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A curva Tamburello

Isabel Castro

Já conhecemos o fim da história e não é fácil ficarmos colados a um filme quando sabemos como tudo acaba. Mas “Senna” é um filme que agarra, que envolve até ao limite. Dezasseis anos depois da morte de Ayrton Senna, Asif Kapadia consegue fazer uma interessante viagem ao passado, com uma inquietante e actual pertinência.

“Senna” é um filme sobre o piloto que comoveu o mundo (principalmente o Brasil) nas décadas de 1980 e 1990, e que teve um infeliz final no Grande Prémio de San Marino, em 1994. Não era suposto ter perdido o controlo na Tamburello, curva fácil para o seu desempenho de piloto. Mas perdeu. E foi o fim.

Mas “Senna” é mais do que isso: é um documentário sobre o lado menos puro do mundo do desporto, eufemismo para o lado político do desporto. Senna lamentava-o, não queria que assim fosse. Dizia que a fase mais feliz da sua vida profissional tinha sido o período dos karts, em que as corridas eram “pura condução, pura corrida”, sem dinheiro à mistura. Mas o universo da Fórmula 1 escrevia-se (escreve-se) com outras regras. O piloto brasileiro percebeu rapidamente a realidade – pelo que Kapadia nos mostra, nunca se sentiu feliz com ela.

O britânico que realizou o filme recorre apenas ao arquivo para mostrar quem foi Senna – e esta é uma das características mais interessantes do filme. Não só porque não se misturam depoimentos actuais com imagens antigas (esses testemunhos existem, mas só com voz), mas também por ser extraordinária a quantidade de momentos do piloto que ficaram registados para a posteridade.

Asif Kapadia não caiu na vulgaridade de mostrar o lado mais íntimo – fá-lo, mas com parcimónia, reproduzindo apenas o grau de intimidade que o próprio Ayrton Senna quis divulgar na altura. As imagens mais surpreendentes (e mais elucidativas do tal lado político) são as que mostram Senna a discordar de directores de provas em briefings de pilotos; Senna na box, no paddock, com os engenheiros, com os colegas de equipa, com os rivais que também foram seus colegas de equipa.

Neste capítulo, Alan Prost desempenha um papel fundamental: foi ele que protagonizou uma série de conflituosos episódios com Senna, o puto brasileiro que apareceu como uma ameaça bem real ao até então detentor indiscutível de campeonatos do mundo. Prost e Senna, colegas de equipa que rapidamente se tornam rivais; Prost que deixa a McLaren, onde ambos correm, para se juntar à Williams; Prost que abandona a competição, permitindo assim a Senna saltar para a Williams. A Williams que, conclui-se, terá sido a pior decisão que tomou.

Sem apelar à lágrima (e o tema presta-se a isso), sem pormenores familiares que não os relevantes para a construção da narrativa (e seria fácil ver pais e irmã chorosos), sem apontar o dedo (apontando, se quisermos fazer essa leitura), Asif Kapadia faz de velhas imagens um filme muito de hoje.

É um filme bonito. É impossível ficar insensível a Sid Watkins, o velho neurocirurgião que acompanhava as provas de Fórmula 1 e que nos conta que Senna foi o piloto por quem desenvolveu maior afeição. Watkins não queria que Senna corresse naquele Maio de San Marino, que tinha ficado já para a história negra do automobilismo com a morte de um piloto. Watkins queria que Ayrton fosse pescar. Watkins teve a difícil tarefa de socorrer Senna, sem socorro possível. Foi Watkins também que, depois da morte do brasileiro mais bem-amado dos anos 1990, desenvolveu critérios de segurança para as provas de Fórmula 1.

Vencedor da última edição do Festival de Cinema de Sundance, “Senna” é um filme construído com sensibilidade e sensatez, sobre as fraquezas e forças humanas, sobre convicções e limites. Sobre um homem que ficou num certo imaginário colectivo. O homem que, embora “Senna” não o diga, passou pelo Circuito da Guia em 1983 e venceu a primeira Taça do Mundo de Fórmula 3 disputada em Macau.

 

 

Senna

Asif Kapadia, 2010

 

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