.

Esclarecida a amizade – que vai servindo à narrativa quando necessária para descrever acontecimentos e sentimentos – Ricardo Alexandre recorre ao que o jornalismo ensina: recupera arquivos, entrevista amigos e familiares de João Aguardela, músicos, pessoas que o conheceram muito bem, outras que com ele tiveram um contacto mais fugaz.

São estes depoimentos e memórias que permitem mostrar Aguardela nas suas várias dimensões: o miúdo sempre com ideias na cabeça, a energia inesgotável, o músico que foi crescendo sabendo sempre para onde ia, o jovem que deixou Direito no terceiro ano da faculdade, o homem político, o João em privado, que era tímido mas que conseguia ser “também muito comunicativo”, o homem que amou, sofreu e soube viver. É um livro dos dias com ele. No tempo dele. I.C.

João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro

Ricardo Alexandre, 2011

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