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Luzes, câmara, cultura

Wu Wunjie

Cerca de 70 estudantes de Pequim foram ao cinema ver curtas e filmes de animação portugueses. Para aprender uma língua, há que perceber a cultura. Na capital chinesa, são raras as oportunidades de ir além da gramática.

Vera Peneda

em Pequim

Numa das raras oportunidades para apreciar a cultura Portuguesa na China Continental, o 3º Festival Português de Cinema de Animação e Curtas Metragens exibiu 15 filmes na Universidade de Economia e Negócios Internacionais (UIBE) em Pequim. O cocktail de comédia, drama, contos urbanos e romance revisitou dez anos do cinema luso para mostrar a língua, a gente, a cultura e a criatividade de Portugal na China.

Cerca de 70 estudantes de Português de várias universidades da capital encheram o auditório da UIBE. Os filmes portugueses, na sua maioria títulos premiados, motivaram a discussão acerca da falta de originalidade numa China académica e económica que descura a criatividade e as artes.

“É muito complicado ver um filme, ir a um concerto ou a uma exposição relacionados com Portugal”, diz He Luyang, ou Helena, 23 anos, que terminou a licenciatura em Português na Universidade de Estudos Estrangeiros (Beiwai) este ano. “É muito fácil para alguém que fala português encontrar um bom emprego devido às relações crescentes entre a China, o Brasil e os países africanos de língua Portuguesa”, explica He. “Mas a falta de eventos culturais portugueses em Pequim não facilita a aprendizagem da língua”, acrescenta a ex-aluna que trabalha agora no Centro de Estudos Brasileiros do Instituto de Estudos Latino-americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais em Pequim.

He recorda a primeira edição do festival, em 2008. “‘Suspeita’ foi o filme de que mais gostei. É uma animação mas tem um enredo complexo [um assassinato num comboio] e um final surpreendente a lembrar os filmes de Hitchcock.” Apesar de não se lembrar dos títulos, He ainda aponta que os filmes capturavam bem a cultura portuguesa, o jeito do povo e a paisagem, aspectos que não entram regularmente dentro da sala de aula.

“Ao contrário do inglês em que os alunos chineses tropeçam literalmente todos os dias, o acesso à língua portuguesa é, no mínimo, tortuoso e duramente conseguido”, observa Cristina Água-Mel, leitora de Português na UIBE e fundadora do festival, notando que a falta de acesso directo e regular a expressões culturais dos países lusófonos é uma forte lacuna no ensino do português na China. “Como se isso não bastasse, os alunos e alguns professores chineses preferem concentrar-se no estudo estrutural do idioma esquecendo-se que aprender uma língua é, ‘aprender a pensar nessa língua’”, diz, citando Roland Barthes. “É por isso que os programas de imersão linguística fora da sala de aula são tão importantes”, acrescenta Água-Mel, que organizou o evento através do departamento de Português da UIBE e em parceria com a embaixada de Portugal em Pequim.

A leitora lamenta a inexistência de um centro cultural lusófono, que talvez fosse possível “com o apoio financeiro de Macau”, e a falta de coordenação entre as embaixadas dos países que constituem a lusofonia. O festival, uma das poucas iniciativas culturais regulares, nasceu em 2008 para “criar um espaço informal e descontraído onde falantes nativos e não nativos residentes em Pequim se possam encontrar, conhecer melhor, mas sobretudo questionar e debater uma variedade de temáticas associadas à produção cinematográfica, como a criatividade e originalidade.

Ser original vale a pena

“Eu não percebi quase nada do filme ‘Cândido’”, diz uma aluna de Português durante a sessão de perguntas e respostas, referindo-se ao filme de José Pedro Carvalheiro, um conto de amor conturbado que se desenrola sem diálogos e sem qualquer plano da cara dos amantes. “O que posso fazer para entender este tipo de filme?”, acrescenta a estudante, dirigindo-se ao painel de especialistas. “A maior diferença entre a animação e curtas portuguesas e o que se faz na China dentro do género é precisamente a originalidade”, aponta Andy Friend, director de cinema que nasceu em Pequim mas trabalhou nos Estados Unidos e na Europa em filmes como “O Último Imperador”, de Steven Spielberg, e “Alien: O Regresso”, de Jean-Pierre Jeunet. “Falar e escrever num idioma não é suficiente para entender um país e o seu povo, sem outras referências culturais, como o sarcasmo ou a linguagem corporal, perde-se parte da mensagem”, nota Andy Friend, explicando à aluna que todos os pormenores do filme, como a banda sonora, os planos de imagem ou a falta de diálogos, eram pistas que convergiam para a construção do enredo.

Wang Bo, realizador chinês, diz: “Os jovens chineses têm dificuldade em entender este tipo de enredo porque não estão treinados para apreciar a força da imagem”. Os comentadores criticam o sistema educativo chinês que valoriza o conteúdo e os resultados e desvaloriza a forma. “A originalidade e criatividade surgem de uma área cinzenta que não cai na dicotomia certo-errado de acordo com a qual nós somos educados a observar e pensar na China”, acrescenta Wang.

Zhang Gong, professor de Arte e Design na Universidade Tsinghua e realizador de curtas-metragens, defende que a China pode aprender com o cinema português: “Os jovens chineses nascidos na década de 80 ou 90 cresceram a ver animação japonesa e acabaram por perder referências europeias que são igualmente importantes para o seu crescimento pessoal e estimulação criativa”. Zhang lembra que não se aprende tudo através dos livros: “A Tsinghua prepara políticos e engenheiros mas muito poucos artistas. Os alunos têm de se focar menos nos livros e perceber que visitar uma exposição ou ver um filme é uma aprendizagem prática que treina e estimula os sentidos”.

Os comentadores concordam que a Internet tem um papel primordial como plataforma de difusão de novas ideias e estimulação criativa na China. “A originalidade também dá trabalho, implica usar a imaginação e seguir as paixões pessoais”, dizem os especialistas.

Um aluno responde, em português, levantando-se entre o público: “É como diz a professora quando cita Pessoa, que tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Tang Qiaosheng, ou Rui, tem 21 anos e é aluno do 2º ano de Português na Beiwai. “Se não fosse este evento eu continuava sem saber como são os filmes portugueses”, conta, acrescentando que até agora só tinha visto filmes brasileiros.

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