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“Falam de uma Macau que já não existe”

Regressada a Portugal depois de 18 anos em Macau, Isabel Pinto, portuguesa, sentiu alguma dificuldade de reintegração. A experiência fê-la pensar na comunidade macaense que se estabeleceu por lá. Como teria sido a sua adaptação? A busca por essa resposta resultou numa tese.

Inês Santinhos Gonçalves

Isabel Maria Rijo Correia Pinto já fez duas investigações académicas sobre macaenses. A primeira, um mestrado, realizou-a enquanto ainda residia em Macau, território a que chamou casa durante 18 anos. Em 2001, quando regressou a Portugal, sentiu necessidade de se reaproximar desse universo que lhe era tão familiar – é casada com um macaense, o que reforça a ligação afectiva.

“Eu, que já tinha vivido em Portugal, que sou de Portugal, tive alguma dificuldade em integrar-me, foi muito tempo de ausência.” Essa experiência pessoal fê-la pensar que seria interessante estudar o processo de adaptação dos macaenses que se mudaram de malas e bagagens para Portugal, alguns sem nunca lá terem residido. “Que problemas tiveram? E de que forma integraram a sua cultura na vida de Portugal?”, eram questões que lhe interessava responder.

No mestrado tinha-se focado em algo específico. A tese “O Comportamento Cultural dos Macaenses perante o Nascimento” reflectiu a sua experiência profissional como enfermeira de obstetrícia. Para o doutoramento, quis fazer “algo mais abrangente”. Na verdade, conta Isabel Pinto, tinha vontade de estudar e escrever mais sobre a comunidade macaense e o trabalho académico foi a forma que encontrou de colocar isso em prática. “Enviei o projecto para o doutoramento em Estudos Asiáticos [da Faculdade de Letras da Universidade do Porto] e foi aceite”, conta.

Seguiu-se o Prémio Agostinho da Silva, direccionado para a problemática interna e externa das comunidades dos países de língua portuguesa ou das comunidades da diáspora portuguesa, a que concorreu e venceu. O prémio abriu portas para a publicação de exemplares em Portugal, ainda que em número reduzido, pela editora Almedina. Ainda assim, interessava a Isabel Pinto que o estudo chegasse à comunidade macaense na RAEM. Conseguiu-o através do Instituto Cultural de Macau, que agora traz a publicação ao território. “A Comunidade Macaense em Portugal – Alguns aspectos do seu comportamento cultural” é posto à venda por cá em breve.

– Qual é a maior diferença entre os macaenses que vivem em Portugal e os que vivem em Macau?

Isabel Pinto – Em Portugal dão-se mais com portugueses – também não têm outro remédio, não é? Mas o engraçado é que conseguem, apesar de estarem inseridos na sociedade portuguesa, ter uma outra faceta: quando se encontram, entre eles, são exactamente como em Macau. Isso é mesmo muito engraçado. É como se tivessem dois casacos. Vestem um quando estão no meio da sociedade portuguesa – falam de determinada maneira, comem com os portugueses, tudo como se fossem portugueses – e depois, quando estão entre eles, vestem outro, tornam-se macaenses. É muito interessante observar essa transformação.

– Que hábitos e tradições permanecem?

I.P. – A culinária mantém-se e até está mais forte em altura de festas e comemorações. As pessoas juntam-se, fazem pratos típicos, seguem as tradições, comem as coisas nos devidos dias. Penso que em Macau o Natal poderá já não ser tão tradicional, mas em Portugal mantém-se. Também se comemora o Ano Novo Chinês, as pessoas juntam-se, vão ao restaurante chinês. A maneira de falar, entre elas, também se mantém, essa mistura de três línguas: português, chinês e inglês. As casas têm a particularidade de ter mobília oriental. Acho que conservam praticamente tudo, pelo menos esta geração. Depois os filhos já não sei. E mantêm um contacto muito estreito com Macau e com os macaenses da diáspora. É uma comunidade muito unida.

– A Casa de Macau tem 600 sócios. Há ideia de quantos macaenses vivem em Portugal?

I.P. – Não, só há esse registo da Casa de Macau. Mas imagino que sejam muitos mais.

– É um número que tem tendência a diminuir?

I.P. – É preciso ver que a etnia macaense em si tem tendência a diminuir, porque já não há [em Macau] tantos portugueses com quem os macaenses se casem. Os que vêm para cá acabam por se casar com portugueses e é natural que se vão diluindo na população portuguesa. Na família poderão ficar receitas de culinária, certos termos, para designar ‘fai chi’ [pauzinhos, em português], isso poderá ir ficando. Mas aquela geração que nasceu em Macau vai mesmo acabar, não há nada a fazer, é o rumo das coisas.

– Há uma preocupação em passar o legado às gerações que já nasceram em Portugal?

I.P. – Cada família vai passando determinadas tradições. Há coisas que vão ficar para sempre, principalmente a culinária. Mas, por exemplo, as coisas chinesas que as pessoas têm em casa, objectos, móveis, os jovens não as apreciam muito. Não sei o que vão fazer às coisas um dia quando as herdarem. E os pais falam disso com alguma tristeza porque trouxeram muitas coisas a pensar que os filhos as queriam e agora não as levam para casa deles.

– Em que parte do país se estabeleceu a comunidade?

I.P. – Estão espalhados. Há uma comunidade grande perto de Coimbra, no Porto também há alguns, não muitos. A maior parte está em Lisboa. Não vão muito para o campo, são pessoas mais citadinas.

– O principal motivo para irem para Portugal prendeu-se com a transferência de administração.

I.P. – A incerteza relativamente a Macau, quando foi a passagem de administração, fez muitos virem para cá, com medo que as coisas não corressem bem. Anteriormente vinham estudar.

– E não se espera um movimento contrário? Há muita gente a chegar a Macau, impulsionada pela crise financeira.

I.P. – Sim, muitos venderam as casas e regressaram porque viram que estava tudo bem, principalmente os mais novos. As pessoas mais velhas desvincularam-se da função pública em Macau e ingressaram em Portugal, por isso agora não querem deixar o trabalho. Terão sido os que trabalham no privado aqueles que mais regressaram. De qualquer forma, os que vivem em Portugal manifestam muitas saudades.

– De que é que sentem mais falta?

I.P. – O que referem mais é a comida e o ambiente. Mas falam de uma Macau que já não existe. Eu não vou [ao território] desde que regressei, mas toda a gente diz que Macau mudou muito.

– Em relação ao vestuário, os macaenses continuam a integrar na roupa elementos distintivos?

I.P. – Mais para ocasiões especiais. Quando vão a Macau aproveitam para [mandar] fazer roupa, por isso usam mais determinadas cores, mais garridas. Em Portugal as pessoas vestem-se de uma maneira mais escura, especialmente no Inverno, mais castanhos, cinzentos, pretos. Os macaenses não. É a maior diferença. E que a roupa é mais sintética, não usam tanto algodão, tantas fibras naturais.

– Em termos de decoração, mantêm-se as linhas orientais, portanto?

I.P. – As pessoas têm sempre em casa muitas coisas orientais. A começar pelos móveis, mas também gostam muito de ter os deuses chineses, aqueles objectos que têm simbologia, as tartarugas, os elefantes com a tromba levantada. Têm bastantes objectos desses. Também se preocupam com o ‘fong soy’, com a forma como dispõem os objectos. Acho que mantêm isso.

– Refere que o chá gordo, a merenda ajantarada com uma extensa lista de pratos, é um exemplo de uma tradição que em Macau já não se leva tão à letra como antes. E em Portugal?

I.P. – A Casa de Macau fazia, pelo menos uma ou duas vezes por ano, um chá gordo. Mas acho que aconteceu qualquer coisa com o cozinheiro e neste momento já não fazem as refeições como faziam quando escrevi o livro. Portanto, o chá gordo da Casa de Macau neste momento não está a ser confeccionado. A nível particular, quando as pessoas se juntam em casa umas das outras, então sim, mantêm os pratos do chá gordo, os salgadinhos, o ‘min’, por aí fora. Em casas particulares as pessoas continuam a confeccioná-los.

– A linguagem dos macaenses em Portugal também é diferente?

I.P. – Na forma de falar, há palavras que se mantêm. Certos vocábulos em patuá e em chinês, como ‘minap’, ‘fai chi’, ‘min toi’. Há certas designações de coisas que acredito que os filhos mantenham.

– Fala de jogos populares entre os macaenses, em Macau, como o jogo da chonga, do talu ou de bafá. Também se praticam na comunidade em Portugal?

I.P. – Isso é que acho que se perdeu. Não me parece que se mantenha jogo algum, além do mahjong, que não é macaense.

– Fez um estudo sobre a relação das mulheres macaenses com o nascimento dos filhos. A que conclusão chegou?

I.P. – Esse estudo já tem dez anos. Penso que agora as coisas até já estão mais para o lado chinês do que estavam nessa altura. Fiz um estudo comparativo – o facto de ser enfermeira da área de obstetrícia permitiu-me contactar com muitas mulheres chinesas na maternidade e verifiquei que tinham hábitos completamente diferentes das portuguesas quando tinham os filhos. Isso é que me levou a questionar para que lado é que penderiam as macaenses. Na altura observei que estavam cada vez mais a casar com homens chineses, portanto, a sogra era chinesa. E a sogra, na cultura oriental, tem um grande domínio sobre a nora. Por influência da sogra, muitos dos hábitos das mulheres macaenses estavam a pender mais para o lado chinês. Penso que neste momento as coisas devem estar ainda mais acentuadas nesse sentido. Porque os homens portugueses em Macau escasseiam e as mulheres macaenses cada vez mais casam com chineses.

– Que hábitos é que as mulheres macaenses incorporaram?

I.P. – Para começar, os alimentos [na cultura chinesa] são considerados quentes ou frios. Consoante o avançar da gravidez, há alimentos que são proibidos e outros que são permitidos. Por exemplo, as bananas são proibidas durante quase toda a gravidez, são consideradas quentes. Depois, por outro lado, há alimentos que se considera que fazem mal à criança, como a cobra, a rã, coisas com pele rugosa não se devem comer porque a criança pode nascer com problemas de pele. Isso é uma coisa que as macaenses mais velhas nunca mencionaram porque na alimentação macaense não existiam esses animais. Ao passo que as macaenses mais novas já referiram que não comiam isso [durante a gravidez], o que indica que comiam noutras alturas.

– E além da comida?

I.P. – Relativamente a objectos, as chinesas não tocam em tesouras quando estão grávidas, nem em facas ou objectos cortantes. Nem arrastam móveis. São tudo coisas que as macaenses me disseram que não faziam por causa da sogra. Quanto mais novas eram as mulheres, mais se observava a tendência para adoptar hábitos chineses. A única coisa que se mantém, independentemente da etnia do marido, é a religião católica. As mulheres continuam a baptizar os filhos. Isso é interessante porque o que levou os nossos navegadores a descobrir outros mundos foi também a divulgação da religião católica, além da busca das especiarias. É engraçado que saímos de Macau, mas a religião ficou.

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