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De Rachel pouco reza a história

Inês Santinhos Gonçalves

 

Se há tema consensual no cinema e na literatura é o das famílias disfuncionais. Afinal, quem não tem uma? Irmãos, pais, tios, primos, todos contribuem para uma insanidade colectiva que afecta a Humanidade em geral.

É a apelar a esse universo próximo que “Rachel Getting Married” se apresenta: a mais nova da família, problemática, alcoólica, regressa a casa por um fim-de-semana para o casamento da irmã. Até aí tudo bem. Sejamos sinceros, até aí, tudo um pouco aborrecido.

Em 2009, Anne Hathaway, que interpreta a personagem principal, foi nomeada para o Óscar de Melhor Actriz, mas já se adivinhava que não seria vencedora – concorria com Kate Winslet no filme “The Reader”. No entanto, a prestação de Hathaway, que aqui se apresenta como “Shiva, the destroyer”, não é de ignorar.

A coisa mais curiosa de “Rachel Getting Married” é que o filme não é sobre Rachel nem sobre o seu casamento. Eles estão lá, sim, mas quem ocupa o ecrã em toda a sua extensão é Kym, a irmã.

Há qualquer coisa estranha em Hathaway que combina com Kym. Aqueles olhos gigantes e negros, a boca desproporcional, a pele muito clara. É bonita? Não é bonita? O constante mudar de opinião ajuda ao tom do filme: gostamos ou não de Kym? Por um lado, não é de admirar que não tenha paciência para aquela família eternamente compreensiva, carinhosa, protectora, tolerante, correcta. Por outro, ora essa, que mimada egoísta hostiliza aquela família eternamente compreensiva, carinhosa, protectora, tolerante, correcta?

Jonathan Demme protege o filme da banalidade do alcoólico-que-é-o-fardo-da-família-mas-que-no-fundo-toda-a-gente-adora ao utilizar um estilo que, apesar de não ser único, é bastante original. Demme, que realizou “The Silence of the Lambs”, dá bom nome ao liberalismo de Hollywood. Em “Rachel Getting Married”, o realizador projecta uma imagem utópica de uma América difícil de encontrar. Além de Rachel estar noiva de um afro-americano, músico e de família religiosa, todo o casamento integra uma misturada de ingredientes étnicos que, ou são encarados como ‘snobice’ esquerdista, ou se aceitam com o mesmo carinho que demonstramos quando vemos uma criança vestida de rosa-choque, plumas, rendas e brilhantes – fica-lhe mal, mas até é querido.

O casamento de Rachel tem tudo: a noiva e as damas de honor vestem saris indianos, o noivo canta à capela, há meninas a dançar samba, marcha nupcial alternativa, danças tradicionais de países exóticos, uma tenda no jardim e uma série de roupa que não se percebe bem de onde vem. Apesar de entrar pelo ecrã adentro, este multiculturalismo exacerbado nunca é referido e não tem qualquer interferência no desenrolar da história.

Na véspera da cerimónia os convidados juntam-se para o ensaio. Testam-se brindes, bandas e valsas. Os diálogos são longos de mais, os solos de guitarra também, um pouco como num filme de casamento caseiro. Numa situação normal as cenas seriam cortadas e montadas à medida mas, desta forma, claramente intencional, dá-se um certo toque europeu ao filme. Um charminho que cai bem, para cortar o típico melodrama da irmã incompreendida e revoltada que pertence a uma família que carrega um trágico segredo.

No final, Rachel casa e Kym volta para clínica de reabilitação. A tocar por uns bons minutos fica a banda sonora, um dos pontos mais positivos do filme.

 

Rachel Getting Married

Jonathan Demme, 2008

 

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