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A brasileira indie

Isabel Castro

Se há coisa que no Brasil musical não cai nada bem é cantar em inglês: há uma relação muito forte com o português adocicado pelos trópicos e, naquele país que é um continente de gente e talento, cantor de jeito não é gringo. Caetano fez covers e cantou em italiano e em espanhol, mas Caetano é Caetano. Chico afrancesou belas canções de amor, mas Chico é Chico.

Mallu Magalhães gravou uns temas muito indie no MySpace e alcançou a fama com apenas 15 anos. Indie em inglês, algum indie naquele português que se arrasta e embala. Foi criticada pelo lado gringo, mas rapidamente se transformou num dos maiores sucessos brasileiros de vendas (e pirataria) musicais. Para o sucesso contribuiu também uma parceria com Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos, numa delicada canção que fez arrancar lágrimas e desfazer corações entre o público do país.

Quatro anos depois, aos 19, Mallu Magalhães lançou “Pitanga”, o seu terceiro disco. Paulistana a viver no Rio de Janeiro (cidade que a faz “cuspir” música, diz, de tão inspiradora que é), a menina agora mais mulher apresentou em Outubro um disco que fez as delícias de quem ainda vive na adolescência. E dos jovens adultos como ela. Dos mais velhos também.

Mallu teria relativo interesse se apenas cantasse. Não é o caso. Esclareça-se que é dona de uma bela voz. Mas ser-se músico no Brasil é ter um violão, é saber compor e arranjar, e Mallu é tudo isso. Daí o destaque para o lado prodigioso em início de carreira, que se esbate com o passar dos anos. A menina meio zen está-se a adaptar ao facto de o crescimento ser cruel para quem começou cedo. No seu novo disco procura amadurecimento.

“Pitanga”, avisa-se, é um disco indie. Calmo, sossegado, algumas vezes pouco brasileiro, apesar de Mallu denunciar na sua forma de cantar aquela maneira tão específica de produzir som com as cordas vocais que marca o som do país. Há uma forma muito própria de tocar guitarra no Brasil e com o canto o fenómeno é semelhante. Depois, a voz de Mallu (calma e sossegada) é um instrumento bem manobrado: a cantora foi buscar ao indie as sonoridades, mas inspira-se no jazz para o controlo vocal. E é brasileira.

“Pitanga” não é jazz, apesar de “Velha e Louca”, o tema que abre o disco, ter qualquer coisa de dixieland, com o banjo que Mallu também toca a ajudar. “Cena” tem outra envolvência, um lado mais cinematográfico nos arranjos, uma bateria mais batida.

“Sambinha Bom”, número três do alinhamento, assume ritmos de samba e bossa nova, com um ou outro detalhe (sopros, piano) a emprestarem-lhe contemporaneidade. E a voz de Mallu a desfazer-se inocentemente no fim, com “Quero virar sua pele,/ Quero fazer uma capa,/ Quero tirar sua roupa”.

“Olha Só, Moreno” é uma canção sobre o amor que se ama “devagarinho” e a vida que “tropeça”, saída de uma caixa de música, com bailarina em cima a rodar. Devagarinho.

“Youhuhu” é o primeiro tema em inglês do disco, no registo diferente que a língua empresta, mas com algumas frases em português que permitem ver duas Mallus numa só música. Canção leve, com banjo, será também a mais pop do álbum.

Faixa seguinte: “Por Que Você Faz Assim Comigo?”. É muito Brasil, mas é também o lado mais introspectivo da autora. A guitarra eléctrica com slide ajuda. O tema termina como se houvesse uma big band ali mesmo atrás de Mallu.

“Baby, I’m Sure” ouve-se bem (como os restantes temas, embora o disco não seja particularmente homogéneo), mas não fica para a história. “In The Morning”, a música que se segue, é bem mais interessante: recupera a sonoridade de caixa de música e o diálogo inglês-português, bem como a sensualidade que Mallu decide dar a algumas das suas canções.

“Lonely” é um caso sério, um exercício de delicadeza em que cada nota nasce no sítio certo, arranjos muito encaixados e uns sopros que quebram a sonoridade indie que poderia apenas ter. Mas não: com o seu modo de cantar, em inglês perfeito (os críticos elogiam-lhe a facilidade com que compõe numa língua que não a sua), Mallu desdobra-se em duas e faz a melhor canção do disco.

“Highly Sensitive” quebra o clima que a faixa anterior cria e também tem pouco que ver com “Ô, Ana”, em que a cantora e os seus músicos recuperam os ritmos bossa nova de “Sambinha Bom”. É um tema dispensável: podia não estar ali.

A fechar, “Cais”. E o disco termina em bom porto: um piano triste, Mallu sem palavras, como se cantasse para embalar, a voz tratada com um efeito que remete para a saída de cena. Depois Mallu outra vez, o som levemente distorcido, a perguntar: “De onde eu vim/ Não tem mar/ Onde eu vim parar?”. E a explicar, concluindo: “Atraquei/ Nesse cais/ Por amor demais”.

 

Pitanga

Mallu Magalhães, 2011

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