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Português de sabor a chá

É ficção, mas tem muito de realidade. Com Macau como pano de fundo, “Conversas do Chá e do Café”, de António Conceição Júnior, fala do emaranhado de identidades e culturas que compõem o dia-a-dia do território. O livro é hoje apresentado.

Inês Santinhos Gonçalves

É com a ‘pipa’ na mão que Zhou Yun conhece o narrador da história. Tamborilando os dedos na tampa da caixa do instrumento, a jovem chinesa apresenta-se. É de Anhui, onde o mar não existe. Viveu em Lisboa e em Sesimbra. Fala a língua de Camões na perfeição. Ele, português de Macau, entre a ‘pipa’ e o idioma, gagueja perante tal desenvoltura.

“Levei tempo a saborear o português dela, um paladar indefinido que me levou a pensar no suave travo do chá (…) Era um português belíssimo, com um tempo dos verbos que se adequava ao calor que fazia, e a esse sabor especial que é ouvirmos a nossa língua em mais uma forma de ser falada.” O excerto pertence ao livro “Conversas do Chá e do Café”, de António Conceição Júnior, que é hoje apresentado no Clube C&C.

Entre o narrador e o autor encontram-se muitas semelhanças. São ambos filhos da terra, dominam o chinês e o português, ostentam barbas já “branqueando”. Conceição Júnior assegura que neste enredo “há muito pouco de autobiográfico”. Mas logo a seguir a ressalva: “Fazendo estas histórias parte de parte da minha história, das minhas memórias e reflexões sobre o mundo, talvez neste caso possa haver uma identificação”. Admite que “há pontos comuns”, como o facto de se “mover com certo à-vontade no universo da cultura chinesa, o suficiente para poder alterá-la, por conveniência da narrativa, sem desvirtuar o essencial”.

Já Zhou Yun, “de tez de porcelana”, “figura fina” e sorriso sincero que se “espraiava sem esforço pelo areal dos minutos, como espuma transparente”, é, assume “sem qualquer subterfúgio”, uma soma de várias pessoas. “Zhou Yun é um paradigma”, afirma o autor. “É um modelo do que sei existir e ser possível acontecer nesta babilónia de falas, línguas e maneiras de estar”, desenvolve.

É a curiosidade que a jovem demonstra pelo Outro que atrai tanto o autor como o narrador. “Zhou Yun é o exemplo de alguém que fala bem o ‘P’ou Yü’, exactamente aquilo que considero que as pessoas da comunidade portuguesa deveriam fazer quando aqui decidem aportar e radicar-se, aprendendo o chinês”, sentencia o escritor.

A personagem feminina que marca o tom do livro, foi, então, fruto da observação do meio de convívio de Conceição Júnior. Inspirou-se num conjunto de jovens “conhecedoras da sua cultura”, que “procuram olhar para além do horizonte da empresa e escritório onde trabalham”.

 

As subtilezas da língua

 

Para conhecer Macau, defende o escritor, “é preciso conhecer as subtilezas da língua”. Isso não significa apenas ser capaz de comunicar – é sabido que por aqui a mensagem sempre se faz passar, seja em chinês, português, inglês, um bocadinho de cada, ou até por gestos. “Uma língua diz muito de si. Zhou Yun procurou a alma portuguesa lendo os nossos poetas, ouvindo a nossa música, vendo o nosso mar, pensando alto”, justifica o autor.

No entanto, “o não domínio de uma língua pode não se constituir em barreira cultural por si mesma”. Os maiores impedimentos à compreensão, acredita, são o preconceito e a falta de vontade, associados à “indisponibilidade de aceitar o Outro na sua diferença”.

Sobre a forma como os ocidentais encaram os asiáticos, Conceição Júnior não tem certezas, mas acredita que existem “diferentes olhares e diferentes visões” e que “há mesmo quem esteja cego”. Considerando-se “indefectivelmente” macaense, mas também português, o autor reconhece que no território “há muita gente que não compreendeu ainda a verdadeira dimensão da portugalidade e o que significa ser português nascido na China”.

Pelos 12 capítulos das 110 páginas de “Conversas do Chá e do Café” passam diferentes personagens. Umas ficam, outras não. Permanece a sensação de que os chineses estão envoltos numa certa aura enigmática. Os discursos que podem levar a essa conclusão foram atribuídos de forma “circunstancial”, garante Conceição Júnior. Estas personagens “representam a própria sabedoria, que não tem pátria”, esclarece.

De página em página o leitor depara-se com lugares conhecidos. Ruas e praças, largos, igrejas e travessas. O calor tórrido de Agosto e o avançar dos meses mais amenos. “Conversas do Chá e do Café” é um livro familiar. Até a ‘pipa’, um instrumento tradicional chinês, pode encerrar em si um factor de reconhecimento inter-cultural, pela aproximação à guitarra portuguesa. É a música, aliás, que serve de mote ao primeiro encontro das personagens, lembra o autor, rematando: “E haverá melhor ponte que a cultura?”.

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