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“Eu fui a minha primeira personagem”

– Como é que uma licenciada em Direito decide, de repente, dedicar-se à literatura? Ou não foi de repente?

Dulce Maria Cardoso – Decidi tornar-me escritora aos 11 anos por causa dos factos que deram origem a este livro, porque foi muito difícil lidar com a realidade. Eu fui a minha primeira personagem, inventei aventuras para viver de forma a que não tivesse de pensar no dia-a-dia. Depois percebi que era assim que se construíam as histórias e percebi que era uma maravilha: podia levá-las para todo o lado, só precisava da cabeça, e ainda por cima eram gratuitas, havia muito pouco dinheiro disponível e eu não tinha de pagar por elas. Os dias passavam mais depressa e melhor. Decidi que era isso que queria fazer da minha vida e percebi que era isso que os escritores faziam. Depois faltava-me a outra parte, que era a parte técnica. Era tão ingénua perante a literatura – até porque cresci numa casa sem livros –, que depois de ter decidido, pensei: ‘Então agora que é que tenho de fazer?’. Pensei, pensei, pensei, e a única coisa que me ocorreu foi o curso de dactilografia. Era de uma ingenuidade tão grande que achei que era a solução. Então, o Verão dos meus 14 anos, em vez de estar na praia com o resto dos miúdos, passei-o numa escola que havia em Carcavelos, das nove às cinco, num curso intensivo de dactilografia, depois de muito aborrecer os meus pais, porque ainda era algum dinheiro. Lembro-me que as senhoras que queriam ir para secretárias estavam lá, muito mais velhas, e perguntavam: ‘Tu o que estás aqui a fazer? És tão pequena’. E eu dizia, muito inchada: ‘Quero ser escritora’ (risos). Nem mesmo quando elas se riam eu achava que podia estar errada, que podia ser ridículo. Bem, serve para dizer que isto é bastante sério em mim. Depois comecei a ir à biblioteca, a buscar livros. Durante muito tempo fui uma leitora caótica em que misturava tudo. Mas continuava a insistir que queria ser escritora. Nunca escrevi diários nem poemas, nem concorri àquelas coisas a que a maior parte dos jovens concorria. Havia o DN Jovem, por onde passaram muitos escritores – eu nunca mandei um texto para lá. O que fazia era imitar romances – escrevia os romances de que gostava com peripécias portuguesas, com coisas que inventava. Talvez daí venha o problema de não ter estilo ou de ser maleável.

– Mas entretanto vem o curso.

D.M.C. – Enquanto fazia a faculdade, não imitava, mas já escrevia romances, que nunca foram publicados, e bem. Foram deitados à lareira, que eram fraquitos. Portanto, continuei. Tirei o curso, fiz essas coisas todas porque evidentemente os meus pais achavam – e com razão, que querem sempre a segurança para os filhos –, que ser escritora não seria uma vida muito folgada em termos económicos. Depois percebi que não podia fazer as duas coisas ao mesmo tempo, exercer também exigia muito de mim. Tive de escolher: escolhi já bastante tarde, mas acho que escolhi bem.

– Ainda continua a ser uma leitora caótica?

D.M.C. – Continuo a ser uma leitora caótica e continuo a não ser uma leitora preconceituosa. Vou a uma livraria, normalmente não sigo muito a crítica, pego num livro, leio a primeira página, a última e um pedaço do meio. Se houver nas três coisas algo que me agrade, trago. E tenho feito boas descobertas. A crítica também tem muito a importância de nos predispor – se lemos um livro muito recomendado, já vamos para gostar, se lemos um livro muito criticado, vamos para não gostar. Mas nisso continuo a julgar por mim, como sempre fiz. Claro que é cada vez mais difícil, mas continuo a fazê-lo e continuo a ler autores muito variados. E sem que isso me faça confusão alguma – não sou daqueles que só lêem literatura anglo-saxónica, ou francesa, ou italiana. Não sou nada assim, leio tudo.

– Fez alguma descoberta recente que lhe tenha agradado particularmente e que recomende?

D.M.C. – Sim, “The Twin”, de Gerbrand Bakker. Li a versão inglesa, que não leio holandês. Ganhou um prémio de leitores, mas nem sequer sabia. Gostei muito. Mais tarde vim a saber que já tinha muitas coisas e muitas pessoas se tinham pronunciado sobre ele. Mas descobri-o na livraria, naquele processo de ler a primeira e última páginas. Depois há outros autores que continuam obscuros, para muita pena minha. I.C.

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