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Os “filhusdumagrandessíssima”

Além de outros métodos possíveis para se aferir da qualidade de um livro, há um que se apresenta como sendo essencial: o quão convincentes são os diálogos das personagens que vivem dentro de uma ficção. Colocando o problema noutros termos: Lituma nasceu num lugarejo nas profundezas do Peru e foi para a Guarda Civil para escapar à fome; vai ao cinema ao ar livre para ver filmes projectados na parede da igreja; passa a vida entre posto, bares de duvidosa reputação e a tasca da dona Adriana. Quando lhe mostram Palomino maltratado e enforcado, a Lituma saiu-lhe um “filhusdumagrandessíssima”. Se tivesse dito outra coisa qualquer, do tipo “que grande chatice”, Lituma não existiria, por não convencer o leitor. E Lituma convence – passou a existir. Mario Vargas Llosa sabe criar personagens.

E sabe também criar enredos, pontos altos, uma razão qualquer para que se continue a virar a página. O prazer do inesperado. Com a ajuda de um narrador que segue os passos de Lituma (que, por sua vez, segue os passos do Tenente Silva), Vargas Llosa responde-nos à pergunta “Quem Matou Palomino Molero?”, num livro que podia ser um policial – os ingredientes estão lá – mas que não é, por ser mais do que um policial. É também um retrato de costumes, uma crítica refinada às relações de poder, um exercício de ironia sobre fracos e fortes, vencidos e vencedores. E tudo isto com uma dose de sarcasmo que se assemelha a humor. Humor negro.

Importa apresentar Palomino Molero – afinal, mesmo não sendo a personagem principal do livro, foi em torno dele que tudo aconteceu. Ou, para sermos mais precisos, foi por causa da morte dele que o quotidiano de Lituma se alterou. Molero era “um desses aviadores que vieram para a base aérea na última leva (…) O piuranito que cantava boleros.” (página 11). Um puto da região de Lituma (mas de quem Lituma não se recorda) que, além de cantar bem, se apaixonou mal.

Mal apaixonado também andava por esses tempos o Tenente Silva, redondo de desejos por dona Adriana, que “tinha idade para ser sua mãe, tinha cãs entre os cabelos lassos e, além disso, era uma gorda com banha por todo o lado, com uns grandes ‘pneus’”. (página 27). Dona Adriana, casada com um pescador e intangível, como intangível parece ser a razão que nos leva a abrir o livro – não se apresentou fácil ao Tenente Silva descobrir quem matou Palomino Molero, saber quem infligiu tratamento tão bárbaro ao piuranito que cantava boleros.

Acontece que a Lituma o “franzino” ao dependuro não lhe saía da cabeça, pensamento em que estava acompanhado pelo Tenente Silva – que ora pensava em Palomino, ora em dona Adriana. Pensamento dividido à parte, a maior dificuldade do chefe de Lituma prendia-se com as outras autoridades: a Aviação, nada cooperante, através da figura do coronel Midreau, que lhes fechou a porta da Base. Mas ao fechar a porta abriu outras, vai perceber mais tarde Lituma, pouco rápido no pensamento mas sempre atento ao raciocínio do Tenente.

Quando há homens, amores, sentimentos e álcool, todos os mistérios se resolvem. O Tenente Silva, atrás dos seus óculos escuros, é conhecedor dos truques que afectam a humanidade – com excepção do malabarismo de que necessitava para chegar aos braços de dona Adriana – e descobre a solução para o enigma.

E depois? O que vem depois não se conta, que o livro ainda não acabou. Mas pode-se antecipar que dona Adriana muda de ideias. E que o livro fecha com um “filhusdumagrandessíssima”.

Isabel Castro

Quem Matou Palomino Molero?

Mario Vargas Llosa, 1986 (reedição em 2010)

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