Uncategorized

Fita sem mau

Isabel Castro

“Big Ears” tem oito anos e, quando crescer, quer ser astronauta. Este desejo data do final dos anos 60 e, enquanto não se concretiza, vai acontecendo por via de um aquário redondo que enfia na cabeça. O objecto de vidro faz parte da sua pequena fortuna – um espólio que resulta dos pequenos furtos que faz, traquinas como é, nos mais variados sítios. No dia em que roubou o aquário, levou para casa uma pequena tartaruga que se foi juntar ao conjunto de peixes domésticos, pertença partilhada com o irmão.

“Echoes of the Rainbow” é um filme sobre Hong Kong, filmado em Hong Kong, numa Hong Kong ainda sobre domínio britânico de há umas boas décadas mas que, em vários aspectos, tem tudo que ver com a cidade que hoje conhecemos. É uma cidade confusa, conturbada, de grandes diferenças sociais. “Big Ears” faz parte dos que vivem com os dólares contados.

O filme começa em registo de comédia, através dos olhos do miúdo que vê o mundo com o aquário enfiado na cabeça. É assim que nos apresenta a família: a avó saiu de Cantão com o pai e o tio, que ocuparam a Wing Lee Street. O tio instalou-se numa ponta da rua e ali fez a sua barbearia. O pai tem uma oficina onde faz sapatos, no extremo oposto da artéria. Figura que obedece à imagem típica do cantonense pai de família, Mr. Law vive no sofrimento de querer uma vida melhor que a dele para os seus descendentes. Homem áspero, de mãos calejadas do trabalho, mais não conseguiu que dar um tecto (nem sempre seguro) aos dois filhos.

O nosso pequeno anfitrião tem um irmão mais velho que desempenha a função de ídolo: Desmond, 16 anos, é o bom aluno, o bom atleta, o bom companheiro e o bom rapaz pelo qual as raparigas se apaixonam. Ele não se apaixona por todas – só por Flora, com quem partilha o encanto pelos peixes. É um amor casto e marcado pela diferença do tamanho dos aquários: Flora vive no Peak e no dia em que Desmond se aventura colina acima surge um novo mundo – o da diferença que existe entre os dois.

Do registo de comédia inicial (com mãe, pai e vizinhos que podiam fazer parte de uma novela de Hong Kong), o realizador Alex Law evolui para um registo dramático. O salto é surpreendente – ninguém estaria à espera da intensidade que, de um momento para o outro, a narrativa adquire, mas que é brutal, de tanto drama que se imprime àquele quotidiano familiar feito de pequenas vitórias, pequenas amarguras, jantares no meio da rua partilhados entre vizinhos, com quem também se dividem os bons momentos e aqueles que nem por isso.

Embora continue a ser pela perspectiva de “Big Ears” que a história nos é contada, o miúdo espevitado, birrento por vezes, deixa de ser o protagonista, para a acção se virar para Desmond, o calmo e inteligente adolescente que protege o irmão mais novo. E que um dia deixa de poder ter esse papel.

“Echoes of the Rainbow” podia ser um bom filme: é bem filmado, tem ritmo, uma bela fotografia e uma história que valia a pena ser contada. Mas não é. Alex Law falha no casting – em termos gerais, “Big Ears” (Buzz Chung), Desmond (Aarif Rahman) e o pai (Simon Yam) são as excepções – ao escolher actores que, chamados a desempenhar momentos de sofrimento, não são capazes de se afastar do lado cómico que o filme começa por ter.

Law falha ainda no jogo que tenta fazer entre drama e comédia, dois géneros que requerem mestria para serem conjugados. E esta falha resulta na dificuldade em acharmos que o que ali está é verdade – são raros os momentos em que não nos lembramos de que estamos a ver um filme.

A obra de Alex Law mereceu uns quantos prémios no 29º Festival de Cinema de Hong Kong e uma distinção na 60ª edição do Festival de Berlim, dada pelo público mais novo. Foi ainda amplamente elogiado no Continente, com o China Daily a inclui-lo na lista dos dez melhores filmes de 2010.

Posto isto, vale a pena ver estes 117 minutos de cinema? Vale, vale sempre. Sendo certo que Alex Law podia ter ido mais longe (o controlo de certas emoções, quando se pede às pedras da calçada que chorem, bastaria para que passasse para outro nível), não deixa de ser um filme sobre uma realidade que nos é próxima. Mesmo com excessos, “Echoes of the Rainbow” não deixa de ser um exemplo de um certo cinema que se faz por aqui. E teve o mérito de ajudar a salvar parte do património de Hong Kong, ao sensibilizar para o lado histórico da cidade. Mas falta um mau à história, daqueles que são mesmo maus (o polícia gweilo que cobra a renda à família Law não chega a ser suficientemente mau). E, já agora, a música podia ser outra.

 

Echoes of the Rainbow

Alex Law, 2010

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s