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Olhares de Shanxi

Uma das imagens que António Mil-Homens captou em Shanxi.

O fotógrafo António Mil-Homens viajou pela província de Shanxi e ficou impressionado com o que viu. As pessoas, “gente simples”, atraíram a lente da câmara com que anda sempre. O resultado está hoje à vista no Centro de Indústrias Criativas.

Inês Santinhos Gonçalves

São rostos enrugados, sorridentes ou mais contemplativos, mas sempre disponíveis, que encaram a objectiva de António Mil-Homens. As 35 fotografias de “Shanxi Faces” (Rostos de Shanxi), exposição que é hoje inaugurada no Creative Macau, são fruto de uma viagem do fotógrafo a esta província chinesa, no ano passado.

“O que mais me tocou, de tudo o que vi e fotografei, foram as pessoas”, conta Mil-Homens. Foi pouco tempo depois da viagem, ao passar brevemente os olhos pelas imagens que tinha captado, que começou a fazer uma selecção, ao perceber que tinha ali material único.

O passeio foi “de puro recreio com um grupo de amigos”, mas como a fotografia “é um bichinho, um vício”, acabou por resultar em trabalho – comprovando o ditado popular de que “quem corre por gosto não cansa”. “A máquina anda sempre comigo e realmente estas oportunidades são de aproveitar”, diz o fotógrafo.

As imagens foram surgindo e o projecto rapidamente se arquitectou, desde logo com este nome: “Houve imediatamente uma série de fotografias que me chamaram à atenção pela expressão das pessoas”.

Em Shanxi, Mil-Homens encontrou uma realidade completamente diferente da que estava habituado. “Curiosamente, verifiquei uma mudança extremamente rápida: os chineses, mesmo no interior do país, estão a passar daquela reacção de recusa em serem fotografados, de virarem a cara, esconderem-se ou ficarem mal-encarados, à predisposição para serem fotografados”, conta.

A explicação, acredita, está no desenvolvimento do turismo e na crescente infiltração das novas tecnologias. “Penso que isto estará relacionado com o aumento do número de turistas, muitos deles ocidentais, o que vai criando uma habituação nas pessoas. Por outro lado, acho que também se deve à familiarização com as novas tecnologias, nomeadamente com a fotografia digital”. Mil-Homens destaca que, “actualmente, em qualquer cidade da China, há não sei quantas pessoas que compram máquinas fotográficas”. Por consequência, “todos os seus familiares e amigos acabam por se habituar a este novo instrumento de registo em que podem ver imediatamente o resultado”.

A reacção das pessoas que fotografou foi, então, positiva e a presença do “intruso” bem recebida. “Quando se fotografa e a seguir se mostra [a imagem] no ecrãzinho da máquina, por norma a resposta é um grande sorriso”, explica o fotógrafo, que se diz satisfeito por ter conseguido captar “atitudes absolutamente naturais”.

Para garantir o à vontade dos sujeitos, António Mil-Homens procurou também incluir o ambiente envolvente, evitando colocar a objectiva directamente apontada ao rosto das pessoas. “Assim não se sentem tão intimidados”, aponta.

Nada de caridade

É em Shanxi que se encontra um terço das minas de carvão da China. Mas não é só na sua extracção que trabalham os habitantes da província. As autoridades locais lançaram recentemente uma campanha para a criação de 100 mil quintas ecológicas, com o objectivo de promover a agricultura sustentável e melhorar o nível de vida dos agricultores locais.

Mil-Homens considera que este é um bom exemplo de que “as coisas estão a mudar”, além de comprovar que a percepção que o Ocidente tem da China “nem sempre corresponde à realidade”.

Durante a viagem de cerca de uma semana, o fotógrafo encontrou “de tudo”, num cenário repleto de “gente simples”. Apesar do trabalho árduo a que estão sujeitas, a postura das pessoas impressionou Mil-Homens por ser tão diferente da dos trabalhadores ocidentais.

“Em Portugal, até em Lisboa – capital e cidade do mundo – as pessoas modestas, ou mesmo pobres, muitas vezes ostentam o seu miserabilismo e usam-no como trunfo para apelar à caridade do próximo”, aponta. “Não quer dizer que não haja gente a pedir na China, mas penso que é um fenómeno que está a diminuir muito rapidamente. As pessoas trabalham, fazem pela vida”, refere. Este espírito diligente dos chineses também se verifica em Macau: “As pessoas, mesmo já de idade avançada, lançam a mão a tudo o que lhes possa dar umas patacas para subsistirem”.

O fotógrafo lamenta que a atitude portuguesa seja tão diferente. “O espírito ocidental, e nomeadamente o português, é muito ‘coitadinho de mim, não tenho nada, estendo a mão, espero um subsídio, espero um apoio’ – esta diferença cultural é muito grande”, refere.

“Shanxi Faces – Fotografias a preto e branco” pode ser vista a partir das 18h de hoje. A exposição fica patente até ao dia 21 de Novembro.

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