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Pelo Jardim das Divindades [passos em volta]

Stephanie Lai

Ruas e travessas com nomes interessantes estão omnipresentes em todas as vielas estreitas que ficam atrás da Rua Norte do Patane, no Porto Interior. São nomes que facilmente conseguem trazer à memória das gentes da terra os mercados do peixe, os carpinteiros ou as lojas de ferragem dos tempos antigos deste território. Digamos que se alguém entrar por alguma destas ruelas, como a Travessa da Escama, e conseguir ver os baixos prédios residenciais ou as casas de estilo chinês, a energia da atmosfera dos anos 1950 e 1960, que circula em forte contraste com esta cidade à Las Vegas, ainda pode ser fortemente sentida.

É, de certo modo, surrealista. Estas travessas estreitas e sossegadas surgem-me como uma secção fora de tempo, que é pisada por pessoas mais velhas e, por vezes, por ocasionais devotos que sobem as escadas do Beco da Colher rumo ao altar do Jardim das Divindades (眾聖園).

Para os que estão angustiados com problemas de dinheiro, amor, sorte, estudos, trabalho ou qualquer outra coisa que faça os seres humanos sofrer ou ambicionar, as Divindades estão lá, sentadas atrás do fumo das espirais de incenso para ouvir os males e os desejos seculares. O que me causa espanto neste jardim é o facto de as pessoas adorarem também as famosas personagens do clássico romance chinês “Jornada ao Oeste”: protegidos por um armário de vidro estão o monge budista Xuanzang e os seus três guardiões, Sun Wukong (o Rei Macaco), Zhu Bajie (o Porco Monstro) e o ogre do rio, Sha Wujing (também conhecido por Sandy).

Mas que altar este, penso. Ao lado do armário de vidro com estes heróis da “Jornada ao Oeste” está uma estátua de bronze do Rei Macaco, que olha em direcção à Rua Norte do Patane. O que pedir ao Rei Macaco? Os seus incríveis truques de magia para fazer milagres em tempos difíceis? Ou a habilidade de voar directo a uma nuvem à velocidade da luz? E o que venerar e pedir a um Porco Monstro?

Enquanto olho para o Rei Macaco, vejo um pai e um filho em adoração no altar, pedindo bênçãos para os estudos da criança. Prestar culto para ter, pelo menos, uma sensação de segurança – esta ideia fez com que não conseguisse estabelecer uma afinidade com aquele tempo. Até certo ponto, o modo de adoração é como fazer uma transacção: oferece-se dinheiro e incenso, e, em troca, sentimo-nos seguros.

De todo o modo, aqui estão elas: as divindades sentadas em paz. Colocar Budas, Bodhisattva, o Deus da Fortuna, o Deus do Casamento e os deuses da ficção todos no mesmo local faz, pelo menos, com que rezar se torne mais conveniente para as pessoas.

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