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A invenção de Jarrett

 

Isabel Castro

 

Dizem que houve um problema com o piano, que o instrumento estava desafinado. Foi remediado à pressa, era peça de bastidores, não tinha a qualidade que exigira. Não era aquele o piano, mas acabou por ser, por via de um esforço que, dizem, melhorou a qualidade do que lá foi tocado, porque obrigou ao improviso adicional.

Dizem também que não queria subir ao palco, mas naqueles tempos as organizações ainda eram convincentes. E dizem ainda que o concerto começou tarde, já depois de a ópera acabar. Era uma sala onde os pianos sozinhos não iam bem, porque na ópera canta-se ópera, não se um ouve só piano durante 66 minutos. A excepção aconteceu num germânico Janeiro de 1975 e mudou o entendimento de algum mundo.

Houve outros concertos antes e muitos depois, mas The Köln Concert foi aquele que fez toda a diferença. Desde logo por toda a candura com que começa, aquelas cinco notas da mão direita que alteram a concepção da música. E que me fazem perguntar como foi possível chegar até 1975 sem se encontrar o alinhamento para aquelas duas colcheias, duas semicolcheias, outra colcheia a prolongar-se no compasso que vem a seguir. Como se 1975 fosse tarde de mais. Não foi.

Mas The Köln Concert é também força, desencontro, uma tristeza bruta, queixumes requintados, num diálogo nem sempre fácil de perceber, quais amantes desavindos, vindos. É um murmúrio de tecnicidades, um jogo sombrio de tons tocado com uma perfeita precisão. É o concerto impossível, onde rigor e orgasmo se misturam como se os orgasmos coubessem em pautas, ali certinhos, contados e desdobrados em 100 tempos por minuto, quatro-por-quatro a começar e depois logo se vê. Uma profusão de semicolcheias que nunca se atropelam, que parecem querer rasgar o infinito, o fim do piano, instrumento tão cru e tão quente. E depois chega a calma, o sossego, as mãos que entrelaçam o piano errado, o piano certo.

The Köln Concert é jazz mas não é bem jazz. A diferença não se explicará (ouve-se) mas ensaia-se assim: está ali uma erudição herdada de outros hábitos musicais, mas está ali sobretudo a genialidade sem a qual não se cria a diferença. A genialidade que faz com que um sol, um ré (oitava a cima), um dó, outro sol e um lá (mais as muitas notas que se tocam ao longo dos restantes 66 minutos, mas que são as mesmas das músicas de todos os outros compositores do mundo e da história) sejam qualquer coisa que nunca se ouviu.

Aquela noite de Janeiro de 1975 foi gravada e, ainda no mesmo ano, The Köln Concert passou a disco, com a bênção da ECM. Anos mais tarde, depois de muita insistência (é um génio de génio difícil, dizem), Keith Jarrett passou a escrito a hora passada em Colónia e foi autorizando pontuais gravações. Houve quem se tivesse atrevido, mas são poucos os que tentam o risco.

Dizem que é o registo discográfico de piano mais vendido de sempre – mais de 3,5 milhões de cópias – e que influenciou muitos dos que hoje tocam piano e fazem jazz. É um disco para se ter em casa e na memória também, espaço de armazenamento de deliciosas inutilidades. Perguntar-me-ão de que vale fechar os olhos e conseguir entoar mentalmente 66 minutos de um concerto que não se entoa, só se ouve. Direi que é com estes refúgios que se afasta o tédio.

 

The Köln Concert

Keith Jarrett, 1975

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