Uncategorized

Duas vidas como os gatos

Isabel Castro

Tanto parece ter vida, muita vida, como parece ser feito de tecido, pelas mãos de uma avó prendada – basta que ele feche os olhos para não parecer mais do que um boneco de trapos. Chama-se Dino (ler o ‘o’ como se fosse ‘ô’, que o gato é francês), não fala, mas espirra quando sente o irritante perfume da irritante empregada que passa os dias com Zoe.

Zoe é uma menina de cara longa e cabelos claros, muito parecida com a mãe, mas em ponto pequeno. É abraçada por Dino na sua melancolia, na solidão dos dias passados em casa. Dino dá-lhe as mais estranhas prendas, prémios de gato caçador que ronrona depois de cumprida a empreitada de felino.

A mãe de Zoe é uma mulher dos nossos dias, incapaz de cumprir as promessas que faz à filha entre a azáfama da vida profissional (é comissária da polícia) e uma só obsessão: encontrar o homem que matou o marido. Zoe não fala desde que o pai morreu. Zoe é uma menina silenciosa.

O quarto de Zoe dá para um muro. Esse muro é prolongado por outros. No final de muitos muros, já depois de passado o quintal onde está o cão que leva todas as noites com o chinelo do dono, fica a casa de um misterioso ser que não é um gato, mas que podia ser, de tão esguio que é.

Dino sai todas as noites de casa (Zoe abre-lhe a janela) e só regressa com a ameaça do dia. Junta-se ao misterioso homem e os dois sobem telhados e janelas. Dino tem felinos poderes; o homem também. Entram em casas e escritórios e abrem cofres e espreitam às janelas. Na realidade, o gato de Zoe desempenha as funções de assistente: assiste, avisa, protege.

Dino é, assim, um gato com duas vidas, como todos os gatos. De dia é brinquedo de miúda abandonada aos pensamentos de miúda; à noite é um gato de acção que não fala, mas mia. E que, percebe-se mais tarde, é bom com os cheiros que o fazem espirrar. Assim como com as garras e com os dentes, se for caso disso. A estranha dupla de bandidos felinos vai ajudar a resolver o mistério – são eles que encontram o verdadeiro mau da história, o bandido a sério, para um final feliz. Como nos filmes.

“Une vie de chat” acontece em Paris, numa Paris que é quase sempre de noite (os dias com Zoe são simpáticos, mas pouco cinematográficos) e numa Paris vista quase sempre de cima. É a cidade percorrida do alto de muros e edifícios porque, afinal, todos os protagonistas da história são mais ou menos gatos no que toca a subir paredes. E todos eles se perseguem neste filme nas alturas, que mostra Paris de uma outra perspectiva – o felino ponto de vista de uma animação (também) para miúdos, mas certamente aconselhável para adultos que gostam de ser miúdos de vez em quando.

Feito no mais conceituado estúdio de animação parisiense, o Folimage, “Une vie de chat” é um trabalho assinado por Alain Gagnol e Jean-Loup Felcioli, que trabalham juntos desde 1996. Gagnol queria escrever banda desenhada; Felcioli é um designer gráfico com formação em Belas-Artes. Pela fluência da narrativa e pela fineza do traço, as influências de um e de outro estão bem à vista na primeira longa metragem em que se aventuraram.

 

Une vie de chat (A cat in Paris)

Alain Gagnol e Jean-Loup Felcioli, 2010

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s