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Os dois lados do canal

Rui Passos Rocha

“Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a época da sabedoria, era a época da loucura.” Estamos em 1775. A guerra da independência norte-americana está prestes a eclodir e, do outro lado do Atlântico, um país tumultuoso deixará de aguentar a panela de pressão popular. Duas Revoluções vão seguir-se em cerca de 20 anos, e ambas serão um grito contra a opressão: a britânica nos Estados Unidos, a monárquica em França.

Jarvis Lorry é um leal banqueiro britânico e um solteirão de sempre. Lucie Manette é francesa, órfã de mãe e com o pai aprisionado junto à Bastilha. Foi Jarvis que a levou para Inglaterra, ainda criança; e é ela que o procura, uns 20 anos depois, para que com ela vá a França, onde o pai acaba de ser libertado. Fechado num apartamento pouco iluminado, o inocente Alexandre Manette – outrora um médico afamado – faz sapatos e para aí canaliza a pouca energia que lhe resta. O reencontro com a filha muda tudo.

Saint Antoine é uma cidade-tipo, com o seu povo calejado e abafado pelos pesados impostos que pagam o chocolate quente das manhãs do Marquês de Evrémonde. Em troca, o magnânimo semideus concede o privilégio de o povo o ver esporadicamente. Povo que carinhosamente equipara a cães ranhosos. O desprezo é mútuo e em breve ele terá de emigrar clandestinamente para escapar à Guillotine.

O sobrinho de Evrémonde, Charles Darnay, abdicou dos privilégios do sangue e rumou à Inglaterra, como qualquer outro trabalhador. Cedo se apercebeu da sua paixão pela terna Lucie, com quem viria a casar-se. Tudo seria um mar de rosas, não fosse Darnay receber uma carta desesperada de Gabelle, o cobrador de impostos dos Evrémonde, preso e condenado ao corte da famosa barbeira revolucionária.

Darnay, de bom coração, sente-se obrigado a socorrê-lo. Já em França, a aprovação de última hora de mais uma lei revolucionária retira humanamente a quaisquer emigrantes e descendentes de aristocratas o direito à vida. Feito prisioneiro, Darnay virá a ser ajudado pelo Dr. Manette, herói nacional resistente à antiga ordem; mas no dia seguinte será de novo detido. Desta vez, nada a fazer: numa carta escrita aquando do seu longo cativeiro, o desesperado Manette descrevera com exactidão as atrocidades cometidas pelo Marquês de Evrémonde e pelo seu irmão (pai de Darnay) e jurava vingança divina à família desumana. Mas eis que à última hora, Sydney Carton, um bêbedo amigo da família que é fisicamente muito semelhante a Darnay, evita o fim trágico: troca de roupa (e de vida) com Darnay e, heroicamente, morre em sua vez.

Este livro, um clássico, é sobretudo um retrato animado das mudanças humanas imprimidas pela Revolução Francesa. A sede de vingança popular, que conduziu a exageros e injustiças, condenou inúmeros inocentes. A pena crítica de Dickens parece não entender que virtude intrínseca e imaculada era essa da pátria da “Liberdade, Igualdade, Fraternidade, ou Morte”.

Um conto de duas cidades

Charles Dickens, 1985

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