Uncategorized

O regresso [passos em volta]

Isabel Castro

Do que ali se passava nada sabia. Carros eram só os que tinha conduzido na vida, nunca a mais de 120 à hora em auto-estradas portuguesas, e por cá ainda nem sequer tinha acariciado um volante. Guardava umas estranhas memórias de infância de uma casa na praia perto de uma pista barulhenta. O barulho acordava-me demasiado cedo e eu sou noctívaga desde que me conheço, como se fosse coisa que se cola à pele no nascimento. Carros daqueles era coisa que não me agradava.

Fui lá arrastada por obrigação. Jornalista que é jornalista não diz que não, somos especialistas em generalidades. Mas foi, confesso, por muita obrigação, a puxarem por mim, ‘vai ver que isto é engraçado’. Fui. E agradou-me. A cidade que ainda mal conhecia – estaria cá há um mês – a transformar-se. As ruas em que já tinha andado a transvestirem-se em pista. Os autocarros lentos, na faixa do lado, com um fórmula a voar na rua que deixou de ser rua, separados por uma barreira que ao longe parece ser fina.

E depois lá dentro a cor, a azáfama. Os pneus que se arrastam de um lado para o outro. A Babel em meia dúzia de metros quadrados. A adrenalina, o som, as vísceras dos carros expostos na sua mais profunda intimidade. Os fatos. As botas. As meninas de saias curtas e guarda-chuvas – ou guarda-sóis. As declarações de intenções (todos querem ganhar), as ilusões e desilusões. Os sorrisos.

Lá dentro, um mundo tão diferente dos restantes 361 dias do ano, quando nada parece funcionar. No Grande Prémio não se mete requerimento para que a personagem da bandeira de xadrez esteja lá, à hora certa. Também não se apresenta ofício para a entrada do safety car. A pista é limpa sem estudos científicos. Os resultados saem na hora, nas línguas em que é preciso sair. Inventou-se ali uma realidade que nem parece Macau, aquela Macau man-man nos seus afazeres, lânguida de humidade e calor.

Mas depois, cá fora, a história é outra. De ano para ano, a coisa piora, de tanto que se inventa. Paragens de autocarro alternativas que fazem ligação ao terminal marítimo. A chuva miudinha a não ajudar. O motorista do 12 a comer uma laranja no meio do empancado trânsito, com direito a cascas pela janela para a janela do vizinho. O motorista a cumprir a regra do silêncio quando questionado sobre o destino: não se fala de boca cheia.

Quem vive no circuito da Guia queixa-se das madrugadas e eu percebo, sou solidária, mas gosto disto, agrada-me esta altura do ano que, quando acaba, deixa um vazio de cor e de gente despachada. Estaria cá um mês, já o disse, quando fui lá empurrada. Agora já ninguém me empurra nem trava, nem a casca de laranja do 12. É que o cheiro do Grande Prémio é o cheiro dos meus primeiros tempos por cá. Quando regressa chego outra vez.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s