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“Macau podia ser uma cidade de futuro”

Na cultura também. Konstantin Bessmertny defende para a terra onde vive há 20 anos a organização de festivais e exposições com o melhor que há no mundo. Ficar dependente da prata da casa não é a melhor solução.

Isabel Castro

Diz que pinta para ele, porque lhe dá prazer. Nos últimos tempos, porque o mundo da arte é uma confusão, decidiu procurar saídas, que passam também pela necessidade de diversificar o que faz, para não cair na monotonia. “One of you will betray me” é uma destas experiências: a tecnologia serve a escultura, não percebemos como aquilo acontece, mas prendemos o olhar e somos surpreendidos. E o objectivo de Konstantin Bessmertny cumpre-se, como se cumpriu com os seres imaginários que inventou nos quadros que foi mostrando desde que cá chegou.

“One of you”, exposição que leva a Pequim, junta uma “escultura interactiva” a mais de duas dezenas de quadros. A exposição abre as portas ao público amanhã, na galeria da AFA na capital chinesa. Não são trabalhos para vermos por cá, pelo menos nos próximos tempos. E isto porque o artista plástico diz que é preciso ter cuidado com a exposição em excesso, num mundo artístico caótico e excessivo. Em Macau há coisas a mais, artistas e associações em demasia, mas também falta muito: Bessmertny afasta o discurso político que diz não querer ter, mas ainda assim não consegue deixar de lançar duas ou três sugestões para que a terra onde vive seja melhor.

– Leva a Pequim “One of you”. São novos quadros, mas não só. Há uma mão dourada com o dedo apontado que não é uma escultura.

Konstantin Bessmertny – “One of you will betray me” fez parte da minha exposição em Hong Kong, em Maio passado. Estou a tentar experimentar novas tecnologias. Utilizo um expositor, pequeno, daqueles que servem para mostrar objectos de luxo. A ideia seria – se se tornar mais barato – estar em quase a toda a parte. Gosto da ideia de surpreender, de perceber a reacção das pessoas, que estão habituadas a ver coisas bonitas. Neste caso, ficam à espera de ver o que acontece: primeiro vem a tempestade, aqueles sons, e depois a mensagem. Estou já a planear fazer uma com a figura do Napoleão, com fogo-de-artifício (risos).

– E porquê “One of You”?

K.B. – Retirei a parte final de “One of you will betray me” [a frase que se lê na peça], pelo que ficou “One of you”. Soa bem. “One of you” é sobre a escolha – há muitas interpretações para a mesma mensagem. Quanto a Pequim, a localização da galeria é bastante boa, um espaço pequeno mas muito bom, mesmo atrás de uma das melhores galerias do 798.

– Além desta peça, à qual chama escultura interactiva, mostra também uma série de novos quadros. Continuam a ter as personagens que são muito representativas do seu trabalho?

K.B. – Não concordo com o principal conceito que o século XX trouxe para a arte. É um caos total: ninguém sabe o que é bom, o que é mau, o que é arte, o que não é, todas as pessoas podem comprar câmaras, toda a gente se está a tornar artista. E isto está a ficar incómodo. Neste contexto, estamos todos à procura de uma saída – eu também. Não gosto de ser classificado. Os ‘ismos’ aconteceram com as teorias, o avant-garde foi a desculpa principal. Os artistas tentam ajustar-se a grupos, e os grupos querem ter uma teoria na arte que seja a melhor e a maior. Julgo que isto é um problema. Também a comercialização da arte trouxe aspectos que a estão a destruir completamente. A arte, de facto, não tem preço. É um luxo, por um lado, para que os ricos tenham uma vida menos miserável e, ao mesmo tempo, uma espécie de conversa com os deuses. É o que vemos quando olhamos para as obras de grandes artistas, não precisamos de uma explicação de que há qualquer coisa de espiritual. Mas a comercialização da arte trouxe este tipo de confusões e de divisões. Discordo do conceito do reconhecimento do artista pelo seu estilo. Vamos imaginar que fiz caras sorridentes – não as quero fazer para o resto da minha vida. Se alguém me catalogar como ‘o artista que faz coisas sobre jogo’, que é algo um pouco vendido, então paro. Gosto de parar e de começar algo novo. Neste caso, resulta também de uma pesquisa, de como encontrar uma saída. Ao mesmo tempo, também não quero ter uma vida aborrecida no estúdio, sempre a fazer as mesmas coisas, com as galerias a pedirem e as pessoas a exigirem. Gosto de as surpreender, de tempos a tempos.

– Mas é difícil fugir a uma imagem que se constrói enquanto artista. O universo que inventou, as suas personagens, serão exemplo disso.

K.B. – Sou melhor no óleo, eu sei. É a minha melhor técnica e é a minha favorita. Estou a tentar salvá-la da fotografia, do Photoshop, da arte processada, dos vídeos, de tudo isso, que acho um bocado amador. Toda a arte contemporânea passou a estar dividida… É como se eu estivesse a aprender piano clássico e de repente me tivessem dado uma guitarra eléctrica, e dito: ‘Agora sentes-te livre? Por favor expressa-te’. Todos os artistas contemporâneos estão a passar por isto, pela fase da guitarra eléctrica. Em vez de estarem a aprender piano clássico, estão a pôr bolas de pingue-pongue dentro do piano, carregam nas teclas e as bolas saltam. Claro que é emocionante, mas é entretenimento. Em relação à pergunta, gosto de brincar com diferentes níveis, gosto de passar tempo com pessoas que lêem livros, que são curiosas. Todos os meus trabalhos lhes são dedicados. Talvez só algumas delas consigam perceber o que se está ali a passar. E claro que todo o meu conhecimento está ali reflectido, qualquer que seja a técnica: óleo, vídeo, fotografia, instalação… Manifesta-se sempre através de algo que pode ser reconhecido, mas isso tem também que ver com a experiência, com a técnica, com as escolhas. Acho que é um elogio. Mesmo quando se passa para uma técnica completamente diferente e, ainda assim, é possível reconhecer o estilo, tudo isto acaba por ser mais acerca de filosofia, de significado, e não tanto da forma como se fez e do material que se usou.

– A pintura, neste momento, ocupa que espaço do seu trabalho?    

K.B. – Estou a tentar pintar o máximo que posso. Digamos que 80 por cento do que faço é pintar e 20 por cento é experimentar outras coisas. Não se pode tocar o mesmo compositor sempre. Um pianista, por melhor que seja, não pode continuar a tocar o mesmo repertório de há dez anos, tem de interpretar algo novo. Portanto, estou a tentar fazer novas interpretações.

– Tem um sentido muito apurado em relação à política. E junta a isto filosofia e história na sua arte. É o que dizem da sua obra. Concorda?

K.B. – Na realidade, não me interessa (risos). Não me interessa o que as pessoas dizem ou pensam – eu gosto de fazer isto desta forma. É tão simples quanto isto. Quando estou no estúdio, concentro-me em fazer o que faço para mim. Mesmo em comissões, só as aceito quando consigo encontrar uma forma de retirar prazer. Gosto que os meus trabalhos sejam assim: tenho interesse em adicionar coisas mais complicadas, estranhas, ou elementos contemporâneos que, em simultâneo, são surrealistas ou lá o que se queira chamar-lhes. É de propósito, para o meu próprio prazer.

– As suas obras estiveram em Hong Kong durante este ano. Vai agora a Pequim. É bom sair de Macau?

K.B. – Macau é um sítio estranho. É pequeno, uma miniatura, mas um local onde acontecem coisas estranhas às quais se tem de dar resposta todos os dias. Inspira-me, é um sítio absurdo. É particularmente interessante, hoje em dia, ver o que está a acontecer. Mas para se ver Macau, tem de se fugir de cá de vez em quando. Aconselho todas as pessoas do Governo a viajar, a ver coisas aqui à volta, e depois a fazerem a comparação com Macau. Macau é o sítio com mais sorte na lista das prioridades económicas. Mas, começando pelo Governo e acabando na classe média, acho que as pessoas não entendem o potencial do que Macau pode fazer agora. Estou a falar de coisas muito pequenas e importantes em que Macau podia fazer mesmo a diferença. Um exemplo: só carros eléctricos, sem proprietários. Precisa de vir a Coloane? Pega num carro, trá-lo e ele fica aqui. Usa-se com um cartão. Macau é pequeno, há dinheiro suficiente para o desenvolvimento, podia ser uma cidade do futuro, com sustentabilidade. E na cultura também. Porque é que sítios parecidos a Macau, em termos de dimensão, conseguem ter grandes nomes convidados para festivais de arte e Macau continua a ser humilde? O público de Macau é melhor do que o de Pequim e que o de Xangai. Em Pequim, o público ainda passa o tempo de um concerto a falar e não se consegue ouvir a música. Não sabe quando bater palmas ou quando parar de bater. Em Macau, neste sentido, há um público mais educado. Macau pode ir buscar lá fora todos os melhores concertos e artistas do mundo, criar festivais de arte e de música com os melhores do mundo. Não tem de ficar atrás de Hong Kong, porque Hong Kong é mais caro do que Macau e aqui há mais dinheiro. O mesmo se aplica às artes visuais, com colecções de arte contemporânea. Até se podem abrir concursos para que sejam apresentadas propostas de como Macau pode ser melhor, e não para locais apenas: é preciso ir buscar lá fora os melhores comissários. Macau pode organizar eventos de grande escala e fazer melhor do que Hong Kong. Se forem bem promovidos, Hong Kong virá aos fins de semana para ver espectáculos. As pessoas de outros pontos da Ásia virão também.

– Mas essa não parece ser a aposta de quem tem poder de decisão na cultura. Os últimos anos de Museu de Arte de Macau comprovam-no.

K.B. – Sim, eu sei. É mais fácil comprar pacotes pré-pagos de exposições, Hong Kong também faz o mesmo. O problema são os recursos humanos. Se não se consegue fazer, se não se tem imaginação suficiente, contrate-se quem tem. Em Hong Kong, foram agora buscar um comissário para o projecto de design da esquadra da polícia de Central. É inglês – foi director do Mori Art Museum de Tóquio. Se há pessoas que conseguem fazer coisas de grande escala, então convidem-nas e paguem-lhes. Custa menos do que os erros que implica fazer coisas pequenas.

– Macau parece ter um problema qualquer quando se fala em convidar pessoas de fora para desenvolver projectos cá dentro, não acha?

K.B. – É a síndroma da ilha. Nesse aspecto, Hong Kong é mais aberto. Aqui é tudo à escala das 700 mil pessoas que cá vivem. Podemos ser os melhores dos melhores destes 700 mil. Mas e depois? Atravessamos a fronteira e fazemos pior do que os outros. Isto faz com que haja resistência em relação a tudo o que vem de fora. Já tive essa experiência, apesar de não interferir muito na realidade. Mas Macau podia fazer muito mais do que faz.

– E sente que isto se aplica também ao mundo das artes de Macau?

K.B. – Não estava a falar do campo das artes, mas também se aplica. O problema não é só Macau. É um problema do mundo inteiro: há demasiados artistas, é tudo demasiado confuso, muitos deles são demasiado maus, ninguém sabe o que fazer, estão a produzir em demasia e a expor demais. Macau já tem tantos artistas – porquê criar mais quando ninguém consegue vender um quadro? Não se pode apoiar o que não tem condições para sobreviver autonomamente. De quantos artistas Macau precisa? Porque precisa de tantas associações de artistas apoiadas pelo Governo? Deve ser apoiado aquilo que funciona ou aquilo que tem condições para, no futuro, funcionar. Se não mostra resultados, não se deve continuar a apoiar. Se assim não for, cria-se um sistema de dependência total – é tão bom receber dinheiro do Governo. Tenho medo disso. Claro que há alturas em que são necessários patrocínios, mas tudo aqui se tornou muito confuso.

– Macau tem nos últimos tempos insistido na ideia – política – de apostar nas indústrias culturais e criativas. Julga que se poderá estar a criar um ambiente propício a que se confunda arte e indústrias criativas?

K.B. – A arte é arte, não são indústrias criativas. É um artista a fazer o seu trabalho, em edições muito limitadas, peças únicas. As indústrias criativas são outra coisa. Mas o conceito de indústrias criativas pode ser erradamente atribuído à arte popular, que é feita com o coração, não por dinheiro. Se a ideia é apoiar a arte popular – arte de rua, por exemplo – consigo compreender a ideia. Quanto às indústrias criativas – lojas com produtos de design – isso faz-se facilmente. Dando o exemplo de Coloane: vivo aqui e vejo todos os anos edifícios a desaparecer, para darem lugar a prédios novos horríveis. Se o Governo não tomar medidas, daqui a dez anos os proprietários já terão destruído o que aqui há e isto vai passar a ser mais um sítio monótono de Macau. O que o Governo podia fazer era arrendar edifícios e depois disponibilizá-los a grupos de artistas e de criativos, através de rendas comportáveis, por um período de cinco anos, por exemplo – depois logo se veria os que têm condições para continuar. Aquilo que os artistas e os criativos precisam é de um sítio onde possam trabalhar e expor o que fazem. Isto é diferente de receber subsídios todos os anos.

– Voltando ao seu trabalho. Depois de “One of You”, o que se segue?

K.B. – Agora quero voltar à pintura. Bem, agora tenho de fazer mudanças – o dono do meu estúdio pediu-me para sair. Já mudei umas oito vezes – ou querem subir a renda, ou querem fazer obras nos espaços. No novo estúdio, quero voltar a pintar. Tenho algumas ideias. Mas quero também parar com as exposições, adiei-as todas, preciso de um ano para estar só no estúdio.

– Para quando uma exposição em Macau?

K.B. – Não para já. Cada sítio tem uma espécie de medida em relação às aparições públicas. Expor em Macau é bastante perigoso – convém fazê-lo uma vez a cada cinco anos ou, então, três anos. Mas não com demasiada frequência. Em caso contrário, não faz sentido. Em Hong Kong, exponho a cada dois anos.

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