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“Temos esta dificuldade de nos pensarmos”

O que aconteceu com o processo de descolonização é exemplo de um Portugal que esconde as dores sem as resolver. Limpo de ideologias, sem lições moralistas, “O Retorno” de Dulce Maria Cardoso é a história de um rapaz contada por uma mulher que também retornou. E que por ter escrito acabou por desarrumar memórias.

Isabel Castro

– Foi fácil voltar à adolescência para ser o Rui, o miúdo que narra a história da família forçada a sair de Angola?

Dulce Maria Cardoso – Não, não foi fácil. Ganhar o tom de um rapaz adolescente foi, aliás, o mais difícil do livro. Ao princípio, queria, por razões dramáticas, um rapaz – e adolescente –, porque acho que há um paralelismo entre um país em convulsão (quer Angola na guerra civil, quer Portugal no período revolucionário) com a adolescência, sendo aquela fase conturbada nas nossas vidas. Queria um adolescente, mas depois foi muito complicado arranjar aquele tom, ao mesmo tempo ingénuo e confiante, porque estava muito distante disso. E também nunca fui rapaz. Apesar de tudo, o género na adolescência faz muita diferença, até pelas questões sexuais, especialmente porque me estava a reportar a 1975, quando ainda fazia mais diferença. Foi complicado.

– Questões de género à parte, de todos os seus livros, “O Retorno” é aquele que contém uma maior carga autobiográfica.

D.M.C. – É aquele em que os factos históricos coincidem mais com os meus. Nesse sentido, poderá ser. Mas nós não somos só História… Todos os livros são autobiográficos, nem que mais não seja pelos assuntos que escolhemos, pelas personagens que criamos e que temos de viver, até para soarem verdadeiras ao leitor. Temos de as vestir de tal maneira, e dar-lhes carne e sangue e pele e tudo para que o leitor acredite nelas. Portanto, acho que os livros são todos autobiográficos, neste os factos históricos coincidem mais. Mas também foi neste que eu mais me vigiei para estar separada. Diria que no processo meramente criativo foi tudo semelhante e que, mesmo em relação aos detalhes e acontecimentos históricos, vigiei-me mais. Se calhar, até me afastei mais.

– Eduardo Pitta escreveu, acerca deste seu novo livro, que “o alto conseguimento literário da autora resgata o romance da sobrecarga ideológica”. Escolher para narrador um miúdo ajudou-a a evitar essa sobrecarga ideológica que as obras sobre o processo de descolonização facilmente podem ter?

D.M.C. – O Eduardo Pitta foi o único crítico, creio, que referiu a tal sobrecarga ideológica. Por exemplo, o Pedro Mexia diz ‘sem ideologia’ e há muitos blogues que falam sobre o livro como estando ‘livre de gorduras ideológicas’. Não foi por isso que escolhi o rapaz – foi por ter conhecido um rapaz com uma história trágica e por querer falar do género. E adolescente, como disse, pelo tal período turbulento nas nossas vidas que também é a adolescência. Não foi por cobardia, no sentido de não querer tomar partido – seria, evidentemente, outro projecto, mas não seria isso que me impediria. Não acho que o livro tenha sobrecarga ideológica.

– Mas um adulto obrigá-la-ia, de alguma maneira, a tomar uma posição. Em muitos dos livros sobre o processo de descolonização, alguns deles autobiográficos, é tomada uma posição.

D.M.C. – E também tomam a posição do bem e do mal, de uma maneira extremada. Tenho dito várias vezes que não houve bem e mal: foi havendo bem e mal à vez. Não houve culpados e inocentes: foi havendo culpados e inocentes à vez. Ou seja, nada correu assim tão mal, nem nada correu assim tão bem. Assim não se consegue chegar a conclusão alguma porque parece tudo uma coisa mais ou menos. Mas a verdade é que foi assim, e temos de olhar assim para o que aconteceu. Aconteceram coisas muito terríveis, mas também aconteceram coisas muito boas no período todo – refiro-me ao geral, à revolução com a descolonização, porque estão ligadas. Em relação ao livro, tentei, mesmo no grupo dos retornados, que cada um deles tivesse um ponto de vista. Tentei mostrar todos os pontos de vista. E o Rui nunca se decide por nenhum, vai ouvindo todos. Aliás, dá mais relevância a questões afectivas do que propriamente políticas. Essa foi uma preocupação. Quanto ao não tomar posição, fazendo como eu fiz, não era obrigada – e isso também era uma vantagem para dar todos os pontos de vista ao leitor, e o leitor que tome posição. Acredito sempre que um livro sem ser lido é como se o acto criativo não estivesse completo. Uma leitura sem interpretação é a mesma coisa: o leitor tem plena liberdade para escolher o lado e a posição que quer.

– Arrisca desde logo pelo título. O conceito de retornado encerra uma carga negativa. A escolha do título é, de algum modo, um ‘statement’, uma declaração de intenções?

D.M.C. – Primeiro, acho que “O Retorno” é um título muito bonito em termos meramente linguísticos, sem mais. Depois, tem evidentemente essa carga negativa, mas a melhor maneira de nos livrarmos dos estigmas – apesar de tudo, o retornado hoje já não é um estigma, é quanto muito um rótulo – é vulgarizar. Se ouvirmos muito uma palavra, a palavra deixa de ter importância. E se ouvirmos a palavra noutro contexto, ainda tem menos importância. Achei que usar a palavra ‘retornado’ associada a uma obra – em que quis fazer o melhor possível e em que achei que poderia devolver alguma dignidade às pessoas que tiveram de viver aqueles acontecimentos – era uma maneira de vulgarizar, de dar outro sentido. De alguma forma, pelas mensagens que recebo, esse objectivo terá sido cumprido. Há pessoas que tinham vergonha de dizer que tinham estado em quartos de hotel e que agora já não têm tanta ou já não têm de todo. E pessoas que se sentem mais à vontade para conversar sobre isso.

– Mas ainda é um assunto que pesa. Sente que ainda é uma sombra em Portugal?

M.D.C. – Sim, mas evidentemente que não à escala do que acontecia na altura. Noventa por cento dos comentários que recebo são muito favoráveis, mas tenho dez por cento de comentários odiosos, a dizer ‘colonialista, vai para a tua terra, andaste lá a explorar’, ou seja, o que se ouvia há quase 40 anos. Isso ainda está presente, mas é já uma minoria minoria-minoria, quando em 1975 era, se calhar, o pensamento maioritário. Essa é a grande diferença. Mas ainda existe e nas situações privadas, quando alguém diz que ‘esta casa está toda estragada, estiveram aqui retornados’. Quando noto que existe mais é nas situações em que as pessoas dizem alguma coisa menos boa acerca de retornados e eu digo que também sou retornada. Então elas dizem ‘ah, não parece nada’. Há qualquer coisa em mim que lhes faz dizer ‘não parece nada’.

– Será preciso um afastamento histórico maior para que algumas feridas fechem e os preconceitos se resolvam? Ou o debate, a crítica, a escrita devem acelerar esse processo?

D.M.C. – O tempo é necessário, mas o tempo que passou já é, por si só, suficiente. O que acontece é que é preciso falar sobre isso, é preciso debater, vulgarizar. É preciso que os lados deixem de ser lados e se fale de uma forma racional, sobretudo do que aconteceu, guardando a parte emocional que cada um tem e carrega. Também é muito engraçado perceber como é que os retornados aceitam o livro, consoante são mais diferenciados ou não, consoante se sentem mais retratados ou não. Porque também eram um grupo com muitos lados, e há retornados que não gostam de se ver retratados como eu retratei os retornados. Ainda é um assunto complexo, mas com tempo e diálogo (e haverá com certeza mais pessoas a trabalhar este tema, cada vez há mais), normalizará. Ou então não, porque nós temos esta dificuldade de nos pensarmos. Mas sou optimista e penso que vai correr bem.

– Li que este foi o livro que a levou a ser escritora. Mas aconteceram outros romances antes dele, porque precisava de encontrar uma proposta de reflexão. Que proposta é esta?

D.M.C. – Os criadores, neste caso os autores, têm responsabilidade, ou seja, a estética tem de estar ao serviço da ética na criação. Sabia que era um tema muito apelativo, porque tinha causado sofrimento a muitas pessoas. Portanto, qualquer autor consegue facilmente com este tema emocionar os outros. Só que emocionar os outros pela exposição do sofrimento, sem mais, é parecido com o abrandar na estrada quando se vê um acidente. Isso é humano, mas não é muito digno. Não queria fazer o mesmo. Estive muitos anos à espera de encontrar a forma de pegar neste assunto – não em termos técnicos, era o que podia acrescentar a isto, a este sofrimento. E foi só quando comecei a pensar que poderia ser um romance sobre a perda, e das etapas todas que uma perda tem, que achei que poderia fazer sentido. Este romance é sobre os factos históricos que estão descritos, mas para mim é acima de tudo um romance sobre a perda nas suas etapas: a antecipação da perda, o não se viver a perda por antecipação, a perda efectiva, depois o período de negação, o período que é necessário para se tomar a decisão de lidar com a perda, o exorcizar o passado que, de alguma maneira, nos puxa para vivermos essa perda, para ficarmos parados nela, e depois o recomeço. Para mim, o livro tem essas etapas todas e por isso é que digo que é um livro sobre a perda, mas acima de tudo é um livro sobre recomeçar. E é um livro que, ironicamente, se tornou muito actual, no sentido em que Portugal está outra vez em fim de ciclo, neste caso, no fim do sonho europeu. Quando foi o retorno, era o fim do império, um ciclo de cinco séculos; agora estamos no fim desta coisa europeia que ninguém percebe muito bem onde vai dar. Não foi propositado, mas a verdade é que aconteceu esta coincidência perversa e estamos outra vez a ter de recomeçar.

– O livro tem sido muito bem acolhido pela crítica – e há quem diga que poderá finalmente significar o reconhecimento que merece em Portugal, uma vez que começou por ter mais sucesso no estrangeiro do que no país onde nasceu. Concorda com esta análise?

D.M.C. – Concordo e não concordo. Também tive prémios portugueses. Alguém teve de acreditar no meu trabalho para me dar os prémios. Por exemplo, “O Chão dos Pardais” teve o Pen, o “Campo de Sangue” teve o Prémio Acontece. Tive a bolsa de criação literária [do Ministério da Cultura], tive prémios de contos. E a verdade é que os meus livros não tinham esta atenção mediática, mas tiveram sempre muito boa crítica.

– A escolha do tema poderá ter ajudado, na medida em que é comum a muita gente?

D.M.C. – Acho que foi um todo. Não se pode identificar a causa, não haverá uma causa maior do que as outras. O facto de os livros terem sido muito bem recebidos lá fora e o prémio da União Europeia ajudaram a ter mais atenção sobre mim. O facto de ter mudado para a Tinta da China, sair de um grande grupo para uma média editora independente, também chamou a atenção, porque costuma acontecer o inverso. E o tema. Foi uma conjugação. E depois o próprio livro, que tem funcionado muito com o passa palavra. Claro que fico muito honrada e contente com o sucesso crítico, mas acima de tudo com os blogues dos anónimos que falam sobre o livro, e isso é mérito do livro. Acho que é fácil criar uma empatia com o Rui, justamente porque ele é adolescente, porque está nas circunstâncias em que está. E depois também não é só o período – as pessoas estavam muito curiosas sobre os hotéis, porque toda a gente tem memória dos hotéis ocupados, mas ninguém sabe o que lá se passava. De repente, está ali um livro sobre os hotéis. Isto talvez seja o que torna o livro mais especial, ser sobre aquele purgatório, aquele limbo, porque normalmente nos outros livros há um antes e um depois, e há um espaço geográfico alargado. Estou a lembrar-me dos livros do Lobo Antunes, da Lídia Jorge, da Aida Gomes, que escreveu “Os Pretos de Pousaflores”, da Isabella Figueiredo. Este é muito claustrofóbico, porque não sai do hotel.

– Afeiçoou-se ao Rui?

D.M.C. – Sim (risos). Não há personagem de que não goste. Mesmo das mais odiosas eu gosto. Tenho de estar com elas muito tempo, portanto acabo naturalmente por me afeiçoar a elas. O Rui foi talvez a única personagem que tive pena que não existisse de verdade, para eu poder falar com ele sem ter de o escrever. Só falava com ele quando o escrevia, o que se torna cansativo. E gostaria de ter falado com o Rui normalmente, como se fosse uma pessoa real.

– Sei que a escolha do tema não teve na origem uma necessidade terapêutica. Mas com este livro África está cada vez mais longe ou houve uma aproximação, até pela necessidade formal de tornar as suas personagens reais, através de características de linguagem?

D.M.C. – Essa pergunta é muito difícil de responder. África em mim é muito apelativa. Acho que em mim e em quase toda a gente, especialmente os portugueses, porque África é aquele continente que me parece por definição o sítio onde nós todos fomos crianças, por causa das cores saturadas, dos espaços grandes. É mais parecida com a infância. Para mim, que tive mesmo a infância lá, é muito apelativo. Depois, Angola – e, infelizmente, quase todo o continente – é também o país da grande desigualdade social, da pobreza, da corrupção, dos abusos, de tudo o que é mau, do pior que a Humanidade tem. Isso anula o apelo que África tem em mim. Quanto à minha relação com África, não me sinto mais próxima porque o que escrevi sempre esteve na minha cabeça – não foi por eu ter escrito que ou foi embora ou ficou. O que me acontece é que o meu passado está agora mais desarrumado por causa de ter escrito o livro. Em vez de arrumado, como acho que acontece com as terapias, está desarrumado, porque, de alguma maneira, fui guardando as memórias todas, fui decorando – decorei para não me esquecer e porque foi traumático para mim vir viver para Portugal. Mas depois, ao longo dos anos, fui decorando, no sentido de decoração das casas, fui arrumando as memórias da maneira que me era mais confortável e da maneira que me fizessem sofrer menos. Ao escrever, tive de desarrumar e de pensar em muita coisa que nunca mais tinha pensado. Portanto, ficou tudo mais solto, ficou tudo mais esquisito. E agora tenho de arrumar tudo outra vez para continuar. Até porque há uma coisa muito engraçada: na sequência deste livro, entraram em contacto comigo imensas pessoas de Angola que conheci em criança e que nunca mais tinha visto.

– É um despertar de outras memórias.

D.M.C. – Exactamente. Uma das coisas que digo acerca de não querer ir a Angola, independentemente do regime, é não estar interessada em picos emocionais. Visitar os restos físicos do passado seria para mim muito complicado. Mas, na verdade, chegarem até mim pessoas com quem nunca mais falei desde 1975 também não deixa de ser, em termos emocionais, perturbador. Tenho de lidar agora com isto tudo e arrumar, sendo certo que também tenho mais coisas a dizer sobre o tema, o que nem sequer será agora nesta fase. Vou escrever sobre outras coisas. Depois de “O Chão dos Pardais”, o livro que anunciei foi “O Amante Americano”, que é contado pela Milucha, na actualidade.

– A irmã do Rui.

D.M.C. – Sim. A Milucha é a personagem principal, como agora é o Rui. E o Rui é a secundária, como agora é a Milucha. Muitas pessoas perguntam-me o que é que aconteceu à família e eu sei o que lhe aconteceu – já escrevi e até antes. Na verdade, o que fiz foi dar o passado à família.

– Em que ponto se encontra “O Amante Americano”?

D.M.C. – Escrevi grande parte quando estive nos Estados Unidos e depois cá [Portugal], mas não fiquei contente com o fim e com algumas partes que não consegui resolver. Passei para “O Retorno”, para dar o passado àquela família, e agora vou voltar a “O Amante Americano”, mas não sei quando o publicarei. Em princípio será o próximo, mas não é sobre retornados – é sobre o que penso que aconteceu a todas as famílias, os acontecimentos cá [em Portugal] tornaram-se mais importantes do que em “O Retorno”, à medida que o tempo foi passando. Agora, há um gueto de retornados que nunca se integrou e isso também é verdade. E sobre esses, que felizmente são uma minoria, penso também um dia escrever, mas não sei quando.

– Já aqui falámos da mudança para a Tinta da China, depois de “O Chão dos Pardais”. Está numa editora mais pequena. O que é que mudou nestes últimos dois anos? Sente-se hoje uma escritora diferente?

D.M.C. – Nós vamos sempre mudando. A Tinta da China, na verdade, é a primeira editora que escolho, porque fui para a Asa por causa do prémio que tinha a publicação. Depois a Asa foi comprada pela LeYa. Fui ficando. Depois tive de sair e aí tive de escolher – a escolha recaiu sobre a Tinta da China, pelos aspectos gráficos, pelo catálogo irrepreensível e por tudo aquilo que é, acima de tudo por pensar que há semelhança entre o que achava do meu projecto literário e o que a Tinta da China acha da edição. Penso que são projectos muito parecidos com uma frase de um filme de que gosto particularmente (da frase, não do filme), o “Campo de Sonhos”, em que ele diz “If you build it, they will come”, aquela voz que ele ouve quando está a construir o campo no meio de nada. Fui para a literatura com essa postura e é difícil num grupo encontrar esse espírito. Porque é o contrário: não é “If you build it, they will come”, é vender livros como outra coisa qualquer. Não há este tempo de espera. Os leitores são muito difíceis de ganhar, ganham-se um a um. E esta lógica empresarial mata essa ideia – a ideia é ganhar os leitores todos de seguida, perder os leitores todos, depois transferi-los para outro lado. É como se estivéssemos a anunciar iogurtes. Só que a literatura não é isso, não pode ser tratada assim. Encontrei na Tinta da China a minha editora natural. Tem sido um casamento muito feliz e estou muito contente. E isso vai-me mudando, que a felicidade muda as pessoas para melhor. Uma pessoa mais feliz à partida é mais produtiva. Nisso sim, estou diferente. Posso não contar com o dinheiro do marketing e com o que um grupo poderá assegurar, mas conto com esta ideia de que está a ser feito tudo o que é possível pelo livro, com o mesmo entusiasmo ou ainda maior do que o meu. Não há campanha que compense isso.

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