Uncategorized

Sem falsos pudores

Isabel Castro

“É a primeira vez que estamos num hotel, é a primeira vez que estamos a dormir num quarto de hotel e também a primeira vez que estamos a dormir no mesmo quarto.” (p. 75) Rui, miúdo nascido em África, a primeira vez na metrópole. Rui, filho de Mário, homem que se rege pelo livro da vida, e de Glória, mulher frágil, de “cabeça fraca”. Rui, irmão de Milucha, às vezes Maria de Lurdes, mais velha e tão rapariga. Rui, tão rapaz nas descobertas, a pensar que as raparigas da metrópole põem cerejas nas orelhas a fazerem de brincos. Pois bem, não põem.

A metrópole de Rui tem a forma inicial do quarto 315. “O porteiro que nos ajudou a trazer as malas disse que tivemos sorte, é um quarto com varanda virada para o mar. Também nunca dormimos tão perto do mar.” A metrópole do Rui tem uma etiqueta para as pessoas como o Rui: “Agora somos retornados. Não sabemos bem o que é ser retornado mas nós somos isso. Nós e todos os que estão a chegar de lá.” (p.77).

Rui não tardará a descobrir o que significa ser retornado. Mais de um ano passado num hotel – que foi de luxo mas se transformou num caos de quartos a abarrotar, de filas para o almoço, de filas para o jantar –, vestido com as roupas que lhe dão e que não lhe assentam bem, mas que protegem do frio da metrópole, muito pior que o cacimbo. Rui, “Sundu ia maié, sundu ia maié, puta que a pariu”. “Vou dar pontapés em todas as portas até chegar ao pátio do recreio, a puta da professora mandou-me para a rua com uma falta a vermelho mas eu vingo-me, quero lá saber que as contínuas refilem, ó menino isto aqui não é a selva, não é como lá de onde vens, aqui há regras” (p.139). Rui sem sítio, “A puta de matemática pôs os retornados na fila mais afastada das janelas, nos lugares com menos luz, deve pensar que somos como as rosas da mãe que murchavam se não lhes dava sol, deve ser isso.” (p.141). Rui sem identidade, “Um dos retornados que responda, a puta nunca diz os nossos nomes, um dos retornados que responda, era o que faltava, nunca abro a boca”. Rui sem terra.

São tempos de falta de chão, de tectos improvisados, de não se saber o que fazer, sobretudo quando se é adolescente. A família de Rui não foi inteira para a metrópole. E nada foi como se tinha imaginado, mas Mário também não tinha imaginado que um dia teria de deixar a casa e os camiões na terra onde se fez homem. Nem Glória, a da “cabeça fraca”, imaginou que deixaria o enxoval na terra onde se juntou a Mário, o pai dos seus dois filhos. Rui imaginou outras coisas e começou a pensar nelas quando os amigos começaram a ir embora, mas Rui ainda podia imaginar tudo. Imaginava mais as Américas que a metrópole, cinzenta e sombria. A metrópole dos retornados.

“O Retorno” é uma impressionante viagem a um passado que não vai assim tão longe, um passado comum a muitos portugueses que, de um lado ou de outro, estiveram no regresso de quem viveu na África descolonizada. Dulce Maria Cardoso conhece bem o tema – também ela retornou – mas o livro não é a história pessoal da autora. É a história de Rui, que poderia chamar-se Manel ou António, mas que para o efeito se chama Rui. É ficção conjugada com o que aconteceu, numa tentativa muito bem conseguida de dar uma outra perspectiva ao que foi o fenómeno do fim e reinício: neste “O Retorno”, quem ganhou e quem perdeu pouco ou nada interessa, quem estava certo ou errado é pormenor dispensável. O Rui não pensa assim, não coloca a vida nesses moldes. O Rui não tem falsos pudores.

Ainda a leitura não chegou a meio e já sabemos como é o Rui, na sua imprevisibilidade de adolescente. Conhecemos-lhe a cara, o corpo, as inquietações. Imaginamos o espaço, o quarto 315, o terraço do hotel. Os cigarros que fuma têm um cheiro que sai das páginas do livro. As camisolas com borboto também, cheiram a um corpo que não é o do Rui.

Dulce Maria Cardoso puxa o leitor para dentro das páginas e depois é só escolher o que se quer ser, onde se quer estar, se se quer pensar ou não. É que “O Retorno” não é só a história de um miúdo – é a de um passado que anda por aí, em vidas desencontradas, também noutras terras adoptadas, em vidas refeitas. Quanto ao Rui, sem chão, tem muito nome. E fica cá dentro.

O Retorno

Dulce Maria Cardoso, 2011

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s