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A morte do cupido

Inês Santinhos Gonçalves

Que a rotina é assassina da paixão, já todos sabemos. Mas não nos filmes. Caramba, não nos filmes. Ryan Gosling e Michelle Williams são os dois tão bonitos, tão jovens, tão frescos, tão adoravelmente apaixonados nas personagens de Dean e Cindy, e depois é o que se vê.

A coisa começa bem, como sempre. A história de amor enternece e acaba com ela grávida e com um casamento em cima do joelho, mas ainda assim romântico. Os dois conhecem-se nos primeiros anos da Administração Bush e a história termina com a chegada de Obama, mas a política é irrelevante para o caso. Quando o país respirava esperança e era tudo “Yes, we can”, o casal vivia o fim do sonho.

Passados seis anos do início de tudo, Frankie, a filha, já corre pelo jardim. Dean está quase careca e quase alcoólico, e Cindy abusa da bata de enfermeira e já não usa soltos os longos cabelos loiros. Entre o casal há aquela tensão insuportável de ‘já não te posso ver à frente e nem sei bem explicar porquê’. Ela irrita-se com a falta de ambição do marido, ele entristece-se com a ausência de espírito de fada do lar.

“Blue Valentine” fala da inevitabilidade do fim das relações. Não acontece nada, não há tragédia, morte ou traição. Apenas a vida a corroer, a desgastar. O tempo que pesa no corpo, um dia belo, agora banal.

Tanto Williams como Gosling oferecem excelentes interpretações. A actriz pela forma contida como faz mover a personagem – Cindy é tão reservada no seu modo de estar que ficamos sinceramente surpreendidos com algumas revelações e reacções, o que é raro acontecer nos filmes. Um exemplo é quando, questionada pelo médico, conta com quantos anos iniciou a vida sexual e quantos parceiros já teve. Bem mais tarde, num momento de desespero, o grito “I am so out of love with you!”, que não pretende ser uma ofensa, mas uma confissão, deixa o espectador desarmado.

Williams encarna uma Cindy que constantemente rejeita o marido, que não suporta a aproximação, que mexe o corpo todo de forma a fugir ao seu abraço desconfortável. Aquela repulsa muda, ainda por cima por um marido desesperado por agradar, é tão real, tão real, que facilmente a relacionamos com gente que conhecemos.

O papel em “Blue Valentine” valeu a Michelle Williams uma nomeação para o Oscar de Melhor Actriz, mas Ryan Gosling não teve a mesma sorte. O que é de uma imensa injustiça – é soberba a interpretação que faz de Dean, um homem que rasteja aos pés de uma mulher que já nem tem a certeza de amar. A crença quase infantil na força da família, nos votos do casamento, no amor, é enternecedora mas também revoltante.

Dean faz de Cindy a má da fita mas nós sabemos que não é. A culpa ali não é de ninguém. Mas é ela, a culpa, a verdadeira personagem principal de “Blue Valentine”, uma presença constante, sem corpo, que enche cada minuto do filme.

Como última cartada para salvar o casamento falhado, Dean leva Cindy para um motel barato – aquele que o seu salário como empregado de uma empresa de mudanças consegue pagar. A ideia era o casal ter uma noite a sós, uns momentos de intimidade sem interrupção, mas a coisa corre mal, tão mal. No entanto, nem aí Dean deixa de ser um esperançoso crónico. De uma lista de excêntricos (e duvidosos) quartos temáticos, escolhe aquele que lhe parece mais auspicioso: o Future Room.

 

Blue Valentine

Derek Cianfrance, 2010

 

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