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O desempregado que virou escritor

Um despedimento colectivo deu a João Ricardo Pedro o tempo de que precisava para escrever. Três anos depois, o vencedor do Prémio Leya 2011 vê o seu primeiro livro editado. “O Teu Rosto Será o Último” chega em breve.

Pedro Galinha, em Lisboa

João Ricardo Pedro era, até há bem pouco tempo, um português desconhecido. Mas tudo mudou quando, no último mês, foi anunciado como vencedor do Prémio LeYa 2011 com o romance “O Teu Rosto Será o Último”.

Além da recompensa monetária no valor de 100 mil euros, o autor de 38 anos, casado e pai de dois filhos, vai também ver editada a sua obra de estreia no primeiro trimestre de 2012. Precisamente três anos depois de iniciar o livro que foi escrito numa altura em que se encontrava desempregado.

Descrito pelo júri do prémio, presidido por Manuel Alegre, como uma “composição delicada de histórias autónomas que se traçam em fios secretos”, o romance é pautado por elipses e interrogações. Já os personagens que povoam o universo de “O Teu Rosto Será o Último” são considerados “instigantes” e “gerados por uma linguagem marcada pelo lirismo e pela violência do quotidiano”.

Com a atribuição do prémio, João Ricardo Pedro torna-se no primeiro português a receber o galardão criado em 2008 e que, nas duas primeiras edições, agraciou o brasileiro Murilo Carvalho, com a obra “O Rastro do Jaguar” (2008), e o moçambicano João Paulo Borges Coelho, autor de “O Olho de Hertzog” (2009). Em 2010, o galardão não foi atribuído devido à falta de qualidade dos textos apresentados invocada pelo júri.

– Já se sente um escritor?

João Ricardo Pedro – Não, ainda não. (pausa) Quer dizer, sim. Durante os dois anos em que escrevi o livro tinha uma rotina, sentia a felicidade quando uma frase saía bem e tinha as frustrações quando as coisas corriam mal. Em muitos momentos disse ‘é isto que quero fazer para o resto da vida’. Achava que era maravilhoso e, por isso, por vezes, sentia-me um escritor por estar em casa a construir frases e uma história. Agora, por ter escrito um livro e ter recebido um prémio não me sinto um escritor. Acho que para o ser ainda falta mais qualquer coisa. Até tenho dificuldade e algum pudor em afirmar que sou um escritor. Pode ser que depois de o livro ser editado eu melhore a relação que tenho comigo mesmo em relação a esta questão. (Entretanto, o telemóvel toca.)

– Os seus amigos ainda não estão habituados ao facto de dar entrevistas?

J.R.P. – (Risos) Há coisas engraçadas. Já não falava com alguns amigos há uns anos e, agora, houve uma reaproximação.

– Há pouco, disse-nos que ainda não se sente plenamente um escritor. Ainda assim, já tem em mente um novo livro.

J.R.P. – Tenho umas frases soltas. Mas isto serve até para me libertar do primeiro – que foi muito intenso – e das suas personagens. Sinto que é necessário pensar noutras coisas.

– Quando começou a escrever “O Teu Rosto Será o Último” estava desempregado. Até que ponto isso influenciou o processo de escrita?

J.R.P. – Exactamente. Fui vítima de um despedimento colectivo tão em moda nesta altura. E, no dia a seguir, pensei ‘vou escrever um livro’. Foi uma coisa não muito consciente, mas muito intuitiva. Comecei prontamente e ao fim de meia dúzia de dias já sabia que queria isto. Poderia ter arranjado um bom emprego para esquecer as dificuldades pelas quais estava a passar, mas, naquela altura, tinha as condições mínimas para começar a escrever. Tinha feito poupanças e a minha mulher tinha um emprego estável.

– Das 162 obras a concurso, a sua foi a escolhida. Pareceu-lhe impossível?

J.R.P. – Imagino que 150 deviam ser… Aquilo tinha dez finalistas e eu acabei por ganhar, com sorte, porque nos prémios há sempre uma injustiça do caraças! Talvez os outros autores que perderam sejam tão bons ou melhores do que eu. Mas nem tento pensar muito no facto de ter ganho o prémio porque isso não faz com que o livro seja melhor. Claro que é uma satisfação, mas não valorizo muito ter ganho entre 162 autores ou ser o primeiro português a vencer o Prémio LeYa 2011.

– Objectivamente, de que é feita a sua história?

J.R.P. – Passa-se numa realidade dividida entre duas situações: uma num mundo rural antes do 25 de Abril e outra numa espécie de universo suburbano pós-revolução. Esses são os cenários geográficos, se bem que também há episódios que se passam em Viena e Buenos Aires. Depois, centra-se numa família composta por avós, pais e filho – o Duarte – que é a personagem principal. O Duarte nasce um bocado antes do 25 de Abril e a história acompanha um bocado o crescimento da criança e o envolvimento familiar. São uma série de acontecimentos passados durante a ditadura, a guerra colonial, e baseia-se muito na forma como os avós e os pais influenciam o Duarte. Mas, conforme o leitor, podem ser tiradas outras conclusões. Muitas pessoas vão achar que é um livro sobre música porque a  personagem principal tem muito jeito para tocar piano e a sua vida acaba em desgraça. Outras vão achar que é sobre o Portugal pós-25 de Abril. Há também uma relação com a pintura e, inclusivamente, existem muitos episódios fortes sobre a forma como as pessoas morrem.

– No fundo, este Duarte é um rapaz da sua geração?

J.R.P. – É, e existem algumas coincidências geográficas e temporais em relação a mim. Aliás, uma das perguntas que custam fazer-me é se o livro é autobiográfico. Na minha opinião, todos os livros são um bocado autobiográficos. O que o escritor escreve está na sua memória e na sua cabeça. Eu não inventei nada. O que fiz foram arranjos nas memórias que tinha. Portanto, nesse sentido é autobiográfico. Os meus avós eram mais ou menos da zona onde a história decorre, eu cresci numa zona suburbana como o Duarte (Queluz). Mas o resto nada tem que ver comigo e eu nem sequer toco piano. Mas até gostava.

– Para si ainda é difícil falar daquilo escreve?

J.R.P. – É um bocado difícil porque tenho sempre duas leituras do livro. Como já disse, o livro surge de uma data de frases seguidas umas das outras. E, quando parto para uma frase, parto sempre com uma intenção, mas nem sempre consigo e há uma certa desilusão. O livro acabou por ser o somatório dessas desilusões todas. Ou seja, o livro ficou muito aquém daquilo que eu queria e só eu sei o quanto é diferente. Quando ouvi as citações do júri a dizer o que achavam do livro, pensei: ‘se vocês tivessem lido aquilo que eu queria escrever ficavam esmagados!’. (risos)

– O júri descreveu a obra como uma “composição delicada de histórias autónomas que se traçam em fios secretos”. Concorda com essa apreciação? 

J.R.P. – O livro não tem uma estrutura linear. Não há um fio inerte de tempo. O livro está dividido por capítulos, relativamente pequenos com meia dúzia de parágrafos, e nas primeiras páginas nem se tem bem a noção que aquilo se liga. Se calhar só ao fim de dez ou 11 capítulos é que se tem a noção que a partir dali se forma um todo. Do primeiro para o segundo capítulo o leitor vai ter um choque, ainda para mais se estiver deliciado com a história. O livro é, por isso, feito um bocado a partir desses saltos temporais e geográficos, mas com o tempo vamos percebendo a forma como as histórias se ligam. E acho que era isso que queriam dizer.

– Depois apoia-se numa série de cenários que embrulham cada situação.

J.R.P. – Acho que o livro poderia funcionar como um conto. Mas não é. É um romance com alguma independência entre os capítulos que até poderiam ter sido dispostos de formas diferentes. São pequenas histórias que estão interligadas.

– O Portugal que retrata no livro tem muito daquele que existe hoje em dia?

J.R.P. – Muito do livro é também um retrato do país dos anos 90 que não é muito diferente do de hoje. Portanto, podemos falar num certo desencanto. Em relação ao tempo do 25 de Abril, o livro tenta dizer que apesar de todas as esperanças colectivas do país, nem por isso deixou de haver pessoas infelizes e com problemas. Mesmo com algum humor, o livro é um bocado triste e se as pessoas o lerem nos próximos tempos vão concluir que realmente foram muitas as esperanças de há 30 anos que não se concretizaram.

– Foi sua intenção construir este mundo triste e de desilusão?

J.R.P. – Até podia ter sido por eu ter ficado desempregado. Mas não houve essa intenção deliberada. Posso, sim, falar num certo desencanto com o país.

– Dentro deste desencanto, como imagina a vida nos próximos tempos?

J.R.P. – Nos próximos anos, imagino os meus dias envoltos numa rotina diária de escrita. Não consigo escrever à noite porque acho que a noite é para dormir. Não tenho grandes vícios de álcool. Aquela imagem do escritor a emborcar whisky e a fumar cigarros não é comigo, apesar de ser fumador. Mas agrada-me essa rotina de empregado da literatura. Ter um horário, tentar cumpri-lo ao máximo, e chegar ao final da semana com páginas escritas.

– A engenharia electrotécnica ficou, definitivamente, para trás?

J.R.P. – Morreu mesmo antes do prémio. Depois de um ano a escrever já sabia que queria mesmo isto. Até quando pensava nas questões monetárias que me levaram a dar explicações de Matemática. Mas pensava muito e até dizia que preferia ter um part-time numa pizzaria que me permitisse escrever do que voltar à profissão de engenheiro electrotécnico que me consumia todos os dias.

– Mesmo num país onde são editados dezenas e dezenas de livros todos os meses?

J.R.P. – Se calhar este dinheiro vai ser o único de jeito que vou receber por escrever. Mas neste momento não estou muito preocupado com isso. Realmente, editam-se livros a mais. Bom, não sei se são a mais. Mas certo é que muitos são uma porcaria. Espero fazer parte daquele grupo de pessoas que vive da literatura de forma honesta e que consegue transmitir sinceridade e honestidade ao leitor. Ao fim do ano, esses tipos de livros no mercado são muito poucos.

– Há algum escritor português da nova geração que lhe desperta atenção?

J.R.P. – O Gonçalo M. Tavares é um gajo que me interessa. Enquanto o meu livro é um universo enraizado em geografias que as pessoas conhecem, o Gonçalo M. Tavares consegue inventar tudo aquilo que escreve. Nós não sabemos muito bem onde é que aquilo se passa e é um mundo totalmente diferente daquele em que me situo. Mas é um autor que me faz querer ler tudo o que já escreveu.

– É também um leitor compulsivo. Qual é o livro que tem pela cabeceira?

J.R.P. – Tenho o calhamaço Anna Karenina do Tolstoi. Foi um livro que comecei a ler antes de receber o prémio e estou deliciado com aquilo. Acho que ainda me vai dar para umas semanas, mas depois sigo para o Gonçalo M. Tavares. Já tenho alguns lá por casa.

 

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